Rival do Brasil, Marrocos buscou filhos de imigrantes para brilhar na Copa
Adversário do Brasil garimpou talentos jovens na Europa para fortalecer seleção

Quando a bola rolar neste sábado (13), às 19h (de Brasília), para Brasil e Marrocos em Nova Jersey, a seleção marroquina entrará em campo com um elenco moldado por uma estratégia sofisticada de recrutamento: a busca por filhos e netos de imigrantes talentosos espalhados pela Europa.
A política ajudou a transformar o Marrocos na seleção africana mais bem colocada do ranking mundial, em sétimo lugar, e em uma das principais surpresas do futebol recente. A campanha histórica até as semifinais da Copa de 2022 foi construída por uma geração que cresceu em diferentes países europeus, treinou em algumas das melhores academias do continente e, em determinado momento da carreira, escolheu defender as cores marroquinas.

África faz justiça com recorde na Copa do Mundo e mira profecia de Pelé
Os exemplos se multiplicam. O lateral-direito Achraf Hakimi, do PSG, nasceu e foi criado na Espanha. O meia Brahim Díaz, do Real Madrid, nasceu em Málaga, vestiu as camisas das seleções de base espanholas e chegou a atuar pela equipe principal antes de optar pelo Marrocos em 2024.
A convocação para a Copa de 2026 ilustra esse processo. O caso mais recente é o do volante Ayyoub Bouaddi, joia de 18 anos do Lille, que disputou competições de base pela França e foi convencido a integrar os Leões do Atlas após meses de conversas entre a federação marroquina, o jogador e sua família. Além de Bouaddi, o Marrocos incorporou recentemente atletas como Issa Diop e Anass Salah-Eddine, que tiveram suas mudanças de elegibilidade aprovadas pela Fifa.
Essa conexão com a diáspora pode ampliar o conjunto de talentos disponíveis e aumentar a diversidade de características técnicas dentro de um elenco. O efeito não garante títulos, mas oferece mais opções para a construção de equipes competitivas. O grande objetivo do Marrocos é ter uma seleção muito forte na Copa de 2030, quando será um dos países-sede, junto com Espanha e Portugal.

Quarto lugar na Copa do Catar atraiu mais jovens
Os dirigentes marroquinos encontraram respaldo nas regras da Fifa. Um jogador pode representar uma seleção se tiver nascido no país, possuir pai, mãe, avô ou avó nascidos naquele território ou cumprir critérios de residência. Isso permitiu ao Marrocos competir diretamente com potências como França, Espanha, Bélgica e Holanda pela escolha de jovens talentos com dupla nacionalidade.
O trabalho ganhou credibilidade após o Mundial do Catar. A façanha de alcançar as semifinais tornou-se uma poderosa ferramenta de convencimento para novos jogadores. A mensagem passou a ser simples: defender o Marrocos não significa abrir mão da possibilidade de disputar os maiores torneios do mundo. Ao contrário: é possível ganhar títulos importantes com a camisa da seleção, como aconteceu no ano passado, no Mundial Sub-20, no Chile. Os marroquinos sagraram-se campeões depois de vencer a Espanha por 2 a 0 e o Brasil por 2 a 1 na fase de grupos e derrotar a Argentina por 2 a 0 na decisão.
Pesquisa aponta impacto de jogadores nascidos no exterior em seleções
A estratégia também encontra respaldo em estudos acadêmicos sobre migração e desempenho esportivo. Em pesquisa que analisou todas as Copas do Mundo entre 1970 e 2018, o pesquisador John Bergerson, da Universidade Georgetown, em Washington, concluiu que, após controlar fatores como população, histórico colonial e características econômicas dos países, existe uma relação positiva e estatisticamente significativa entre o número de jogadores nascidos no exterior e o desempenho das seleções.
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O resultado mais relevante do trabalho mostra que cada jogador adicional nascido fora do país esteve associado, em média, a um aumento de 0,154 partida disputada em uma Copa do Mundo. Como avançar de fase significa jogar mais partidas, o indicador sugere uma associação entre ampliação do grupo de talentos e melhores campanhas.
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Bergerson aponta ainda que a migração amplia o universo de atletas disponíveis para uma seleção e permite incorporar jogadores formados em ambientes altamente competitivos. O estudo destaca que corredores migratórios históricos e regras de elegibilidade mais flexíveis aumentam o acesso a talentos que, de outra forma, poderiam representar outras nações.

Seleção tem 19 jogadores nascidos fora do país
A seleção de Marrocos que disputará a Copa de 2026 tem 19 jogadores nascidos fora do país. A maior estrela é o lateral-direito Hakimi, bicampeão da Champions pelo PSG, nascido em Madri, na Espanha, assim como o meia Brahim Diaz, natural de Málaga. O goleiro Bounou é de Montreal, no Canadá. Já o zagueiro Diop é de Toulouse, na França, mesma origem do meia El Aynaoui, que nasceu em Nancy. Há jogadores também da Holanda e da Bélgica.
Atletas nascidos no exterior não garantem títulos por si só. A Argentina conquistou a Copa de 2022 sem nenhum atleta nascido fora do país. Infraestrutura, tradição, qualidade técnica e investimento continuam sendo determinantes para o sucesso. Ainda assim, a pesquisa conclui que ampliar a base de recrutamento tende a oferecer vantagens competitivas relevantes.
O Marrocos parece ter entendido essa lógica antes de muitos rivais. Ao mesmo tempo em que investiu em projetos internos, como a Academia Mohammed VI, a federação passou anos monitorando jovens descendentes de marroquinos em centros de formação espalhados pela Europa. Assim, Marrocos quer continuar surpreendendo na Copa do Mundo. E quer começar contra o Brasil.
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