Entrevistão: Guilherme Teixeira, do início inusitado no tênis ao top 25 com João Fonseca
Técnico do número 1 do país fala da trajetória e da parceria com o carioca de 19 anos
Mineiro de Belo Horizonte e radicado há 10 anos no Rio de Janeiro, Guilherme Teixeira tem muito a celebrar em 2025. Afinal, o técnico de João Fonseca, sempre com os pés no chão, olha com alegria e humildade para o que foi conquistado na temporada atual, da mesma forma que aguarda o futuro com esperança e serenidade. Na primeira parte da entrevista exclusiva ao Lance!, na Yes Tennis, no Itanhangá Golf Club, o treinador revelou seu início no esporte, o começo da trajetória com o número 1 do Brasil e 24 do mundo, de 19 anos, analisou a subida no ranking e contou como prepara o calendário do melhor tenista do país. Veja a conversa na íntegra no vídeo acima.
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Tendo como sócios o também treinador Victor Sakamoto e o preparador físico Emmanuel Jiménez na academia no Rio, que conta com seis quadras (quatro de saibro e duas rápidas), Gui trabalha com João Fonseca desde quando o número 1 do Brasil tinha apenas 12 anos e treinava no Rio de Janeiro Country Club, em Ipanema. Em dezembro de 2024, em coletiva on-line no dia em que venceu o NextGen Finals, na Arábia Saudita, perguntado pelo Lance! sobre a importância de Gui Teixeira em sua vida, o jovem carioca respondeu que tem o técnico como um segundo pai. E a primeira viagem com o pupilo foi um momento marcante na trajetória dos dois.
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- A gente já vinha trabalhando junto, mas até ali os nossos contatos eram nos treinos na parte da tarde. Ali, na primeira viagem, a gente entendeu que a nossa relação poderia ser muito duradoura. Foi a Copa Guga (de 2018, em Florianópolis), o João tinha 12 anos. Eu cheguei no meio do torneio, nas quartas de final, ele foi até a final, perdeu para o Pedrinho (Rodrigues). Lembro que, nesse torneio, a mãe estava com ele, e eu fui com o pai no meio da competição. Era tanta confiança dos pais que eles ficaram em outro hotel, para justamente não inteferir. E, talvez se o João tivesse dormido com os pais, não tivesse tido essa sinergia. Acredito bastante nisso - recorda o técnico, hoje com 38 anos.
Sobre ser tratado como um 'segundo pai', Gui responde:
- Um tempo atrás, eu me peguei pensando nisso. O que que fez com que ele desse essas declarações, porque eu me sinto também muito bem do lado dele, como treinador, como amigo, como colega, a gente divide tanto tempo junto. Então, a gente conseguiu se entender muito rápido, sabe o que pode e o que não pode. Então, primeiro, a gente tem um respeito mútuo - destaca.
Os pais de João, Christiano e Roberta, são, desde o início, fundamentais nessa relação entre o técnico e o jogador:
- Eu dou muito crédito à família, os pais que me credenciaram perante o filho: 'Guilherme é seu treinador, as coisas de tênis você conversa com ele. Somos pais, estamos aqui para apoiar'. Mas é muito isso, nunca senti que os pais pudessem estar contra ou desafiando. Pelo contrário. Os pais aliados ao seu treinador vão te ajudar. Depois a academia foi crescendo, mais treinadores foram agregados, mas sempre com esse credenciamento, que, pra mim, é chave. Os pais são referência número um na vida de um filho. E quando você tem o aval dos seus pais, acho que fica tudo muito mais fácil - destaca.
No vídeo abaixo, Gui relembra o início da trajetória com o pupilo.
Como tenista, a maturidade do jovem carioca é uma das características que mais chamam a atenção do público, e que orgulha o técnico:
- O João tem essa capacidade de, primeiro, se sentir pertencente dos ambientes que frequenta. Ele vai trocando de ambiente muito rápido, mas ainda assim consegue pensar: 'faço parte disso aqui, sou capaz de estar aqui, eu mereço estar aqui'. E, junto a isso, ele consegue, com uma lucidez às vezes muito impressionante pra idade, encarar esses momentos e performar. Eu acho que essa é uma das grandes virtudes. Ele é um cara muito seguro de si. O João é muito bem resolvido por ele mesmo e acho que esse é o fator principal dele conseguir, junto com esse senso de pertencimento, performar nos ambientes que ele é jogado.
Se, dentro de quadra, outra das características do número 1 do Brasil é a 'agressividade absurda', como o próprio técnico (com um sorriso no rosto) define, fora dele a postura do carismático tenista carioca é outra:
- O João é um cara bem calmo, bem tranquilo. Ele gosta muito de ter o tempo dele para as coisas. Não gosta de fazer nada com pressa. Ele é um cara super organizado, que gosta de saber quando começam as coisas e quando terminam, gosta delas bem estruturadas.
Abaixo, Gui explica, em vídeo, João Fonseca fora das quadras:
Com uma legião de fãs que só aumenta ao redor do mundo, o filho famoso do casal Christiano e Roberta Fonseca também é elogiado pelos rivais. Recentemente, em entrevista exclusiva ao Lance!, o argentino Mariano Navone elogiou o relacionamento com o brasileiro.
- O João tem relação, na verdade, muito boa com todo mundo, é um cara muito tranquilo, bem low profile mesmo. Ele facilita muito a aproximação dos outros. Apesar do nível que tem, zero arrogância, isso ajuda demais o convívio dentro do circuito.
Lema de vida para o técnico de João Fonseca
Dentro desse aspecto, de relacionamento, o treinador destaca uma visão bastante interessante sobre a vida.
- Uma coisa que a gente tenta preservar é que o ser humano tem que vir sempre antes do tenista. Os valores não dependem do jogo que você faz, como joga. Sempre falo muito com ele: a gente está nos preparando para estar aqui nos próximos 15 anos. Então, é melhor que a gente cultive bons ambientes, boas amizades, que a gente trate as pessoas como gostaríamos de ser tratados.
Veja no vídeo abaixo:
No vídeo a seguir, Gui Teixeira fala da boa relação de João com os demais tenistas:
Em 2025, um dos grandes acertos da equipe liderada por Gui foi a chegada do experiente técnico argentino Franco Davin:
- Oficializamos a parceria neste ano, e a vinda dele é mais um sinal de que nosso time está tentando sempre entender o que tem de melhor e não achar que a gente é suficientemente bom. Mas buscar ajuda. Como fizemos um tempo atrás com o André Sá.
Sempre com os pés no chão, o técnico de João Fonseca também mantém a simplicidade e a sinceridade ao comentar o salto no ranking: no início de 2024, o número 1 do Brasil era o 730º do mundo. Hoje, é o 24º:
- Quando a gente olha esses números, de 700 para 25, realmente, é uma caminhada quase que assustadora. Eu confesso que a gente nunca foi de olhar muito para o ranking. Mas, obviamente, nesse ponto da carreira, é quase que inevitável.

Tal como seu pupilo, após as vitórias e derrotas, o treinador mineiro faz questão de olhar para a frente:
- Mesmo estando no top 25, o que continua nos guiando é o próximo passo, o que eu preciso fazer para me estabelecer nesse novo ranking, para que eu consiga me estabelecer e para que eu dê o novo passo. Então, obviamente, é muito gratificante para toda a equipe que está com ele (esse salto no ranking). Para ele, com certeza, para nós, nem se fala. Mas é pensar em como nos consolidar e planejar os próximos passos.
Bem-estar do pupilo em primeiro lugar
Sobre a próxima temporada, perguntado se o pupilo vai jogar pela primeira vez o Masters 1000 de Monte Carlo (em abril, um dos dois desse nível que o carioca não jogou em 2025), Gui respondeu.
- Difícil saber, porque a gente sempre preseva o bem-estar físico e mental dele. Foi uma pena, pra nós, não é fácil chegar e falar não vamos jogar Monte Carlo, um torneio tão bonito, num lugar super legal, que a gente viu o Guga jogar tantas vezes, tem um valor sentimental grande. Mas a prioridade sempre o bem-estar físico e mental do João, mais do que qualquer qualquer ponto aqui, título. Ele estando bem, a gente sabe que ele consegue dar a carga correta performar de uma forma muito boa.
Início inusitado no tênis
Ainda em Belo Horizonte, Gui Teixeira começou na modalidade com a mesma idade que João Fonseca tinha quando a parceria entre ambos teve início: 12 anos. E de uma maneira das mais inusitadas:
- Comecei no tênis pela simples coincidência de um dos meus melhores amigos ter duas raquetes. E a gente falou: 'vamos testar'. E fomos jogar naquele dia, tinha uma quadra no condomínio onde morávamos. Até hoje nunca mais parei, me apaixonei muito rápido pela modalidade - recorda, com o sorriso no rosto.
- Quando meu pai percebeu que estava muito envolvido, me perguntou: 'Guilherme, você quer isso para a sua vida?'. Lembro exatamente onde e na mesa em que estávamos, no condomínio onde morávamos. Respondi: 'pai, quero isso'.

Dos 12 aos 18 anos, Gui jogou torneios infanto-juvenis, até começar a dar aula. Com o tempo, conciliava a vida de professor nas quadras com o curso de Educação Física na PUC, na capital mineira.
- Num dado momento eu já tinha bastante alunos em Belo Horizonte. Mas senti que eu precisava de dar um próximo passo em relação a ver o tênis de uma forma um pouco mais profissional. O tênis em Belo Horizonte é muito bom. As coisas mudaram um pouco, mas, naquele momento, eram muito para o amador. E eu queria alguma coisa um pouco mais voltada ao alto rendimento. Foi então que eu vim para a Tennis Route (antes de ir para o Country, em Ipanema).
Cerca de três anos depois da chegada à capital carioca, o técnico mineiro e um dos maiores nomes da história do tênis brasileiro se conheceram e iniciaram uma trajetória das mais vitoriosas. Só em 2025, foram dois títulos de ATP's (o 250 de Buenos Aires, no saibro, em fevereiro, e o 500 da Basileia, na quadra rápida, em outubro), além de dois Challengers (em Canberra, em janeiro, e em Phoenix, em março). Tudo isso apenas na primeira temporada completa no circuito mundial.
O tênis agradece...

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