Do Jogo da Paz à Copa: Brasil reencontra Haiti em duelo marcado por história além do futebol
Confronto de hoje decide o caminho das duas seleções no Grupo C do Mundial

Quando a bola começar a rolar às 21h30 (de Brasília) desta sexta-feira (19), no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, Brasil e Haiti estarão diante de um jogo decisivo para suas pretensões na Copa do Mundo de 2026. Para a seleção de Carlo Ancelotti, o empate na estreia aumentou a pressão por uma vitória. Para os haitianos, que voltaram ao Mundial depois de meio século, a partida representa mais um capítulo de uma trajetória improvável.
O confronto entre os dois países traz uma história feita de futebol, diplomacia, tragédias, migração e esperança, construída muito antes do apito inicial deste Mundial. Um jogo com um significado muito além da disputa de três pontos na tabela do Grupo C.
O dia em que a Seleção parou Porto Príncipe
As imagens continuam impressionantes mesmo passados mais de vinte anos. O primeiro confronto havia acontecido em 1974, em Brasília, com vitória brasileira por 4 a 0.
Talvez nenhum episódio simbolize melhor essa conexão do que a tarde de 18 de agosto de 2004. O Haiti atravessava uma das fases mais delicadas de sua história recente. A deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide havia mergulhado o país em uma crise política profunda. A violência se espalhava pelas ruas. A população convivia diariamente com insegurança, pobreza extrema e instituições fragilizadas. Foi nesse cenário que surgiu uma ideia improvável: levar ao Haiti a seleção mais popular do planeta.
Carlos Alberto Parreira comandava uma equipe que ainda carregava o brilho do pentacampeonato conquistado dois anos antes. Ronaldo era um dos rostos mais conhecidos do esporte mundial. Ronaldinho Gaúcho encantava a Europa. Roberto Carlos e Adriano completavam uma constelação que parecia distante da realidade haitiana.

Quando o avião da delegação pousou em Porto Príncipe, a cidade praticamente parou. As imagens daquela chegada continuam impressionantes duas décadas depois. Os jogadores desfilaram em veículos militares pelas ruas da capital, enquanto milhares de pessoas se espremiam nas calçadas. Havia crianças correndo ao lado do comboio, famílias inteiras acenando das janelas, vendedores abandonando temporariamente seus postos apenas para tentar enxergar os ídolos de perto. Não era apenas uma partida de futebol. Era um acontecimento nacional.
— O importante eram as pessoas aglomeradas na rua dos dois lados, às vezes passando em áreas muito pobres, favelas mesmo, mas as pessoas com sorriso nos lábios gritando. Eles conheciam todos os jogadores, Ronaldo, Ronaldinho, Pelé, eles não paravam de agitar os braços de bandeirinha e de gritar e acompanhando, correndo e se atropelando uns aos outros do lado esquerdo, do lado direito — recordou Parreira, ao canal do Exército brasileiro no Youtube.
Paralelamente ao amistoso, foi organizada uma campanha de desarmamento. Os ingressos para o estádio podiam ser trocados por armas entregues à missão de paz da ONU. O futebol passava a ocupar um espaço normalmente reservado à política internacional.
O chamado Jogo da Paz terminou com vitória brasileira por 6 a 0. Ronaldinho marcou três vezes. Roger Flores fez os únicos dois gols de sua trajetória pela seleção principal. Nilmar completou a goleada. O placar, no entanto, tornou-se um detalhe diante da atmosfera daquela tarde.

A repercussão foi tão significativa que a CBF recebeu posteriormente um prêmio Fair Play da Fifa pela organização do amistoso.
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Nos anos seguintes, Brasil e Haiti continuaram se encontrando em momentos esporádicos. Em 2016, pela Copa América Centenário, nos Estados Unidos, veio o terceiro encontro. Nova goleada brasileira, desta vez por 7 a 1. Foi justamente naquela partida que surgiu uma das histórias mais simbólicas dessa relação.
James Marcelin marcou o único gol haitiano e entrou para a história como o primeiro jogador do país a balançar as redes contra a Seleção Brasileira. Mais tarde, ao recordar o Jogo da Paz de 2004, contou que assistira à partida ainda menino.
— Vi o jogo na televisão. Foi algo especial. Queriam fazer aquele jogo para promover a paz no país. Era um momento crítico no Haiti, então foi muito especial. Vieram em tanques e tudo, foi insano — lembrou Marcelin ao site da Fifa. O ex-jogador é o único haitiano a marcar um gol no Brasil, no 7 a 1 da Copa América de 2016.

A presença brasileira na Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti se estendeu por anos. O primeiro comandante militar da operação foi o general Augusto Heleno, que liderou as tropas entre 2004 e 2005. Ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Heleno hoje cumpre prisão domiciliar monitorada em razão do diagnóstico de Alzheimer. O Supremo Tribunal Federal (STF) o condenou por sua participação na articulação de uma tentativa de golpe de Estado no país. A pena fixada foi de 21 anos de reclusão, em regime inicial fechado, pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, participação em organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
O futebol une Brasil e Haiti novamente
Ao longo da década seguinte, o Brasil também ampliou projetos de cooperação em áreas como saúde, educação e formação profissional. Depois do terremoto devastador de 2010, que matou mais de 100 mil pessoas e provocou prejuízos equivalentes a mais de um ano inteiro da economia haitiana, essa aproximação ganhou novas dimensões.
Ancelotti adota método que mantém elenco pronto no Brasil
Hospitais foram construídos com apoio brasileiro. Programas de capacitação profissional foram criados. Em 2012, o governo brasileiro adotou uma política humanitária específica para haitianos, facilitando a emissão de vistos. Hoje, cerca de 160 mil haitianos vivem no Brasil. Muitos reconstruíram suas vidas aqui. Alguns encontraram no futebol uma oportunidade de recomeço. É nesse ponto que surge uma das histórias mais interessantes dessa relação: o Pérolas Negras.
O clube nasceu em 2009 como parte de um projeto social ligado à presença brasileira no Haiti. A ideia era simples na formulação e ambiciosa na prática: utilizar o futebol como instrumento de formação humana para jovens em situação de vulnerabilidade.
O terremoto interrompeu temporariamente o trabalho. A destruição que atingiu o país obrigou o projeto a recomeçar praticamente do zero. Ainda assim, ele resistiu. Anos depois, atravessou o Caribe.

Em 2016, o Pérolas Negras chegou ao Brasil para disputar a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Em seguida, instalou-se em Resende, no interior do Rio de Janeiro, filiou-se à Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro e passou a competir oficialmente.
Mais do que um clube, tornou-se uma ponte. Jovens haitianos, sírios, venezuelanos e brasileiros passaram a compartilhar dormitórios, salas de aula e campos de treinamento. A formação esportiva veio acompanhada da escolarização, do aprendizado da língua portuguesa e da preparação para a vida adulta. Muitos nunca se tornaram jogadores profissionais. Ainda assim, encontraram um caminho.
Essa talvez seja a herança mais duradoura da aproximação entre Brasil e Haiti: a ideia de que o futebol pode servir como porta de entrada para algo maior. Por isso, o encontro desta sexta-feira carrega uma dimensão diferente.
De um lado estará uma seleção brasileira pressionada pela necessidade da vitória após o empate na estreia. Do outro, um Haiti que retorna à Copa do Mundo pela primeira vez desde 1974, em meio a uma realidade ainda marcada por instabilidade política, violência e dificuldades econômicas.
Os haitianos voltam ao Mundial cinquenta anos depois da primeira participação. Chegam carregando sonhos que ultrapassam os limites do futebol.
O país continua enfrentando desafios imensos. Organizações humanitárias descrevem o Haiti atual como um dos ambientes mais difíceis do planeta para a vida cotidiana. Gangues controlam partes significativas do território. Crises políticas se sucedem. Desastres naturais continuam agravando uma situação já extremamente frágil.
Ainda assim, o futebol permanece. Permanece nos campinhos improvisados. Nas camisas amarelas guardadas há anos. Nas lembranças do dia em que Ronaldo e Ronaldinho desfilaram por Porto Príncipe. Nos jovens que cruzaram o mar para estudar e jogar no Brasil. Nos atletas que agora representam a seleção conhecida como Les Grenadiers.
Quando Brasil e Haiti entrarem em campo na Filadélfia, haverá três pontos em disputa. Haverá classificações, cálculos e projeções para a sequência da Copa.
Mas haverá também algo mais difícil de medir. Uma história construída ao longo de décadas, atravessada por solidariedade, migração, futebol e memória. Uma história que começou muito antes deste Mundial e que, independentemente do resultado, continuará existindo quando o apito final encerrar mais um capítulo dessa improvável e duradoura ligação entre dois países separados pelo mar, unidos por uma bola.
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