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A obsessão chamada Seleção: a longa viagem de Matheus Cunha à Copa do Mundo

Da Paraíba à elite da Europa, atacante fez da Seleção sua prioridade

PorMárcio IannaccaEnviado Especial
21/06/2026 06:31
Matheus Cunha e a sua obsessão pela Seleção (Foto: Rafael Ribeiro / Lance!)
Matheus Cunha comemora um dos seus dois gols na vitória do Brasil sobre o Haiti (Foto: Rafael Ribeiro / Lance!)

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MORRISTOWN, NJ (EUA) - Poucos jogadores da Seleção Brasileira celebram um gol com tanta leveza quanto Matheus Cunha. Quando marca, ele sobe na prancha imaginária e faz o gesto que virou sua marca registrada, como se estivesse surfando uma onda perfeita. Mas a trajetória que levou o paraibano até a Copa do Mundo está longe de ter sido tranquila. Por trás do sorriso fácil existe uma história movida por insistência, distância, saudade e uma obsessão que acompanha o atacante desde a adolescência: vestir a camisa da Seleção Brasileira.

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Natural de João Pessoa, na Paraíba, Matheus Cunha cresceu muito antes de sonhar com estádios lotados. A primeira disputa aconteceu dentro de casa.

— A primeira bola que chutei não foi de futebol, mas de tênis. O corredor de casa era o campo e meu pai, o marcador — relembra Matheus Cunha.

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O pai, Carmelo, nunca facilitava. A competitividade nasceu ali, entre brincadeiras familiares e tardes intermináveis na Praça São Gonçalo. Quando os amigos da rua passavam na porta de casa perguntando se poderiam levar Matheus para jogar, a mãe, Luziana, já sabia que seria difícil fazê-lo voltar antes do anoitecer.

Matheus Cunha ainda criança antes de iniciar a trajetória no futebol (Foto: Arquivo Pessoal)
Matheus Cunha ainda criança antes de iniciar a trajetória no futebol (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi também por influência do pai que o garoto entrou no futsal. Carmelo jogava no Cabo Branco, tradicional clube de João Pessoa, e levou o filho para um teste. Aprovado, Matheus iniciou uma trajetória que parecia destinada às quadras. Passou pelo CT Barão, teve experiências em Pernambuco e chegou a resistir à ideia de migrar para o futebol de campo.

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O destino, porém, tinha outros planos.

Ainda adolescente, deixou a Paraíba e se mudou para Curitiba para integrar as categorias de base do Coritiba. A mudança foi o primeiro grande sacrifício de uma carreira que seria construída longe de casa. Os pais jamais esconderam o quanto a distância foi dolorosa, mas entenderam que era necessário permitir que o filho perseguisse seus sonhos.

A despedida do Brasil, no entanto, aconteceu mais cedo do que muitos imaginavam.

Sem sequer estrear profissionalmente por um grande clube brasileiro, Matheus foi vendido ao FC Sion, da Suíça, em 2017. Tinha apenas 18 anos. Enquanto muitos jovens da mesma idade ainda buscavam espaço nos estaduais, ele já precisava aprender a sobreviver em outro continente.

A experiência moldou não apenas o jogador, mas também o homem.

Hoje, Matheus Cunha é um raro exemplo de atleta brasileiro que se transformou em poliglota ao longo da carreira. Além do português, fala inglês, francês, alemão e espanhol, além de compreender e se comunicar em italiano. O francês surgiu nos primeiros anos na Suíça. O alemão foi adquirido durante as passagens por RB Leipzig e Hertha Berlin. O espanhol apareceu naturalmente no Atlético de Madrid. Já o inglês se tornou parte do cotidiano na Inglaterra.

Essa facilidade para aprender idiomas é um reflexo de sua capacidade de adaptação. Em cada mudança de país, uma nova cultura. Em cada clube, um novo desafio. Em cada desafio, a mesma meta: continuar próximo da Seleção Brasileira.

Matheus Cunha nos tempos de Futsal (Foto: Arquivo Pessoal)
Matheus Cunha nos tempos de Futsal (Foto: Arquivo Pessoal)

A relação de Matheus com a camisa amarela nunca foi protocolar. Ela sempre foi emocional.

Convocado desde as categorias de base, ele tratava cada chamado como uma conquista pessoal. Talvez por isso tenha feito tanta questão de disputar o Pré-Olímpico de 2020, na Colômbia. Na época, defendia o Hertha Berlin e trabalhou para conseguir a liberação junto ao clube. O torneio era fundamental para garantir uma vaga nos Jogos Olímpicos.

A classificação veio. Mas a batalha estava longe do fim.

As Olimpíadas de Tóquio, realizadas em julho de 2021 por causa da pandemia, representavam outro desafio. Diferentemente da Copa do Mundo, os clubes não são obrigados a liberar atletas para o torneio olímpico. Ainda assim, Matheus lutou para estar presente. Conseguiu. Foi campeão olímpico com o Brasil e adicionou ao currículo um dos títulos mais importantes de sua carreira.

Quem convive com ele garante que essa disposição para abrir mão do conforto em favor da Seleção é uma característica permanente.

Por isso, um dos momentos mais difíceis de sua trajetória aconteceu em 2022.

Às vésperas da Copa do Mundo do Catar, Matheus aparecia entre os cotados para integrar o grupo de Tite. A convocação final, porém, não trouxe seu nome. As imagens do atacante abatido repercutiram entre amigos e familiares. Para alguém que sempre fez questão de atender aos chamados da Seleção, ficar fora daquele Mundial representou uma dor profunda.

Era o sonho interrompido. Mas não encerrado.

O futebol, afinal, costuma recompensar quem insiste.

Depois da passagem pelo Atlético de Madrid, Matheus reencontrou seu melhor futebol na Inglaterra. Evoluiu tecnicamente, ganhou protagonismo e se transformou em um dos atacantes mais completos da Europa. Capaz de atuar centralizado, pelos lados ou até como articulador, passou a ser visto por treinadores como uma peça extremamente versátil.

Foi justamente essa característica que chamou a atenção de Carlo Ancelotti.

Matheus Cunha comemora no estilo surfista com Vini Jr e Paquetá o segundo gol sobre o Haiti (Foto Mauro Pimentel/AFP)

Destaque no esquema de Ancelotti

Na Era Ancelotti, Matheus Cunha se tornou um dos jogadores mais convocados pelo treinador italiano. Mais do que um atacante, virou um elemento tático capaz de conectar setores, pressionar adversários e abrir espaços para os companheiros.

A recompensa definitiva chegou em 2026.

Aos 27 anos, o garoto de João Pessoa finalmente desembarcou em sua primeira Copa do Mundo. Não como figurante, mas como um dos protagonistas da equipe brasileira.

Cada gol passou a carregar um significado especial. Não apenas pela importância esportiva, mas por tudo o que existe por trás deles: as partidas no corredor de casa, os jogos na praça, a saudade dos pais, a mudança para Curitiba, a aventura precoce na Suíça, os idiomas aprendidos pelo caminho, a dor da ausência em 2022 e a persistência em nunca desistir da Seleção.

Talvez por isso a emoção da família seja tão genuína.

— Nós fomos premiados com dois gols dele, né? A emoção é tão grande que você não sabe se chora, você não sabe se ri — disse o pai, Carmelo, após ver o filho marcar duas vezes na vitória da Seleção Brasileira por 3 a 0 sobre o Haiti, pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo.

A frase ajuda a explicar quem é Matheus Cunha.

Um atacante moderno, poliglota, campeão olímpico, protagonista na Europa e peça importante da Seleção. Mas, acima de tudo, um jogador que nunca tratou a camisa amarela como obrigação.

Para ele, a Seleção sempre foi sonho.

E sonhos, como as ondas que ele imita nas comemorações, são feitos para serem perseguidos até o fim.

Matheus Cunha marca o primeiro gol na vitória por 3 a 0 do Brasil sobre o Haiti (Foto Angela Weiss / AFP)

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