Luiz Razia: 'Estou 100% pronto para correr na F-1'

Torcida do Botafogo protesta em frente ao Engenhão (Foto: José Airton)
Torcida do Botafogo protesta em frente ao Engenhão (Foto: José Airton)

Acada dia, Luiz Razia se credencia para ser o próximo brasileiro a estrear na Fórmula 1. Líder da GP2, principal série de acesso à maior categoria do automobilismo, o piloto baiano negocia com três times para debutar em 2013. Cauteloso, não quer revelar quais, mas as nanicas Caterham, Marussia e HRT estão fora dos planos.

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Nesta sexta-feira, Razia visitou a redação do LANCENET! e conversou sobre a temporada da GP2, na qual poderá se tornar o primeiro brasileiro campeão na história, a situação crítica na base no Brasil e o sonho de chegar à Fórmula 1.

Entrevista: Luiz Razia, piloto brasileiro líder da GP2

LANCENET!: Você se vê na melhor fase da carreira?
LUIZ RAZIA: A gente pode dizer que sim. Já tive muitos bons anos anteriores mas esse momento está muito bom. A categoria de acesso à Fórmula 1 é muito disputada. Cerca de 70% dos pilotos da F-1 passaram antes pela GP2 e estar perto do título demonstra que o momento é muito bom.

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LNET!: Você está no seu quarto ano de GP2, mas só agora você briga pelo título. O que você pegou de experiência para ter essa força?
LR: Não somente eu acumulei experiência nesses três anos como nos anteriores. Completo dez anos de carreira e parece que no décimo ano a gente consegue capitalizar o máximo de experiência e amaudrecimento. Estou colocando tudo junto e consegui uma equipe que me apoia bastante. É importante exaltar que estou com meu engenheiro pelo segundo ano seguido, o que nunca tinha acontecido. Isso ajuda bastante e tenho trabalhado incansavelmente e isso reflete.

LNET!: Qual a importância da Arden (equipe de Christian Horner, chefe da Red Bull na Fórmula 1)?
LR: É uma equipe que no começo da GP2, em 2005, foi muito bem, mas depois deu uma caída grande e não conseguiu mais bons resultados. Era uma dúvida para mim, quando entrei era difícil acreditar que eu ganharia o campeonato. Era o meu desejo e a participação do Christian Horner e do meu engenheiro me davam mais credibilidade para que eu acreditasse mais. Foi uma luta. No começo do ano passava muita informação, pela experiência que tinha acumulado nas outras equipes. E até então eles falavam "agora que você falou tudo isso, precisamos ver seus resultados na pista". E quando chegamos na primeira etapa, na Malásia, consegui ganhar, a concepção começou a mudar e eles passaram a acreditar no meu trabalho e eu no trabalho deles. E essa relação foi ficando forte, os resultados vieram e estamos numa temporada muito consistente. Em 50% das provas ficamos no pódio e vencemos quatro vezes. É continuar esse trabalho.

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LNET!: O Davide Valsecchi (vice-líder) vem caindo e o Esteban Gutierrez (terceiro), crescendo na temporada. Quem é seu principal rival?
LR: Existe uma análise de que o Gutierrez está crescendo, mas essa não é a realidade. Se você calcular de três em três corridas, o piloto que mais pontuou fui eu. Então, ele cresceu pelo fato de os resultados dele não terem sido bons. Mas em número de pontos, quem mais fez fui eu. Estou me baseando nessa análise e nas últimas três corridas vou precisar fazer o mesmo número de pontos do que nas últimas três. É importante conseguir manter isso nas corridas finais, que são diferentes. Spa é uma pista com curvas de alta, Monza é praticamente retas com chicanes e Cingapura é uma corrida noturna na rua, praticamente ninguém conhece. Será difícil acertar o carro para essas três corridas.

LNET!: Todos querem chegar à F-1 e você, por ser líder da GP2, é um grande candidato. As coisas estão bem encaminhadas?
As últimas três equipes são sempre uma possibilidade, mas estou tentando evitar ao máximo por projeção de carreira. Os pilotos que andam lá dificilmente terão outra possibilidade ao passar dos anos. É importante focar ao máximo primeiro para ganhar o campeonato da GP2, o que é de suma importância, e depois conseguir uma equipe para lutar por pontos na Fórmula 1. Mas a gente está num bom caminho.

LNET!: Essas três equipes não dão sinais de que vão se aproximar do Top 10 e você esteve como piloto em duas delas, a Marussia (Virgin na época) e Caterham (Lotus na época). O que falta?
LR: É um conjunto, é mais complexo do que só dinheiro ou organização. É uma soma dos dois. As equipes pequenas precisam mais de dinheiro para poderem crescer. Mas, da mesma forma, precisam de pessoas inteligentes e capacitadas para fazer bom fruto do dinheiro. Havia equipes como a Toyota, que tinham muito dinheiro, muitas pessoas na fábrica e não ganharam títulos, inclusive não ganharam corridas. Já uma Sauber tem menos dinheiro mas consegue fazer um carro bom por ter pessoas capacitadas. Os times pequenos primeiro precisam conseguir fundos e depois pessoas capacitadas e um líder que possa colocar as pessoas nos lugares certos. Para você ter uma ideia, a Red Bull tem 200 pessoas trabalhando só com aerodinâmica, enquanto a Caterham, na minha época, tinha 47. A desvantagem é gigante.

LNET!: Hoje há muitos pilotos pagantes e outros talentosos que estão fora da F-1. O dono de equipe vê primeiro o dinheiro ou o talento?
LR: É um conjunto dos dois. Os dirigentes procuram um piloto de calibre, que traga resultados - inclusive os últimos que subiram para a Fórmula 1 tiveram títulos em outras categorias - e depois a parte financeira, que hoje é muito importante. Não adianta pensar que só com talento que se chega à Fórmula 1. Uma pessoa sem talento não chega, é impossível, mas é preciso dinheiro de patrocinadores, inclusive para as equipes que são trampolins para as grandes, essas, por outro lado, não precisam. É muito difícil um piloto num time de ponta sem passar pelas equipes médias. Aconteceu só com um ou dois, como o Lewis Hamilton (Mclaren) e Jenson Button (Williams). Então, é preciso dinheiro e passar pelos times médios.

LNET!: E a situação do automobilismo nacional? Como analisar?
LR: O Brasil está bem no turismo, melhor do que na Europa, há muitas categorias. Mas, para os pilotos que têm o sonho de chegar à Fórmula 1, não há mais base no Brasil. A Fórmula Futuro e a Fórmula Renault não existem mais. A Fórmula Vê, que é uma categoria nova e tem um grid muito grande, tem um custo muito baixo, ou seja, quem quer ir para uma categoria maior tem de ir para a Europa. É uma questão complicada de abordar. Gostaria de ver categorias de base aqui para os pilotos que querem testar o talento, para depois irem para a Europa.

LNET!: Você se vê como o próximo brasileiro na Fórmula 1? O que sua chegada pode ajudar a inspirar jovens pilotos?
LR: Faço o que gosto, meu sonho é chegar à Fórmula 1. Infelizmente não consegui no ano passado, mas estou perto de conseguir um título importante para o Brasil. Se isso vai influenciar a cabeça das pessoas, seria ótimo. A gente precisa de uma reestruturação em concepção de automobilismo no Brasil, patrocinadores, mídia. Mas quero chegar à F-1 porque é um sonho. Se isso inspirar outras pessoas, terei um enorme orgulho.

LNET!: Você não pilotou em corrida, mas está no circo da F-1 há dois anos. Em quais pilotos você se inspira?
LR: O Vettel é muito rápido de classificação e é importante analisar como ele conduz o carro. E o Alonso é muito completo, não só por ser egoísta, mas por aproveitar o carro que tem e pela autoconfiança alta. Esses dois pilotos seriam completos juntos, e estou sempre analisando o que estão fazendo. Não digo que estejam me inspirando, mas procuro aprender com o ensinamento que passam a cada corrida.

LNET!: E como você analisa o momento dos pilotos brasileiros na F-1?
LR: Eles estão em carreiras distintas. O Bruno Senna ainda está querendo se estabilizar com bons resultados e provar o talento dele. O Felipe Massa teve a chance de ganhar o campeonato e infelizmente não conseguiu por erros da Ferrari. Agora ele está numa fase difícil, mas isso não o impede de ficar na Fórmula 1. A projeção de ganhar um campeonato é mais difícil porque, mesmo na Ferrari, ele teria de começar bem o campeonato para estar junto ao Alonso e a Ferrari ajudar os dois. Ele precisa repensar a carreira dele, talvez procurar uma nova alternativa na Fórmula 1 e continuar correndo.

LNET!: Você a essa altura do ano está em negociações. Como está sua situação para 2013? A chance de você estrer é grande?
LR: É difícil, as coisas acontecem tão rapidamente e são tão incertas. Temos trabalhado muito, estamos tendo reuniões e contatos, mas a estrada é longa. Preciso me concentrar na GP2 e, sem distração, trabalhar no ano que vem. Se a oportunidade vier, vai vir. Preciso me concentrar no que posso controlar.

LNET!: Mas a negociação está focada nas equipes médias mesmo?
LR: As três últimas equipes são difíceis para um piloto que quer progredir na Fórmula 1. Meu sonho é conseguir disputar corridas e conquistar pódios e vitórias. Até conversando com o Christian (Horner), era difícil saber o potencial do Daniel Ricciardo (hoje na Toro Rosso), se ele era bom tecnicamente, porque no ano passado estava na HRT, que tem um carro que não dá possibilidade de o piloto demonstrar seu talento. Se colocar o Alonso e o Vettel naqueles carros, não vão fazer nada. Portanto, é importante ter uma vaga numa equipe mediana.

LNET!: Você está totalmente preparado para entrar na F-1?
LR: Estou 100%, 100%. Se me derem um carro de Fórmula 1, vou mostrar a que vim.

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