Copa pode consolidar 'torcedor multitela' e mudar a forma como o futebol é consumido
Consumo simultâneo de celular durante a Copa acelera tendência global

A Copa do Mundo de 2026 pode consolidar uma transformação que já vem mudando a forma de consumir futebol. Levantamento da "Kantar", realizado em novembro de 2025, aponta que 77% dos brasileiros pretendem acompanhar o Mundial. Ao mesmo tempo, 45% afirmam que devem utilizar o celular durante as partidas e 23% pretendem recorrer às redes sociais, indicando que a experiência do torcedor está cada vez mais distribuída entre diferentes telas.
O comportamento acompanha uma tendência já consolidada no consumo de mídia. Pesquisa do Instituto Ipsos, divulgada em 2025, mostra que 64% dos brasileiros costumam navegar pelo celular enquanto assistem a conteúdos na televisão ou em plataformas de streaming. O dado reforça o avanço do chamado comportamento multitela, em que a atenção do público deixa de estar concentrada em uma única transmissão e passa a ser dividida entre diferentes dispositivos.
'Mais rápido que a TV' e os números do Brasil
Uma pesquisa da "TGM Research" com 3.300 brasileiros demonstrou a força da chamada "segunda tela", especialmente durante eventos esportivos. O levantamento apontou que 53% consideram a "Flashscore" o aplicativo mais rápido para atualizações esportivas ao vivo, à frente de concorrentes e de serviços ligados a emissoras tradicionais.
Atualmente, a Flashscore soma mais de 125 milhões de usuários mensais no mundo. Apenas em maio deste ano, o aplicativo registrou seu recorde histórico no Brasil: mais de 3 bilhões de visualizações.
– O torcedor, hoje, acompanha tudo em múltiplas telas ao mesmo tempo. Ele assiste à transmissão, comenta nas redes sociais e busca informações em tempo real paralelamente. Grandes eventos mostram como velocidade e atualização instantânea passaram a ser fundamentais na experiência do espectador – afirma Alexandre Vasconcellos, diretor regional da Flashscore no Brasil.

Robson Carlo, sócio-fundador da "FutebolCard", plataforma de gestão de ingressos e programas de sócio-torcedor, analisa o novo comportamento do público.
– A atenção do torcedor está cada vez mais dividida em razão das novas opções de entretenimento e da tendência por realizar outras tarefas durante a própria partida. Esses novos tipos de comportamento indicam a necessidade de dinâmicas cada vez mais interativas para captar a atenção do público. Pensar na melhor forma de conexão com os fãs é fundamental para construir um relacionamento próximo junto a eles – diz Carlo.
Atenção às apostas e à saúde mental na Copa
Se por um lado a experiência multitela amplia as possibilidades de interação durante os jogos, por outro também exige atenção ao consumo responsável. Psicólogos destacam que competições de grande apelo emocional, como a Copa do Mundo, tornam ainda mais importante o debate sobre equilíbrio, autocontrole e saúde mental.
– Grandes eventos esportivos despertam sentimentos poderosos e contraditórios como euforia e frustração ou esperança e tristeza. No ambiente digital, altamente conectado, essas emoções podem ser potencializadas pela velocidade e simultaneidade das informações e pela necessidade constante de interação. O mais importante é que as pessoas consigam aproveitar a experiência de forma sensata, aceitando o lado imprevisível das disputas e preservando sua saúde mental – afirma Cristiano Costa, psicólogo e diretor de conhecimento da EBAC.
Daniel Fortune, influenciador digital especialista em bets e jogo responsável, também aponta a importância dos cuidados na hora de apostar e reforça que as apostas não devem ser destinadas a crianças.
– É evidente que a competitividade do torneio e a grande quantidade de boas partidas pode desencadear o desejo por mais apostas, mas o cuidado redobrado sempre deve estar presente para que o apostador não perca de vista que o jogo não deve visar o enriquecimento nem uma renda extra. Outro ponto muito importante é o fato de o evento também poder chamar a atenção do público infanto-juvenil para a realização das apostas. Entretanto, mesmo na companhia dos pais, esse público não deve jogar e inclusive já é proibido de apostar nas bets regulamentadas – pontua.
Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e sócio do Betlaw, alerta para os deveres das plataformas.
– Toda publicidade no setor deve seguir as diretrizes de leis como a 1.4790/23 e o anexo X do Conar. Os operadores devem praticar uma publicidade responsável e que de forma alguma possa transmitir ao jogador a sensação de que as apostas geram enriquecimento e ascensão social – destaca.
João Fraga, CEO da Paag, empresa de tecnologia que oferece plataforma de gestão de risco para o mercado de bets, analisa os desafios tecnológicos.
– Com a movimentação bilionária nas plataformas, o cuidado dos operadores quanto aos sistemas de antifraude e de jogo responsável deve ser redobrado. A grande quantidade de acessos simultâneos também demandará estabilidade tecnológica, e a eficiência e a velocidade do processamento dos pagamentos também será fundamental para garantir o sucesso da operação e a segurança de todos – afirma.
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