De melhor do Brasil a alvo de críticas: o que mudou no gramado da Neo Química Arena
Reforma inédita e retorno dos jogos antes da maturação explicam mau estado do campo

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O gramado da Neo Química Arena, que por anos foi apontado por jogadores, treinadores e especialistas como o melhor do país, passou a ser alvo de críticas nas últimas semanas. As reclamações ganharam força após o empate sem gols entre Corinthians e Athletico-PR, pela 21ª rodada do Campeonato Brasileiro, quando o técnico Fernando Diniz e atletas do elenco alvinegro demonstraram insatisfação com as condições do campo.
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As críticas contrastam com a reputação construída pelo estádio desde a sua inauguração, em 2014. A mudança, no entanto, está diretamente ligada a uma reforma inédita realizada durante a pausa para a Copa do Mundo de 2026. A decisão de substituir completamente a superfície, aliada ao retorno dos jogos antes da maturação total do novo gramado, explica o cenário atual.
Reforma inédita mudou o gramado da Arena
A Neo Química Arena aproveitou a paralisação do calendário para realizar uma das maiores intervenções desde a inauguração do estádio. Após o amistoso entre Seleção Brasileira Feminina e Estados Unidos, no dia 6 de julho, o antigo gramado começou a ser retirado.
O processo incluiu a raspagem da matéria orgânica antiga, o levantamento da fibra sintética instalada poucos centímetros abaixo da superfície e a preparação do terreno para receber uma nova camada de grama. A reforma concluiu um trabalho iniciado em julho de 2025, quando foram costuradas novas fibras sintéticas ao campo.
Pela primeira vez, toda a substituição ocorreu durante o inverno brasileiro. A escolha do período foi feita justamente para favorecer o desenvolvimento da ryegrass, grama de inverno utilizada nos principais estádios da Europa e mantida durante todo o ano na Neo Química Arena graças ao sistema de resfriamento instalado sob o campo.

Além da troca completa da superfície, a Neo Química Arena adquiriu novos equipamentos de fotossíntese para acelerar o desenvolvimento da grama e aprimorar o processo de manutenção.
O planejamento inicial previa a realização da obra entre o fim de 2025 e o início de 2026. Entretanto, o curto intervalo entre as temporadas obrigou o adiamento para junho e julho deste ano.
Nesse contexto, o gerente operacional da Neo Química Arena, Márcio Luna, admitiu que o resultado inicial ficou abaixo do esperado.
— Isso foi a primeira vez que aconteceu na Neo Química Arena desde a sua construção. Nós já fizemos outras trocas no passado, no período de verão, e o desempenho foi satisfatório. Diante disso, já acionamos a empresa responsável pela manutenção do gramado, que atua nesta função desde a construção do estádio, para que a performance do campo esperada seja alcançada até o próximo jogo (contra o Internacional) — disse.
Por que surgiram tantas reclamações?
O principal motivo para as críticas é que o gramado voltou a receber partidas oficiais antes de completar seu processo de maturação agronômica.
A Neo Química Arena utiliza um sistema híbrido formado por ryegrass sobre uma base de areia reforçada por fibras sintéticas. Diferentemente de gramados prontos instalados em placas, esse modelo é desenvolvido por semeadura. Na prática, a grama precisa germinar, criar raízes e se integrar gradualmente às fibras sintéticas que dão sustentação ao campo.
Enquanto esse processo não é concluído, a cobertura vegetal apresenta menor densidade e algumas áreas de maior desgaste podem expor parcialmente a camada de areia.
Segundo as melhores práticas internacionais para esse tipo de superfície, o período ideal para que o gramado atinja sua maturação completa é de aproximadamente oito semanas, ou 56 dias.
Apesar disso, o Corinthians decidiu retomar as partidas na Arena antes desse prazo. Segundo a World Sports, empresa responsável pelo gramado desde a construção do estádio, os parâmetros técnicos exigidos pela Fifa para segurança e desempenho já haviam sido atingidos cerca de 40 dias após o início da semeadura.
— A World Sports, responsável pela implantação e gestão do gramado desde a construção da Arena, segue executando, em conjunto com a equipe do estádio, um protocolo específico de manejo para favorecer a consolidação do sistema radicular. A expectativa é que, dentro de aproximadamente quatro semanas, o gramado atinja plenamente o padrão de qualidade e performance que tornou a Neo Química Arena uma referência internacional em gramados esportivos — disse, em nota.
Após as reclamações, o executivo de futebol Marcelo Paz afirmou que a empresa reconheceu que o desempenho do gramado ficou abaixo do esperado.
— Esperava-se que, já na volta dos jogos, na partida contra o Remo, o gramado estivesse com performance melhor. Infelizmente não aconteceu. A grama é um ser vivo, a evolução que se esperava não teve. Tivemos esse problema, principalmente no jogo contra o Athletico-PR — apontou.
— Viemos aqui conversar e cobrar da empresa uma solução. Eles reconheceram o erro e que não aconteceu como se planejava. Houve um compromisso geral da gestão da Arena, da empresa, do futebol do clube, de uma força-tarefa nos próximos seis dias para que até o jogo contra o Internacional, o gramado já esteja melhor, em melhores condições, e que siga a melhoria contínua até que o gramado da Neo Química volte a ser o melhor gramado do Brasil — seguiu.
Como o gramado interfere no estilo de Fernando Diniz?
Para entender de que forma um campo em condições inferiores pode afetar o trabalho do técnico Fernando Diniz, cuja equipe prioriza posse de bola, passes curtos e construção desde a defesa, o Lance! ouviu o ex-volante e comentarista Zé Elias.
Na avaliação, o estilo de jogo baseado na posse de bola, na troca rápida de passes e na intensa movimentação exige uma superfície em boas condições para que a equipe consiga executar a proposta com eficiência. Ao mesmo tempo, ele pondera que a qualidade técnica dos jogadores também tem peso e que o gramado não explica, sozinho, um eventual desempenho abaixo do esperado.
— O estilo de jogo do Fernando Diniz, sim, atrapalha um pouco. Porque realmente ele precisa de um campo bom para poder desenvolver essa velocidade com a bola nos pés. Toca, passa, toca, se movimenta, toca, passa. Isso daí, se você não tiver um campo bom, realmente atrapalha. Mas depende muito também da qualidade do jogador. Porque tem muito jogador que, mesmo com o campo bom, não consegue fazer isso. Então, como eu te falei, às vezes isso daí pode ser também uma muleta para os caras falarem que não conseguiram jogar o futebol porque o campo está ruim. Nem sempre funciona assim. Se você tiver jogadores técnicos, às vezes eles conseguem desenvolver o jogo, talvez não com a mesma velocidade. Mas o jogo eles conseguem por conta da técnica que têm — comentou.
Cabe ressaltar que o técnico Fernando Diniz fez duras críticas ao estado do gramado após o empate com o Athletico-PR. Segundo o treinador, quando enfrentava o Corinthians como adversário, sempre via o campo como um aliado da equipe.
— É frustrante porque eu sempre joguei aqui como adversário e o campo sempre foi uma arma para o Corinthians. Eu não sou especialista em campo, mas este é o pior gramado desde que a Arena foi construída. Eu jogo aqui todo ano, desde que a inauguração da Arena. Se o campo fosse ficar dessa forma, tinham que ter avisado: "Quando for voltar, o campo não vai estar em boas condições, vai estar perigoso, vai ter areia" — reclamou.
Corinthians teve três jogadores lesionados
Um fato que chamou atenção é que o Corinthians teve três jogadores que apresentaram problemas físicos após as primeiras partidas no novo gramado. Além da grave lesão do meia Zakaria Labyad, que sofreu ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA) e lesão no menisco do joelho esquerdo ao prender o pé no gramado, o meia Rodrigo Garro sofreu um trauma no pé direito. Já Yuri Alberto deixou o campo com uma lesão muscular na parte posterior da coxa direita e não tem data para retornar aos jogos. Os lances ocorreram justamente no duelo contra equipe parananense, pelo Brasileirão.
— O Yuri (Alberto), em 20 minutos, teve uma lesão muscular. Teve outros fatores que impactam no futebol. O Labyad provavelmente tem muito a ver com o campo, infelizmente — disse Fernando Diniz.
— Hoje teve cinco (jogadores) com joelho ralado. Pode prender e machucar. Diretoria está cobrando. Todo mundo vindo aqui tentando fazer o melhor, e as pessoas do campo têm que se mexer para entregar o gramado como o Corinthians sempre teve — seguiu.

Na opinião de Zé Elias, um gramado abaixo das condições ideais interfere em todas as posições.
— Afeta todo mundo. Porque cada setor de campo exige uma condição do jogador. Um zagueiro hoje tem que ter um bom domínio, tem que ter um bom passe, porque hoje as jogadas começam com ele. Então, se o campo estiver ruim, realmente ele vai ter uma certa dificuldade, e aí vai se tornar um jogo lento para o zagueiro. Os jogadores de meio-campo também, mas depende da posição, porque tem jogadores que jogam no dois toques e vão para a área finalizar. Como eu falei, depende muitas vezes do estilo de jogo do treinador e do time. Aí isso realmente pode atrapalhar, pode prejudicar, sim. Como às vezes não. Como eu te falei, dependendo se você jogar num sistema mais defensivo, a organização vai ser prioridade. Então, quando você tem um time muito organizado, você vai descansar mais, no sentido de que vai estar mais parado, se posicionando melhor para explorar o contra-ataque. Tudo depende também da maneira como você arma a sua equipe, mas normalmente, quando o campo é ruim, você tem dificuldades realmente para desenvolver um bom futebol — seguiu.
O Corinthians voltará a atuar na Neo Química Arena nesta quinta-feira (6), às 20h, contra o Internacional, pelo jogo de volta das oitavas de final da Copa do Brasil. A expectativa da diretoria e da World Sports é que o gramado apresente evolução já para o confronto, embora o processo completo de maturação ainda deva levar algumas semanas.
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