Possível rival do Brasil na Copa do Mundo, Inglaterra vive dependência de Harry Kane
Ingleses encaram o México por uma vaga nas quartas de final

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Poucas seleções chegam ao mata-mata de uma Copa do Mundo transmitindo segurança absoluta. A Inglaterra certamente não faz parte desse grupo. A classificação para as oitavas de final veio com uma vitória por 2 a 1, de virada, sobre a República Democrática do Congo, em Atlanta, suficiente para mantê-la viva na disputa pelo título e colocá-la diante do México no próximo domingo, no Estádio Azteca. Se superar os donos da casa, o caminho poderá levá-la ao encontro do Brasil nas quartas de final, em um dos confrontos mais aguardados que o torneio pode oferecer.
A Inglaterra é quase como um "amuleto" para o Brasil levantar a taça da Copa do Mundo. Em quatro dos cinco títulos Mundiais do Brasil, a Inglaterra cruzou o caminho da Seleção Brasileira: 1958, 1962, 1970 e 2002. A única vez que o Brasil foi campeão e não enfrentou a Inglaterra foi em 1994, curiosamente na Copa realizada nos Estados Unidos. Agora, os americanos dividem a sede do torneio com México e Canadá.
O resultado garantiu a permanência inglesa na competição, mas deixou evidente que a equipe de Thomas Tuchel ainda convive com dúvidas importantes. A classificação nasceu menos de uma atuação dominante e mais da capacidade individual de um jogador fora de série, que foi capaz de encontrar soluções quando o cenário caminhava para a eliminação.
Ataque poderoso, defesa vulnerável: como a Noruega chega para enfrentar o Brasil
Kane salva contra o Congo
O primeiro tempo foi um retrato das dificuldades inglesas. A República Democrática do Congo não apenas competiu de igual para igual como assumiu o controle emocional da partida logo aos sete minutos. Brian Cipenga marcou o primeiro gol internacional de sua carreira ao aproveitar um desvio de cabeça de Chancel Mbemba e finalizar cruzado, surpreendendo Jordan Pickford. Até a primeira parada para hidratação, aos 23 minutos, aquela havia sido a única finalização do jogo, um dado que sintetiza o quanto a Inglaterra demorou para encontrar qualquer tipo de organização ofensiva.
A partir dali, os ingleses cresceram em volume. Entre a parada técnica e o intervalo, produziram oito finalizações, quatro delas na direção do gol, obrigando Lionel Mpasi a realizar intervenções decisivas. Ainda assim, o placar permaneceu favorável aos africanos.
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Do outro lado, a República Democrática do Congo quase ampliou. Foi nesse contexto que Harry Kane voltou a decidir. Anthony Gordon encontrou espaço e serviu Kane duas vezes dentro da área. Em poucos minutos, uma eliminação que parecia possível deu lugar a uma classificação dramática.
Os dois gols reforçaram uma tendência que acompanha a carreira do centroavante. Kane tornou-se o primeiro jogador da Inglaterra a marcar duas vezes em uma partida de mata-mata de Copa do Mundo desde Gary Lineker, nas quartas de final de 1990 contra Camarões. Também chegou a 13 gols em Copas do Mundo, igualando o francês Just Fontaine entre os maiores artilheiros da história da competição.
Seu desempenho em confrontos eliminatórios impressiona ainda mais. Desde a Eurocopa de 2020, Kane marcou dez gols em onze partidas de mata-mata entre Copa do Mundo e Eurocopa. Somando clube e seleção desde agosto de 2025, são 72 gols em 62 partidas por Bayern de Munique e Inglaterra, números que ajudam a explicar por que, mesmo prestes a completar 33 anos, ele continua sendo o principal ponto de apoio ofensivo da equipe inglesa.

Nesta Copa do Mundo, Kane já soma cinco gols e chegou aos 84 pela seleção nacional. Sua influência vai além da capacidade de finalizar. Em uma equipe que frequentemente alterna bons e maus momentos dentro das partidas, o capitão funciona como referência técnica e emocional. Quando o restante do ataque perde confiança, quase toda decisão ofensiva acaba passando por ele.
Essa dependência, contudo, também chama atenção. O restante do setor ofensivo ainda busca regularidade. Jude Bellingham continua sendo peça fundamental na construção das jogadas, enquanto Rashford, Madueke e outros pontas alternam momentos de grande intensidade com períodos de pouca influência. As substituições acabaram mudando o destino da partida justamente porque Gordon conseguiu oferecer características que faltavam ao time desde o início.
Gordon tornou-se o primeiro atleta da história da Inglaterra a participar diretamente de mais de um gol saindo do banco em uma Copa do Mundo. Sua entrada reorganizou o ataque, aumentou a qualidade dos cruzamentos e permitiu que Kane voltasse a receber bolas em condições favoráveis dentro da área.
Inglaterra tem foça que vem do banco
A classificação também reforçou uma característica recorrente da campanha inglesa. Os reservas vêm produzindo impacto relevante desde a fase de grupos. A equipe já acumula quatro participações diretas em gols de jogadores que começaram partidas no banco de reservas, sequência iniciada quando Bukayo Saka serviu Rashford na vitória sobre a Croácia e ampliada agora pela atuação decisiva de Anthony Gordon.
Ao mesmo tempo, a partida expôs limitações que adversários de maior qualidade certamente observarão. A Inglaterra precisou de muito tempo para reagir ao gol sofrido, alternou momentos de controle com longos períodos de desorganização e, em diversos trechos do jogo, transmitiu a sensação de que qualquer erro defensivo poderia recolocar a classificação em risco. Para uma seleção que sonha em disputar o título mundial, sobreviver pode bastar em uma noite. Repetir esse padrão ao longo do mata-mata dificilmente será suficiente.
As preocupações de Thomas Tuchel, porém, não se limitam ao rendimento coletivo. A Inglaterra chega às oitavas convivendo com uma sequência de problemas físicos justamente no setor que mais sofreu durante a vitória sobre a República Democrática do Congo. A lateral direita transformou-se em um quebra-cabeça desde o início da competição. Tino Livramento deixou a concentração ainda na fase de grupos, Reece James também se lesionou, Jarell Quansah passou a ser mais um desfalque, e Djed Spence tornou-se o terceiro jogador diferente a iniciar uma partida naquela posição em apenas quatro jogos.
Contra o Congo, Spence teve dificuldades para acompanhar Brian Cipenga, protagonista do primeiro tempo africano. A solução encontrada por Tuchel foi improvisar Declan Rice na posição durante a reta final da partida, uma alternativa que resolveu a emergência daquele jogo, mas dificilmente representa um plano confortável para as fases decisivas da Copa.
O calendário amplia ainda mais esse desafio. O próximo adversário será justamente o México, que atuará no Estádio Azteca, na Cidade do México, onde construiu toda sua campanha na Copa do Mundo. A altitude de 2.240 metros preocupa a comissão técnica inglesa muito antes do apito inicial.
Tuchel não tentou esconder esse desconforto depois da classificação.
— Não sei se estamos prontos porque é uma grande desvantagem para nós. O México joga lá desde o começo do torneio e está adaptado à altitude. Nós não teremos tempo para isso — afirmou o treinador da Inglaterra.
Tuchel ainda acrescentou outra preocupação, relacionada à logística e ao ambiente que a seleção encontrará na capital mexicana.
— Também não sei se a viagem será totalmente tranquila, se todos conseguirão dormir bem, se haverá muito barulho fora do hotel. Teremos muitos obstáculos pela frente, mas nossa equipe está pronta para enfrentá-los — completou.

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Se avançar, o cenário passa a interessar diretamente ao Brasil. As duas seleções poderão se enfrentar nas quartas de final, repetindo um clássico que sempre desperta expectativa em qualquer Copa do Mundo. Antes disso, entretanto, ambas precisam superar adversários que chegam embalados. O Brasil enfrentará uma Noruega liderada por Erling Haaland, enquanto a Inglaterra tentará romper uma escrita importante do México no Azteca.
Os números da campanha inglesa ajudam a entender por que a equipe continua sendo considerada uma candidata ao título, mesmo sem convencer plenamente. Em quatro partidas, acumulou 2.219 passes, média de 554,8 por jogo, com 2.008 passes certos, equivalentes a 502 acertos por partida. O volume de circulação da bola permanece elevado, característica que acompanha os times dirigidos por Tuchel.
Pelas laterais, a produção também chama atenção. Foram 118 cruzamentos, média de 29,5 por jogo, o maior volume entre várias seleções classificadas para as oitavas. A vitória sobre o Congo ilustrou bem essa tendência. A Inglaterra realizou 35 cruzamentos de bola rolando, seu maior número em uma partida de Copa do Mundo desde o duelo justamente contra o México na fase de grupos de 1966.
No ataque, os ingleses marcaram oito gols em quatro partidas, média de dois por jogo. Criaram 74 finalizações, ou 18,5 por confronto, sendo 27 no alvo e outras 30 para fora. A maioria das conclusões acontece dentro da área. Das 74 tentativas, 59 partiram da região mais perigosa do campo, média de 14,8 por partida, enquanto apenas 15 vieram de fora da área.
O jogo aéreo também continua sendo uma arma importante. A Inglaterra já contabiliza 21 finalizações de cabeça, média de 5,3 por jogo, número que ajuda a explicar o impacto constante de Harry Kane nas jogadas de cruzamento. Não por acaso, o empate diante do Congo nasceu exatamente dessa forma, aproveitando a assistência precisa de Anthony Gordon.
Outro indicador relevante aparece na capacidade de romper linhas adversárias. A Inglaterra soma 727 ações de quebra de linhas, média de 181,8 por jogo, índice compatível com uma seleção que mantém posse elevada e procura instalar-se frequentemente no campo ofensivo. Ainda assim, transformar esse domínio territorial em controle emocional das partidas tem sido um desafio muito maior do que os números sugerem.
Talvez essa seja a principal característica da equipe até aqui. Estatisticamente, a Inglaterra produz como uma candidata ao título. Finaliza bastante, controla a posse, cruza em volume elevado e ocupa a área adversária com frequência. Em campo, entretanto, alterna longos períodos de domínio com momentos de insegurança que permitem aos adversários permanecerem vivos nas partidas.
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Caso o Brasil confirme sua classificação diante da Noruega e a Inglaterra supere o México, as quartas de final colocarão frente a frente duas seleções que ainda procuram sua melhor versão neste Mundial.
O caminho inglês até esse possível encontro mostra um time com recursos suficientes para desafiar qualquer adversário, sustentado por um centroavante que continua decidindo jogos nos momentos mais delicados. Também revela uma equipe que, até agora, precisou conviver com sustos maiores do que imaginava e que dificilmente poderá depender apenas do brilho de Harry Kane para continuar avançando na competição. Contra o Congo, essa oscilação quase custou a eliminação.
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