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Como a imigração ajudou a transformar a França em potência do futebol

Centros de formação e garimpo de talentos nas periferias de Paris explicam sucesso da seleção

PorThiago BragaSão Paulo (SP)
16/06/2026 07:00
Mbappé - França - Seleção francesa
Mbappé é um dos jogadores franceses que têm país nascidos fora da França (Foto: FRANCK FIFE / AFP)
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Quando a França estrear na Copa do Mundo nesta terça-feira (16), contra Senegal, em Nova Jersey, levará para campo muito mais do que uma das seleções mais talentosas do planeta. Levará também o resultado de um processo iniciado há décadas, construído entre ondas migratórias, campos de várzea e conjuntos habitacionais da periferia de Paris.

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Hoje, a equipe de Didier Deschamps reúne alguns dos jogadores mais valorizados do futebol internacional. Kylian Mbappé tem pai camaronês e mãe argelina. Michael Olise nasceu na Inglaterra, é filho de pai nigeriano e mãe franco-argelina. Aurélien Tchouaméni descende de camaroneses. Dayot Upamecano tem raízes na Guiné-Bissau. Bradley Barcola, Désiré Doué, Rayan Cherki, Ousmane Dembélé e Marcus Thuram também carregam histórias familiares ligadas à imigração.

O fenômeno costuma ser associado à conquista da Copa do Mundo de 1998, quando a equipe apelidada pela imprensa de "Black-Blanc-Beur" (Negro, Branco e Árabe), virou símbolo de uma França multicultural. Naquele time estavam jogadores de origem argelina, senegalesa, ganesa, armênia e caribenha. Zinedine Zidane, filho de imigrantes argelinos, tornou-se o rosto daquela geração.

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Deschamps, técnico da França, crava outra seleção como favorita à Copa

Zidane, símbolo da França multicultural e craque da seleção que ganhou a primeira Copa em 1998 (Foto Gabriel Bouys/AFP)

Transformação começou nos anos 70

A história, porém, começou muito antes. Ainda em 1938, na Copa disputada em território francês, Raoul Diagne entrou em campo e se tornou o primeiro jogador negro a representar a seleção do país em um Mundial. Nascido na Guiana Francesa e descendente de senegaleses, ele abriu um caminho que seria ampliado ao longo das décadas seguintes.

Nos anos 1950 e 1960, jogadores oriundos das antigas colônias francesas do norte da África passaram a ocupar espaço crescente no futebol nacional. Mais tarde vieram nomes como o do zagueiro Marius Trésor, nascido em Guadalupe, e do meia Jean Tigana, que nasceu em Bamako, no Mali, antes de construir carreira na França. Os dois foram destaques do time quarto colocado na Copa do Mundo de 1982. E Tigana formou o meio-campo com o astro Michel Platini e o pequenino Alain Giresse na equipe campeã da Eurocopa de 1984.

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A grande transformação, entretanto, ocorreu um pouco antes, no início dos anos 1970. Depois de um período de resultados ruins, a Federação Francesa reformulou profundamente seu sistema de desenvolvimento de atletas. O país passou a investir na identificação precoce de talentos, criou uma rede nacional de observação e fortaleceu centros de treinamento que trabalhavam em parceria com os clubes. Foi nesse momento que os subúrbios passaram a ganhar importância estratégica.

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O INF Clairefontaine é o CT da seleção e o principal centro formador de talentos (Foto Divulgação)

Nos subúrbios de Paris, o garimpo de talentos

A região de Île-de-France, onde estão Paris e sua extensa área metropolitana, transformou-se no principal celeiro do futebol francês. A área reúne mais de 12 milhões de habitantes, concentra cerca de um quinto da população do país e abriga aproximadamente 40% dos imigrantes que vivem na França.

A quantidade de oportunidades também ajuda a explicar o fenômeno. Apenas a região parisiense possui cerca de 1.100 clubes filiados às federações locais. São desses clubes formadores, muitos amadores, que os treinadores da Federação Francesa buscam talentos para serem lapidados em seus centros de excelência.

O principal centro é o INF Clairefontaine, o Instituto Nacional de Futebol, construído em 1988 e bancado pela Federação, que garimpa jovens entre 13 e 15 anos da região da Île-de-France. Ele ocupa uma área de 56 hectares, com 14 campos de futebol, academia e estrutura de ponta para análise de desempenho e recuperação médica. Além de residências com 220 quartos, oferece matrícula em escolas de primeiro e segundo grau em Rambouillet, para os garotos seguirem seus estudos. Eles ficam lá de segunda a sexta e voltam nos fins de semana para o convívio com as famílias e para disputar jogos nos seus clubes de origem. Tudo pago pela Federação. É o mesmo lugar do CT da seleção principal, que tem à sua disposição um castelo do século XVII que serve de alojamento.

O resultado aparece repetidamente nas listas de convocados. Thierry Henry, atacante campeão em 1998 e carrasco do Brasil em 2006, cresceu em Les Ulis, nos arredores de Paris, e se formou nesse centro. Nicolas Anelka surgiu na mesma região e também é cria do CT de Clairefontaine, assim como Mbappé, que nasceu em Bondy, um dos municípios da periferia parisiense, e foi descoberto aos 13 anos num clube amador local pelos olheiros da Federação. Paul Pogba, Patrice Evra, Louis Saha e muitos outros percorreram trajetórias semelhantes. William Saliba também foi formado na região.

A Federação mantém outros 15 centros de excelência espalhados pelo país. Do centro de Liévin saíram o lateral Pavard e o zagueiro Varane. O CT de Castelmaurou revelou o meia Rabiot.

Jogadores da França com a camisa dos seus clubes formadores (Foto: Divulgação/ França)
Jogadores da seleção da França posam com a camisa dos seus clubes formadores (Foto: Divulgação)

A influência dos subúrbios franceses extrapolou as fronteiras do país. A Copa do Mundo de 2022 e a Copa Africana de Nações de 2023 mostraram isso de forma clara. Diversos jogadores formados nos arredores de Paris acabaram escolhendo representar as seleções de origem de suas famílias. A Costa do Marfim, campeã africana em 2023, teve seis titulares na final que cresceram ou foram formados na região parisiense.

A busca de reconexão com as raízes africanas motivou também um dos filhos de Zinedine Zidane, o herói da conquista do primeiro título mundial da França, em 1998, a defender a seleção de outro país. Luca Zidane, o segundo dos quatro herdeiros do astro, jogará pela Argélia nesta Copa do Mundo. Goleiro formado na base do Real Madrid, ele joga pelo Granada, da Espanha, e resolveu atuar pela seleção argelina para homenagear os avós paternos.

Luca Zidane em ação em Argélia x Nigéria, pela Copa Africana de Nações
Luca Zidane, filho do craque Zidane, defenderá a Argélia na Copa do Mundo (Foto: Sebastien Bozon/AFP)

Outros jovens formados nos 16 centros de excelência da Federação Francesa fizeram escolha semelhante, privilegiando a origem africana. Esse movimento gerou até tensões dentro do próprio futebol francês. Em 2011, a federação enfrentou uma crise após a divulgação de discussões internas sobre a possibilidade de limitar a presença de atletas com dupla nacionalidade nos centros de formação. A preocupação era simples: investir anos no desenvolvimento de jogadores que mais tarde poderiam defender seleções de outros países.

Modelo multicultural e vencedor

O episódio gerou forte repercussão e acabou abandonado. Na prática, a França continuou apostando no mesmo modelo. Os resultados ajudam a explicar a escolha. A seleção foi campeã mundial em 1998 e 2018, vice em 2006 e 2022, conquistou a Eurocopa de 2000 e chegou regularmente às fases decisivas dos grandes torneios das últimas três décadas. Sempre contando com descendentes de imigrantes.

Nem mesmo os maiores ídolos franceses escapam dessa história. Dos cinco franceses que conquistaram a Bola de Ouro, quatro tinham origem imigrante. Raymond Kopa era filho de poloneses. Michel Platini descendia de italianos. Zidane e Karim Benzema são filhos de famílias argelinas.

Olise em ação pela França (Foto: FRANCK FIFE / AFP)
O atacante Olise, um dos astros da seleção, nasceu em Londres e é filho de pai nigeriano e mãe argelina (Foto: Franck Fife/AFP)

A equipe que desembarca nos Estados Unidos para disputar a Copa de 2026 é mais um capítulo dessa trajetória.

Dos 23 convocados, apenas três nasceram fora da França: o atacante Michael Olise, natural de Londres; o centroavante Marcus Thuram, que é de Parma, na Itália; e o goleiro reserva Brice Samba, de Linzolo, no Congo. A maioria dos escolhidos pelo técnico Didier Deschamps nasceu em território francês, mas carrega raízes espalhadas por países como Argélia, Camarões, Congo, Angola, Marrocos, Mali, Guiné-Bissau e Senegal.

É uma seleção francesa em todos os documentos oficiais. Também é o retrato de um país moldado por sucessivas ondas migratórias. Ao longo de quase um século, a França transformou essa diversidade em um dos maiores patrimônios do seu futebol.

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