O peso da história: Ibirapuera volta a sediar o Troféu Brasil de Atletismo

Entre memórias de ídolos como Fabiana Murer e a ansiedade da nova geração, palco tradicional do atletismo está oficialmente de volta

PorDavi CaldasSão Paulo (SP)
22/07/2026 07:45

Supervisionado porThiago Fernandes,
O Troféu Brasil será a primeira competição no Ibirapuera revitalizado (Foto: Matias Santana/CBAt)
O Troféu Brasil será a primeira competição no Ibirapuera revitalizado (Foto: Matias Santana/CBAt)

O Estádio Ícaro de Castro Mello, no Complexo do Ibirapuera, está oficialmente de volta ao calendário do atletismo nacional. Após um longo período sem competições, o principal torneio interclubes da América Latina, o Troféu Brasil, foi o evento escolhido para marcar a reabertura da pista paulista.

Mais do que uma disputa por medalhas, a competição representará o reencontro do esporte com o seu palco mais tradicional. Após passar por uma ampla modernização, sua reabertura marca um resgate afetivo para quem cresceu ali e um divisor de águas psicológico para a nova geração que pisará no "templo" pela primeira vez.

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Em entrevista exclusiva ao Lance!, a bicampeã mundial no salto com vara, Fabiana Murer, conta que foi na pista do Ibirapuera que se desenvolveu e construiu a base de suas maiores conquistas no esporte, incluindo o ouro no Pan-Americano de 2007. Como principal lembrança do próprio estádio, Murer relembra o recorde sul-americano de 2008, quando saltou 4,80 metros e se colocou entre as melhores do mundo antes das Olimpíadas de Pequim.

- O salto com vara brasileiro cresceu naquela pista. Nós fazíamos clínicas internacionais com o Vitaly Petrov, que foi técnico do Sergei Bubka e da Yelena Isinbayeva. Eu passava muitas horas lá treinando, porque queria me desenvolver como atleta.

Com vários atletas renomados que passaram pelo local, como o próprio Sergei Bubka, a bicampeã mundial destaca a importância do Ibirapuera, que já recebeu as competições de ciclismo dos Jogos Pan-Americanos, em 1963, e ajudou a formar vários nomes do atletismo nacional nas décadas seguintes. Além dela própria, Fabiana Murer aponta que atletas como Maurren Maggi e Jadel Gregório também foram formados no local.

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"Agora, podemos novamente formar atletas, tendo um lugar de qualidade para que possa voltar a ter escolinhas, e os jovens tenham essa motivação para poder treinar em um estádio que é antigo, mas está modernizado", comenta. De acordo com a ex-atleta, a revitalização do local faz grande diferença para que os jovens se motivem e acreditem que é possível realizar seus sonhos esportivos, como aconteceu com ela.

Em 2016, Fabiana Murer conquistou novo recorde sul-americano no Troféu Brasil daquele ano (Foto: Divulgação/BMF & Bovespa)
Em 2016, Fabiana Murer conquistou novo recorde sul-americano no Troféu Brasil daquele ano (Foto: Divulgação/BMF & Bovespa)

Larissa Moraes, treinadora do atleta Benjamin Oliveira, que competirá no Troféu Brasil, conta que a volta ao Ibirapuera também tem um peso familiar. Filha de treinadores, viveu a infância nos corredores e na pista do complexo, vendo o espaço não apenas como local de treino, mas como o centro de sua formação de vida.

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- As nossas histórias, minha e do Ibirapuera, se misturam. Eu sempre chamei o 'Ibira' de quintal da minha casa, porque vivi lá a minha vida inteira. Ter que sair de lá foi muito doloroso. Lembro como se fosse ontem do nosso último treino antes de a pista fechar.

Para Larissa, a sensação com o Troféu Brasil é de estar "voltando para casa", e disse estar muito emocionada e nostálgica por ver que o Ibirapuera será ocupado novamente, com a pista cheia e as arquibancadas lotadas. Além disso, a treinadora destaca a estrutura do local, essencial para o esporte: "É um estádio de atletismo, algo que a gente não vê em nenhum outro lugar do Brasil."

Estádio do Ibirapuera para a nova geração

Se para os veteranos o sentimento é de nostalgia, para os jovens talentos a estreia no Ibirapuera carrega uma aura de respeito e imponência. Benjamin Oliveira, treinado por Larissa e campeão brasileiro sub-20 e sub-23 do salto triplo, vai competir pela primeira vez na pista e destaca a mudança de postura que o peso histórico do local exige.

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- Competir pela primeira vez no Ibirapuera vai ser uma honra. É um local histórico; lá foi o berço de grandes medalhistas olímpicos e já recebeu presenças icônicas do atletismo mundial.

Segundo o atleta, a atmosfera do estádio provoca uma transformação imediata na mentalidade de quem entra na pista. Para ele, apenas o ato de pisar naquele piso já altera o psicológico e a postura do competidor, pois não se trata de um lugar qualquer, mas de um palco consagrado pela quebra de recordes e marcas históricas. Na visão de Benjamin, isso faz com que qualquer um entre para a prova com a confiança muito mais elevada.

Benjamin Oliveira da Silva, jovem triplista campeão brasileiro sub-20 e sub-23 (Foto: Gustavo Alves/CBAt)
O jovem triplista Benjamin Oliveira está qualificado para o Mundial Sub-20 (Foto: Gustavo Alves/CBAt)

Quem compartilha do mesmo sentimento é a velocista Hakelly Maximiano, atual vice-campeã dos 200 metros do Troféu Brasil e recordista brasileira e sul-americana sub-18 dos 100 metros. Para ela, poder competir na pista histórica do atletismo brasileiro pela primeira vez é uma oportunidade motivadora para fazer boas provas e aproveitar a experiência ao máximo.

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- Sempre ouvi falar que grandes atletas brasileiros construíram parte de suas histórias no Ibirapuera. Estar em um estádio tão importante aumenta a motivação e a responsabilidade. Ao mesmo tempo, procuro manter a tranquilidade e focar no que preciso executar dentro da pista.

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Contagem regressiva para o Troféu Brasil de Atletismo

O Velódromo do Ibirapuera foi inaugurado em 1954, mas o espaço só se transformou na casa definitiva do atletismo em 1968, graças ao projeto de reformulação assinado pelo engenheiro, arquiteto e ex-atleta olímpico Ícaro de Castro Mello. Nas décadas seguintes, o estádio se consolidou como o grande centro de excelência do esporte no país.

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O estádio do Ibirapuera, agora totalmente revitalizado e com certificação Classe 1 pela World Athletics, já recebeu o Troféu Brasil em 25 ocasiões. A primeira vez foi em 1976, oito anos após a inauguração da pista.

A volta do torneio ao Ibirapuera encerra um longo período de silêncio do complexo. O Ícaro de Castro Mello não sediava o Troféu Brasil desde 2014 e não recebia uma competição nacional desde o Campeonato Brasileiro Sub-16 de 2015. A última prova oficial realizada no local foi o Campeonato Paulista de Masters, em 2019. Agora, a partir desta quinta-feira (23) até domingo (26), o Troféu Brasil encerra o hiato e devolve o atletismo nacional ao seu palco mais emblemático.

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