Natascha relembra frustração na Copa de 2023, celebra recomeço no Palmeiras e sonha com Mundial em casa
Após superar lesões, frustrações e uma ausência dolorosa na Copa de 2023, goleira do Palmeiras trabalha para recuperar espaço e voltar à Seleção Brasileira

Aos 28 anos, Natascha Honegger está pronta para deixar para trás um dos períodos mais desafiadores da carreira. A goleira do Palmeiras está na fase final de recuperação de rupturas no ligamento cruzado anterior (LCA), no ligamento colateral medial (LCM) e no menisco sofridas em maio de 2025 e já voltou a trabalhar com o restante do elenco. Enquanto recupera o ritmo de jogo, mantém no horizonte um objetivo que a acompanha desde as primeiras convocações para a Seleção Brasileira: disputar uma Copa do Mundo.
Filha de mãe brasileira e pai suíço, Natascha nasceu em Greifensee, na Suíça, mas construiu uma forte ligação com o Brasil desde a infância. Em entrevista exclusiva ao Lance!, a goleira falou sobre a recuperação física, relembrou momentos decisivos da carreira e admitiu que a Copa do Mundo de 2027, que será disputada em solo brasileiro, é a principal meta dos próximos meses.
— Meu grande objetivo é estar na Copa do Mundo de 2027. Disputar uma Copa do Mundo com a Seleção Brasileira é um dos maiores sonhos da minha carreira. Quero chegar preparada, competitiva e merecedora dessa oportunidade — afirmou.
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Da Suíça ao futebol brasileiro
A relação de Natascha com o futebol começou cedo, por volta dos quatro. Levada pelo pai aos treinos do irmão mais velho, passou a conviver com a bola. A mãe, inicialmente, preferia vê-la em modalidades consideradas mais tradicionais para meninas, como balé ou atletismo, mas o interesse pelo futebol acabou prevalecendo.
A goleira contou que cresceu em um ambiente onde a carreira esportiva era frequentemente vista com desconfiança. Na Suíça, segundo ela, era comum ouvir que o mais importante era investir nos estudos e em uma profissão convencional, enquanto o sonho de se tornar atleta profissional parecia distante.
Mesmo diante desse cenário, decidiu seguir no esporte. Passou pelas categorias de base do FC Zürich, atuou em equipes masculinas durante a infância e, posteriormente, construiu trajetória no futebol suíço até receber a oportunidade de atuar pelo Paris FC, da França. A mudança para o futebol brasileiro, porém, era um desejo antigo.
Natascha diz que as visitas frequentes ao Brasil durante as férias ajudaram a fortalecer o vínculo com o país. A goleira passava temporadas com familiares no interior do Rio de Janeiro e enxergava no futebol brasileiro uma paixão diferente daquela encontrada na Europa.
— Para nós, que nascemos na Europa, o Brasil é o país do futebol. Sempre tive essa conexão com o país, com a cultura e com a forma como as pessoas vivem o esporte.

Passagem pelo Corinthians e momento mais difícil da carreira
A chegada ao Brasil aconteceu em 2021, quando acertou com o Corinthians. A expectativa era alta, mas o período foi marcado por dificuldades físicas e emocionais.
Natascha relembrou que precisou lidar com uma suposta alteração no exame cardiológico, o que citou com 'falso diagnóstico médico' e a falta de sequência dentro de campo. Segundo ela, a situação abalou sua confiança e tornou o processo de adaptação mais complicado do que imaginava.
— Eu nunca acreditei que eu tinha isso, né? E eu pedi para o Corinthians para ser emprestada, porque meu foco era a Copa América, né? Lá em 2022. Então eu pedi para ser emprestada para reganhar a confiança, né? Eu lembro dos meus primeiros treinos depois daquele diagnóstico, fiz um passe errado e as pessoas gritavam comigo. Eu pensei: 'Meu Deus, eu não treinava quatro meses, calma aí. Cadê a empatia? — disse ela.
Buscando recuperar espaço e voltar a atuar regularmente, aceitou um empréstimo ao Flamengo em 2022, e a decisão teve efeito imediato. Com mais oportunidades, recuperou a confiança e voltou ao radar da Seleção Brasileira.
— Foi o momento que eu percebi que precisava mudar as paredes de casa para recuperar a confiança, me reconectar comigo mesma e encontrar meu futebol novamente. Eu pedi para o Corinthians para ser emprestada, porque o meu foco era a Copa América. Eu precisava recuperar a confiança.

A frustração de ficar fora da Copa de 2023
Elogiada pela treinadora Pia Sundhage, então comandante da Amarelinha, Natascha destacou a boa relação que tinha com a treinadora sueca e a facilidade de adaptação.
— Quando eu recebi a oportunidade de jogar lá (na Seleção Brasileira), eu acho que foi em março de 2020, que eu joguei no comando da Pia, que eu entrei no jogo contra a Holanda. Foi incrível, ainda mais pela confiança que eles me passaram — relembra.
Após participar do ciclo da Seleção Brasileira e ser convocada para a Copa América de 2022, Natascha acreditava que tinha chances reais de disputar a Copa do Mundo da Austrália e Nova Zelândia. A convocação final, porém, trouxe uma surpresa. A goleira ficou fora da lista escolhida pela então técnica Pia Sundhage, e a goleira Bárbara (Flamengo) foi convocada, junto com Lelê (Corinthians) e Camila (Santos).
— Foi um soco no estômago. Eu realmente acreditava que tinha chance. Chorei bastante quando saiu a convocação.
Apesar da frustração, ela afirma que o episódio serviu como aprendizado e motivação para seguir buscando espaço.
— Foi difícil de engolir, porque ela (Bárbara) não estava jogando, estava fora das convocações. Mas a gente sabe que isso faz parte do futebol. No final, o treinador leva as melhores que, na opinião dele, estão rendendo e agregando ao time. No início foi difícil. Eu chorei bastante, não vou mentir. Quando alguém falava Copa, eu chorava. Mas são momentos que te fazem crescer, levantar e relembrar por que você está fazendo todo esse esforço — diz Natascha.
Natascha também destacou que compreende os critérios utilizados pela comissão técnica na época, especialmente pela experiência das goleiras convocadas, mas admite que precisou de tempo para processar a decisão.
— Hoje eu acho que tinha que ser assim, porque todos esses desafios me ajudaram a enxergar o futebol de forma diferente.

Escolha pelo Palmeiras e nova reviravolta
Pouco depois de retornar à Suíça para defender o Basel, clube do coração de seu pai, e ficar próxima da família, a goleira recebeu o convite do Palmeiras.
A proposta chegou em um momento de reflexão pois, além do interesse de clubes europeus, havia a preocupação com a reação dos torcedores por conta da passagem pelo Corinthians. Mesmo assim, optou por voltar ao Brasil. A possibilidade de ganhar visibilidade no futebol brasileiro e permanecer próxima da Seleção Brasileira teve peso na decisão.
— Eu precisava mostrar quem era a Natascha para o futebol brasileiro. Muitas pessoas nem sabiam que eu defendia a Seleção Brasileira.
A nova etapa, entretanto, foi interrompida por mais um obstáculo: em maio de 2024, a goleira rompeu o tendão de Aquiles e iniciou um longo período de recuperação. No ano seguinte, foram as lesões no joelho que interromperam a sequência no Verdão.
Recuperação entra na reta final
Quase um ano após a cirurgia, Natascha voltou a trabalhar com o restante do elenco e já participa das atividades em campo. O principal foco neste momento é recuperar a força muscular da perna lesionada e alcançar os índices necessários para receber liberação médica definitiva.
— Estou treinando com o grupo e me sentindo cada vez melhor. A recuperação está acontecendo de forma gradual e sem pressa.
A goleira também destacou o apoio recebido pelo departamento médico do Palmeiras e pelas companheiras de posição durante todo o processo. Kate Tapia e Tainá, goleiras do Palmeiras, que já enfrentaram lesões graves na carreira, estiveram entre as atletas que compartilharam experiências e ajudaram durante a recuperação.
— Elas viveram processos parecidos e conseguiram me ajudar muito com orientações e apoio.
Contato constante com a Seleção
Mesmo afastada dos gramados, Natascha afirma que nunca perdeu o contato com a comissão técnica da Seleção Brasileira. A goleira revelou que recebeu acompanhamento frequente durante o período de recuperação e que os profissionais seguem monitorando sua evolução.
— Eles sempre perguntam como estou, como está o processo e acompanham as informações junto ao Palmeiras.
A disputa por uma vaga entre as goleiras da Seleção é considerada uma das mais equilibradas do ciclo. Atualmente, Lorena e Lelê aparecem como nomes consolidados, enquanto outras atletas disputam espaço nas convocações. Natascha acredita que o retorno ao alto nível pode recolocá-la nessa briga.
— Nada é garantido. Quem estiver melhor vai conquistar a vaga. Meu foco é voltar bem, ter sequência e mostrar novamente o meu futebol.
Uma goleira moldada pelo futebol moderno
Ao analisar a evolução da posição, Natascha destacou a crescente importância das goleiras na construção das jogadas e citou a influência de modelos de jogo que exigem participação constante com os pés.
A característica sempre esteve entre os pontos fortes da atleta, que costuma atuar de forma adiantada e participar da saída de bola das equipes.
— O futebol está mudando o tempo todo. Hoje a goleira precisa participar mais do jogo, ajudar na construção e estar preparada para diferentes situações dentro da partida. Estão vendo o benefício de ter uma goleira que joga e participa do jogo, porque automaticamente você tem uma a mais para ganhar esses duelos e sair de uma pressão.
Enquanto aguarda o retorno oficial aos gramados, a goleira mantém o foco na recuperação e no calendário que se aproxima. O objetivo é recuperar espaço no Palmeiras, voltar a ser opção para a Seleção Brasileira e chegar em condições de disputar a Copa do Mundo de 2027, torneio que pode representar o capítulo mais importante de uma trajetória marcada por recomeços.

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