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De visitante em Madri a estrela da Seleção: a história de Vini Jr

Da viagem à capital espanhola no Natal de 2017 ao estrelato na Copa em 2026

Márcio Iannacca
Enviado Especial
Dia 05/06/2026
08:00
Vini Jr andando de carro em Madri (Foto: Márcio Iannacca / Reprodução)
imagem cameraVini Jr andando de carro em Madri na primeira visita à cidade que mudaria a sua vida (Foto: Márcio Iannacca)

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MORRISTOWN, NJ (EUA) - Em dezembro de 2017, às vésperas do Natal, um adolescente de 17 anos caminhava pelas ruas iluminadas de Madri, tentando imaginar como seria a vida dali para frente. O futuro ainda carregava muitas incógnitas. Havia talento, expectativa e um contrato milionário já assinado, mas nenhuma garantia de que o sucesso acompanharia os passos seguintes. Naquele momento, Vinicius Júnior ainda era um jovem atacante do Flamengo, com apenas alguns jogos como profissional, visitando pela primeira vez a cidade que mudaria sua vida.

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Oito anos depois, o cenário é completamente diferente.

Na Copa do Mundo de 2026, Vini Jr desembarca nos Estados Unidos em um patamar que poucos jogadores brasileiros alcançaram nas últimas décadas. Dono do prêmio de melhor jogador do mundo na temporada 2023-2024, bicampeão da Liga dos Campeões da Europa e protagonista do Real Madrid, ele chega ao Mundial como a principal referência técnica da Seleção Brasileira. Mais do que uma promessa realizada, tornou-se o jogador mais decisivo de uma geração que busca recolocar o Brasil no topo do futebol mundial.

A transformação entre aquele garoto que conhecia Madri pela primeira vez e o astro que lidera a Seleção ajuda a contar uma das histórias mais marcantes do futebol brasileiro contemporâneo.

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Na viagem realizada em dezembro de 2017, Vinicius, familiares e integrantes de seu estafe desembarcaram na capital espanhola para conhecer a estrutura do clube que havia investido pesado em sua contratação. O Real Madrid já havia acertado a compra do atacante por 45 milhões de euros, valor que, na cotação da época, ultrapassava os R$ 160 milhões e representava uma das maiores transferências da história do futebol brasileiro para um jogador tão jovem.

Mas, antes dos números, havia o encantamento.

Vinicius não conhecia praticamente nada da cidade. Durante a visita, percorreu bairros residenciais, conheceu possíveis locais de moradia e começou a visualizar uma rotina completamente diferente daquela que vivia entre São Gonçalo e o Ninho do Urubu.

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O ponto alto da viagem aconteceu quando visitou o Santiago Bernabéu.

Acostumado aos estádios brasileiros, o jovem atacante ficou impressionado com as dimensões da arena que passaria a chamar de casa poucos meses depois. Caminhou pelos corredores, observou as arquibancadas e fez o tradicional tour pelo estádio. Naquele momento, era apenas mais uma promessa brasileira contratada pelo gigante espanhol.

Os torcedores que o reconheceram durante o passeio fizeram fotos, pediram autógrafos e desejaram sorte. Ninguém imaginava que aquele garoto tímido se transformaria, anos mais tarde, em um dos maiores ídolos recentes do clube.

A visita ainda reservou um encontro especial.

Vinicius almoçou com Roberto Carlos, um dos maiores brasileiros da história do Real Madrid. O lateral, que construiu uma trajetória lendária na Espanha, apresentou detalhes do clube e ajudou a diminuir a ansiedade natural de quem estava prestes a iniciar a maior aventura da carreira.

Se o futuro parecia distante naquela semana de dezembro, a origem da história estava muito mais perto.

Antes de conquistar a Europa, Vinicius precisou vencer obstáculos comuns a milhares de jovens brasileiros que sonham em viver do futebol.

Nascido em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, cresceu em uma realidade marcada por limitações financeiras, violência urbana e desafios sociais. O futebol surgiu cedo como paixão e possibilidade de transformação.

Um personagem foi decisivo na caminhada: o tio Ulysses

Vini Jr e o tio Ullysses sorrindo em foto dentro do avião (Foto: Arquivo Pessoal)
Vini Jr e o tio Ullysses sorrindo em foto dentro do avião (Foto: Arquivo Pessoal)

A proximidade da residência do tio com o centro de treinamento do Flamengo acabou se tornando fundamental para o desenvolvimento do garoto. Enquanto os pais trabalhavam, era Ulysses quem frequentemente levava Vinicius aos treinos, acompanhava a rotina e ajudava a manter o sonho vivo.

— A gente tinha certeza de que ele seria jogador, por tudo que ele fazia, pela dedicação e pelo talento, porque ele respirava isso 24 horas por dia, mas a gente não tinha noção do nível que ele poderia chegar — relembrou Ulysses.

A frase ajuda a explicar um traço que acompanha Vinicius desde a infância: a obsessão pelo futebol.

Enquanto muitos garotos dividiam o tempo entre diferentes atividades, ele parecia concentrar todas as energias em um único objetivo. Treinava, assistia aos jogos, falava de futebol e imaginava o futuro dentro de campo.

A perseverança foi essencial

Vini Jr e o pai Vinicius na arquibancada (Foto: Arquivo Pessoal)
Vini Jr e o pai Vinicius na arquibancada (Foto: Arquivo Pessoal)

Nem sempre os caminhos foram simples. Houve deslocamentos longos, sacrifícios familiares e uma rotina exigente ainda na adolescência. Mas o talento rapidamente começou a chamar atenção nas categorias de base do Flamengo.

A explosão aconteceu em 2017.

Com apenas 16 anos, já despertava interesse internacional. Aos 17, transformou-se em uma das grandes atrações do futebol brasileiro. Sua velocidade, capacidade de drible e personalidade em campo fizeram dele uma das maiores joias reveladas pelo clube carioca neste século.

O Flamengo virou muito mais do que um clube formador.

Foi o lugar onde Vinicius construiu identidade, criou laços afetivos e viveu os primeiros momentos de idolatria. Mesmo após a transferência para a Europa, nunca escondeu o carinho pelo clube.

Vini Jr levanta troféu na base do Flamengo (Foto: Arquivo Pessoal)
Vini Jr levanta troféu na base do Flamengo (Foto: Arquivo Pessoal)

Em julho de 2018, chegou finalmente a hora da mudança definitiva para a Espanha.

O início não foi simples.

Assim como aconteceu com diversos brasileiros que desembarcaram muito jovens na Europa, Vinicius precisou enfrentar adaptação cultural, pressão da imprensa, críticas e dúvidas sobre seu potencial. Em determinados momentos, sua capacidade de finalização virou motivo de debate constante entre torcedores e analistas.

Mas a evolução foi gradual.

Ano após ano, o atacante foi ganhando espaço. Aprendeu a tomar melhores decisões, tornou-se mais eficiente perto do gol e passou a entender os diferentes momentos de uma partida.

O crescimento técnico coincidiu com um amadurecimento pessoal.

Vinicius deixou de ser apenas um jogador veloz para se transformar em uma estrela capaz de decidir confrontos gigantescos. As atuações em noites de Liga dos Campeões consolidaram sua imagem no cenário internacional.

O garoto que ficou impressionado ao conhecer o Bernabéu passou a fazer o estádio explodir de alegria.

Os gols em finais, as assistências decisivas e o protagonismo em campanhas históricas transformaram seu nome em referência para uma nova geração de madridistas.

Ao mesmo tempo, a trajetória ganhou uma dimensão que ultrapassou o futebol.

Vinicius tornou-se uma das vozes mais relevantes do esporte mundial na luta contra o racismo. Em diversos momentos, enfrentou episódios de discriminação na Espanha e decidiu responder de maneira firme, transformando experiências dolorosas em uma plataforma de conscientização.

O reconhecimento internacional veio acompanhado dos títulos.

As conquistas da Liga dos Campeões, dos campeonatos nacionais e dos principais prêmios individuais do futebol mundial consolidaram um status que parecia inimaginável naquela caminhada pelas ruas natalinas de Madri em 2017.

Ainda assim, faltava um desafio.

A Copa do Mundo.

Em 2022, no Catar, Vinicius disputou seu primeiro Mundial. Já era uma estrela em ascensão, mas ainda dividia protagonismo com jogadores mais experientes.

Agora, em 2026, o contexto é outro.

Mesmo com a presença de Neymar no elenco, é Vinicius quem chega como principal símbolo da Seleção Brasileira. Os últimos anos no Real Madrid transformaram o atacante no rosto de uma equipe que tenta recuperar o protagonismo internacional.

A própria dimensão da conquista pode ser medida pelas palavras do jogador.

— Não sei nem por onde começar. Era tão distante que parecia impossível chegar até aqui. Eu era uma criança que só jogava bola descalço nas ruas de São Gonçalo, perto da pobreza e do crime. Chegar aqui é algo muito importante para mim — afirmou o jogador.

A declaração resume uma jornada construída com talento, trabalho e resiliência.

Da infância em São Gonçalo ao estrelato mundial. Do menino que dependia da ajuda do tio para chegar aos treinos ao melhor jogador do planeta. Do visitante encantado com o Santiago Bernabéu ao protagonista das maiores noites do estádio.

Quando a bola rolar na Copa do Mundo de 2026, Vinicius Júnior carregará muito mais do que a responsabilidade de decidir partidas.

Carregará a história de um garoto que atravessou oceanos, superou dúvidas, venceu obstáculos e transformou um passeio de reconhecimento em Madri no primeiro capítulo de uma trajetória que já pertence à história do futebol brasileiro.

Vini Jr - Racismo
Vini Jr é figura ativa contra o racismo no mundo (Foto: Jose Jordan / AFP)

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