Estrangeiros são afastados da Copa e driblam obstáculos e preços por Messi
Valores dos ingressos se tornam problema "universal" para os torcedores, que encontram na Fan Fest uma alternativa para assistir aos jogos da Copa

ARLINGTON, TX (EUA) - Casa do Dallas Cowboys, franquia da NFL e dona da maior torcida dos Estados Unidos, Arlington teve nos estrangeiros os principais responsáveis por criar um, ainda tímido, clima de Copa do Mundo na terra do futebol americano. O movimento ganhou força durante a passagem da Argentina pela cidade, impulsionado pela presença de Messi, principal atração da primeira fase.
Para acompanhar as partidas do camisa 10, os torcedores precisaram driblar alguns obstáculos impostos pelo torneio, como a oferta limitada de ingressos diante da alta demanda e a ação do mercado paralelo de revenda, que inflacionou os preços das entradas. Em alguns casos, os bilhetes chegaram a superar R$ 40 mil para uma única partida.
A comunidade argentina radicada no Texas, somada aos estrangeiros que têm em Messi o maior ídolo, ajudou a levar às ruas e aos estádios um ambiente típico do futebol sul-americano, com bandeiraços e arquibancadas tomadas por cantos. Segundo levantamento do Pew Research Center, instituição apartidária e sem fins lucrativos sediada em Washington, D.C., cerca de 23 mil argentinos vivem no Estado, o equivalente a aproximadamente 10% da população de origem argentina residente nos Estados Unidos.
O resultado foi a presença de lotação máxima nos três jogos da atual campeã mundial na primeira fase, dois deles no AT&T Stadium, em Dallas, com capacidade para 70.649 torcedores. Quem não conseguiu ingresso se concentrou no Klyde Warren Park, nos arredores da cidade, e também no entorno da arena, apesar do perímetro de restrição da Fifa.
Nigeriano, um amigo e o amor por Lionel Messi
Nos últimos dez anos, a taxa de estrangeiros vivendo no Texas saltou de 9% para 18,5%, o que representa hoje cerca de um quinto da população total do estado, estimada em 31,2 milhões de habitantes. Entre eles está o motorista de aplicativo Ukinebo, nascido em Abuja, capital da Nigéria, fã de futebol e, sobretudo, de Lionel Messi.

Há dez anos no Texas, Ukinebo decidiu migrar em busca de melhores condições de vida, motivação comum entre imigrantes que chegam aos Estados Unidos. Arlington foi a cidade escolhida pela semelhança do clima com a Nigéria, com verões que passam dos 35 graus, além das oportunidades de emprego e do custo de vida mais baixo em comparação a outros estados, como Flórida, Califórnia e Nova York.
— Aqui, eu consigo viver pagando 1.300 dólares por mês em uma casa com quintal e três cômodos. Consigo viver do meu carro e ainda junto um pouco de dinheiro para enviar ao meu país. (Por que escolheu o Texas?) Parece com a minha Abuja, capital da Nigéria, clima quente na maioria do tempo. Esse negócio de Flórida e Nova York não é pra mim… Já conheci em viagem, mas não tenho como pagar 4 ou 5 mil dólares de aluguel, nem ganho isso (risos) — explicou durante corrida de aplicativo.
Ao ser perguntado sobre futebol e Copa do Mundo, a reação de felicidade foi instantânea. Ukinebo esteve presente no último compromisso da Argentina na fase de grupos da Copa, quando venceu a Jordânia por 3 a 1. Diferente de outras oportunidades, em que assistiu aos jogos na fan fest e nos arredores do estádio, nos chamados tailgates, ele pôde acompanhar Messi das arquibancadas graças a um presente de um amigo nigeriano.
— Eu fui ver meu primeiro jogo de futebol de seleção na vida e era o Messi (mostrou o ingresso online no site da Fifa). Foi presente de um amigo meu que veio da Nigéria... eu não acreditei de primeira e fiquei nervoso até ele "dar o ok" (passar no ponto de controle do estádio). Desculpa, amigo, mas eu sou torcedor da Argentina por causa do Messi já que a Nigéria não está classificada — brincou.
Questionado sobre por que não torce por outra seleção africana, ele foi direto: "Eles não torcem por nós também, e, mesmo que torcessem, o Messi é maior que todos".

Ingressos são problema "universal" para estrangeiros na Copa
Em algum momento da vida, você já ouviu a frase "o amor não tem preço". Nesta Copa do Mundo, no entanto, ele tem, e é salgado. O preço dos ingressos no torneio tem sido tema constante de debate. Enquanto alguns torcedores recorrem a movimentos organizados de seus países, como o Movimento Verde Amarelo (MVA), que viabiliza entradas com valores fixados, outros dependem do sorteio da Fifa ou de negociações paralelas para tentar realizar o sonho de assistir à competição no estádio.
As entradas, que tinham preço inicial de 60 dólares nos setores mais baratos, chegam a ultrapassar a casa dos milhares de dólares devido à especulação, ao interesse e, principalmente, ao jogo em questão.
— A Fifa pode ajustar os preços dos ingressos ao longo das fases de venda, com base na análise da demanda e da disponibilidade para cada partida — explicou a entidade em nota.
Nesse sentido, em partida válida pela terceira rodada da fase de grupos da Copa do Mundo, entre Colômbia e Portugal, o Lance! foi ao local do duelo e entrevistou alguns torcedores que comentaram sobre os preços que estavam enfrentando para assistir ao jogo, que contaria com outro grande astro, o Cristiano Ronaldo. Alguns fãs classificaram a experiência para adquirir os ingressos como "muito complicada".
De acordo com os torcedores entrevistados, o grande problema estava no valor dos ingressos. Segundo relatos ouvidos pela reportagem, os preços das entradas para a partida entre Colômbia e Portugal variavam entre US$ 3 mil e US$ 4 mil, em uma área considerada distante do campo.
— Sobre os ingressos, agora, olhando a página da Fifa, os ingressos estão mais ou menos US$ 4 mil, US$ 3,5 mil. Tentamos conversar com as pessoas, amigos, e está igual, os mesmos US$ 3 mil, US$ 2,5 mil, mas já em lugar em cima (do estádio). Mas, como está na página (da Fifa), US$ 4 mil, US$3,5 mil — relatou um torcedor colombiano ao Lance! antes da partida entre Colômbia e Portugal.
Dessa maneira, para não perderem a viagem após se deslocarem até as cidades-sede, muitos fãs que não têm condições de arcar com bilhetes que chegam a mais de R$ 23 mil estão encontrando na Fan Fest a solução ideal. O espaço se tornou a alternativa encontrada pelos torcedores para assistir às partidas em clima de Mundial, sem deixar de lado a emoção da Copa do Mundo.
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