'Vilões' do Timão na Liberta querem título 'para ter paz'

27/10/2015 20:44

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Dois jogadores em atividade e três já aposentados. Passaram-se 21 anos, 16, 12, nove e seis... Mas cinco personagens ainda carregam marcas sofridas da história corintiana. Após falharem em momentos decisivos da Libertadores, Guinei, Alexandre Lopes, Marcelinho, Roger e Coelho querem o Timão campeão. Para serem esquecidos e, enfim, dormir em paz...

Alguns seguiram suas vidas e foram campeões em outros clubes, outros deram a volta por cima no próprio Corinthians. Mas todos estão na torcida para que o Timão vá à final e conquiste o título.

Guinei, o primeiro crucificado nem sequer gosta de tocar no assunto. Hoje treinador de meninos em escolinha de futebol em Sorocaba, interior de São Paulo, não quis atender a reportagem do LANCENET! nas primeiras ligações.

Hoje, Guinei dá aula em uma escola de futebol (Foto: Divulgação)

Mas ele atendeu. Apesar de ter feito parte do primeiro título brasileiro do clube, em 1990, não tem dúvidas de que suas falhas contra o Boca Juniors (ARG), em 1991, deixaram marcas negativas.

– Quando chegar e for campeão, o torcedor vai lembrar apenas da festa. E resultados negativos serão esquecidos – espera o ex-zagueiro.

Alexandre Lopes, também zagueiro, falhou contra o Grêmio em 1996, no Pacaembu. E se mostra mais à vontade para lembrar.

– Torço de corpo e alma para o Corinthians conseguir. Mas dormir em paz eu durmo sempre.

Sem clube, Alexandre Lopes é auxiliar (Foto: Guilherme Becker/RBS)

O caso de Marcelinho é mais recente. Ídolo do clube, estava blindado por ter ganhado o Mundial de Clubes em janeiro de 2000, meses antes de perder o fatídico pênalti contra o palmeirense Marcos. Após todos os corintianos baterem e converterem, o cobrador oficial do time falhou. O lance nunca será esquecido...

Para Roger, expulso contra o River Plate (ARG), em 2003, os benefícios de um título neste ano vão além do que dormir em paz. Para ele, o título atingirá muita gente.

– Vai sair um piano das costas de muita gente lá. Libertadores no Corinthians move tudo – diz o lateral.

Roger reclama de expulsão contra o River (Foto: Ari Ferreira)

Já Coelho, hoje no Bahia, carrega o peso de ter marcado um gol contra, também contra o River, no Pacaembu. O Timão tinha Tevez...

– Se ganhar, tudo que passou será esquecido. Gol contra, pênalti perdido, expulsão... Tudo!

Jogai por eles, Timão!

Guinei: o primeiro crucificado da Liberta

Campeão Brasileiro com o Corinthians um ano antes (o primeiro do clube), Guinei foi o primeiro jogador a ficar marcado negativamente na competição.

O rival em 1991 foi o Boca Juniors. Em La Bombonera, o zagueiro furou uma bola fácil de afastar e deu o tento de bandeja para Batistuta. A partida terminou 3 a 1, resultado que praticamente acabou com o sonho alvinegro. No Morumbi, escorregou e deu mais um gol de presente.

Após 21 anos, corintianos ainda lembram da sua falha.

– Às vezes, cruzo com torcedores e me reconhecem. Nunca tive problema de chateação. Lógico que há quem não goste de mim por causa daquilo, mas não posso agradar a todo mundo.

Bate-Bola com Guinei
Em entrevista por telefone

Você ficou marcado por causa da falha contra o Boca. Sente isso ainda hoje, 21 anos depois?
Cheguei novo no clube e fiz 128 jogos. Mas a turma só lembra dessa falha. Sempre fui titular e a gente conseguiu o objetivo de ganhar o primeiro Brasileiro. Todo jogador tem fase ruim, eu vivi a minha. Errei, mas não fui único culpado pela eliminação.

Passou por muita pressão?
Sim. Acreditavam que por sermos campeões brasileiros, iríamos levar a Libertadores também. Houve muitas críticas! Tive de aceitar, faz parte. E seguir em frente, tocar minha vida...

Foi punido pelo clube?
Fiquei um tempo afastado do time titular. Senti na época, mas foi decisão do treinador. Treinava com o grupo normal, só não era escalado. Corri atrás e recuperei a posição no time depois.

Com a palavra: Alexandre Lopes
Em entrevista por telefone

"Nem uma borracha vai apagar o lance"

Ninguém gosta de ficar marcado com um lance desses. Mas sempre fui muito profissional. Depois do Corinthians, joguei por grandes clubes. Para mim serviu como uma grande lição. Falhar acontece com todos. Quem joga está passível a isso. Naquela época a crítica foi muito forte. Se errar no Corinthians, fica marcado. Não tem como ser diferente.

Teve exagero, mas para mim é coisa do passado. O que aconteceu, nem uma borracha vai apagar. Vai ficar guardado na memória o que fiz de bom e o errado tentei tirar proveito. Torço para esse time, vejo esse Corinthians com o espírito de campeão.

A falha
Errou, ao tentar recuar uma bola, chutada em tiro de meta pelo goleiro gremista Danrley. Paulo Nunes aproveitou e fez o segundo gol.

Anos seguintes
Deixou o Timão na temporada seguinte e foi para o Sport, pelo qual foi campeão estadual em 1997. Passou de novo por Corinthians e Sport, foi para o Fluminense e conquistou a Série C, em 1999. Também jogou no exterior. Entre 2000 e 2001, no Spartak Moscou (RUS), onde foi bicampeão nacional em 2000 e 2001; e entre 2002 e 2003, no Tokyo Verdy (JAP). Foi campeão gaúcho pelo Internacio-nal (2004), passou por Lusa (2005), Criciúma (2006) e Guarani-SC (2008)

Bate-Bola com Marcelinho
Em entrevista exclusiva ao LANCENET!

Como foi a sua noite pós erro?
Foi bem complicada. Todo elenco ficou mal. Mas quando saí do estádio, poucos corintianos me xingaram. Até falaram que era pior se eu não tivesse coragem. Viram minha história no clube.

Sua história foi sua defesa?
Totalmente. Não tem jeito, quando você tem identificação é diferente. Se fosse um moleque estava morto. Como o caso do Coelho, do Roger, que falharam e tiveram de sair do clube. Todo mundo erra. Tive peito e assumi. Depois, fui campeão em 2001.

Bate-Bola: Roger
Em entrevista exclusiva ao LANCENET!

Falar sobre aquela expulsão na Libertadores incomoda você?
Não, hoje é tranquilo. O mais chato mesmo foi a entrevista coletiva após o jogo. Depois que encarei aquilo, encaro qualquer papo (risos). Quase dez anos depois, com experiência, falo numa boa.

O que significou essa falha?
Algumas pessoas acham o culpado na hora, gente que não sabe ver futebol. Tem time que segura vitória com nove em campo. Uma expulsão influencia, mas não foi só isso. A minha responsabilidade eu assumi. Assumi até mais do que deveria. Nunca fugi de nada e sempre assumi que errei.

Como foi após o erro? Mágoa?
Aprendi bastante com aquilo. Vivi seis meses ruins e aprendi muito. Coisas como o treinador me querer jogando e pessoas de dentro do clube vetando. Dizendo que eu estava queimado com a torcida. É chato. Fiquei um tempo sem treinar nos coletivos, ficava batendo bola atrás do gol. Refleti muito na época. Saí para o Flamengo e dei sequência na vida.

Como é sua relação com os corintianos hoje em dia?
Falam que poderia ter jogado mais. Queria mostrar mais. Claro que tem uns que xingam, mas os que elogiam me deixam feliz.

Coelho ainda pode reencontrar o Timão

Atualmente jogando pelo Bahia, Coelho é o único dos "vilões" que joga no Brasil e pode reencontrar o Corinthians. As equipes se enfrentam no dia 28 de julho, em Salvador. Depois de se recuperar de um problema muscular, o lateral-direito sofreu nova lesão, desta vez no joelho esquerdo, que pode tirá-lo de combate por mais um mês.

Caso não tenha condições de atuar no próximo mês, a chance vai ficar para ver de perto a Fiel. No segundo turno, sem data definida, o Tricolor Baiano virá até o Pacaembu pegar o Timão. Por causa da família, Coelho visita a capital paulista.

– Sempre vou para São Paulo, os corintianos me dão força. Tudo que eu queria era ter ganhado aquela Libertadores.

Com a palavra: Coelho
Em entrevista exclusiva ao LANCENET!

Doeu muito mais por eu ser corintiano

O que mais doeu foi o fato de eu ser corintiano desde criança, ter me criado no clube. Sempre que o time está na Libertadores, torço para ganhar. Aconteceu a falha, mas podíamos ter virado o jogo. Não sou o único culpado. Fiquei muito triste e algum tempo sem jogar. Eu mesmo não queria ir para os jogos, não era treinado. Foi um erro que pode acontecer com qualquer um. Saí amadurecido disso.

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