Mulheres perseguem recordes imbatíveis há 40 anos no atletismo
Provas de velocidade têm marcas que duram desde os anos 80. Como quebrá-los?

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Se o mundo do atletismo vive uma nova era desde a quebra do recorde da maratona, pela primeira vez abaixo de 2 horas, protagonizado pelo queniano Sabastian Sawe, em Londres, há outras marcas do atletismo que permanecem imbatíveis há décadas. Morta em 21 de setembro de 1998, aos 38 anos, a americana Florence Griffith-Joyner detém até hoje os recordes mundiais das provas mais rápidas da modalidade: os 100m (10s49) e os 200m (21s34) rasos. As duas marcas foram batidas em 1988 e até hoje raramente foram ameaçadas.
Em entrevista ao Lance!, três especialistas explicaram a longevidade desses feitos. Um deles foi Adauto Domingues, bicampeão pan-americano nos 3.000 metros com obstáculos e ex-técnico de Marilson Gomes dos Santos, bicampeão da Maratona de Nova York.
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— Sobre os anos 1980, não adianta a gente tentar tampar o sol com a peneira. O controle antidoping nessa época era muito diferente dos dias atuais. Havia uma divisão, principalmente, dos países do Leste Europeu, um interesse muito grande em domínio através do esporte por questões de ideologia - afirmou.
Segundo Adauto, é um fenômeno bem diferente de marcas conquistadas por atletas fora de série, muito à frente do seu tempo.
— Voltando ainda mais no tempo, vou citar exemplos de atletas extremamente talentosos para suas épocas, como o Ademar Ferreira da Silva, que saltou 16,50m nos anos 1950 numa pista de carvão, era um cara excepcional, muito à frente do seu tempo. Tem também o Joaquim Cruz, que fez 1m41s (nos 800m), em 1985, uma marca até que já bateram, mas é dificílima de ser alcançada, até hoje é muito boa, que pode ganhar Jogos Olímpicos. São dois exemplos de marcas muito raras, de atletas extremamente talentosos. Agora, sobre essa questão do feminino dos anos 1980, quem conviveu nessa época e viu essas meninas mais de perto percebeu uma transformação. Havia uma masculinização muito grande dessas garotas para fazer essas marcas que estão predominando até hoje.

Abdalan da Gama, professor e pesquisador na área de fisiologia do exercício aplicada à performance de endurance, observou outros detalhes sobre o dia da quebra do recorde dos 100 metros:
— Há uma camada que precisa ser dita com cuidado, mas com clareza. Alguns desses recordes foram estabelecidos num contexto científico e regulatório diferente do atual. Florence Griffith-Joyner nunca testou positivo para nada, mas se aposentou após Seul 1988, e os testes aleatórios obrigatórios fora de competição só foram instituídos no ano seguinte, em 1989. No dia do recorde de 10s49 em Indianápolis, embora o anemômetro (marcador da intensidade do vento) da prova marcasse 0,0 m/s, o salto triplo masculino na pista vizinha registrava vento de cauda de 4,3 m/s, bem acima do limite legal de 2,0 m/s permitido para recordes — lembrou.
Recorde mais antigo dura desde 1983
Há dois recordes mundiais ainda mais antigos que os de Florence Griffith-Joyner. O dos 400 m rasos, estabelecido por Marita Koch, da Alemanha Oriental, em 1985 (47s60), e o dos 800m rasos, de Jarmila Kratochvílova, da Tchecoslováquia em 1983 (1m53s28).
— Ambos os recordes foram estabelecidos em contextos hoje associados a programas estatais sistemáticos do bloco oriental da Europa. Para fins de comparação histórica, o recorde masculino dos 100m caiu cerca de doze vezes desde 1988, chegando aos 9s58 de Usain Bolt em 2009. O feminino, uma vez, com a própria Flo-Jo — comparou Abdalan.
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Educador físico, treinador olímpico e jornalista esportivo, Lauter Nogueira também questiona as condições da recordista americana. E prevê uma quebra de recorde em até dois anos:
— Começamos a falar sobre esses recordes mais antigos quando passamos a projetar quando essas grandes marcas seriam quebradas, como fizemos quando a maratona abaixaria de duas horas. Florence Griffith Joyner, logo depois de bater o recorde, foi flagrada em sucessivos testes de pré-esteróides anabólicos, ela foi banida em vários momentos da carreira, mas o recorde continua de pé, porque ela foi testada naquele dia e deu negativo. Mas ela pode ter treinado durante uma temporada inteira sob intervenção de anabolizantes. Então, é extremamente suspeito. Mas Elaine Thompson já fez 10s54 em 2021 e 2022, e agora em 2026 também, temos outras atletas que têm condições. A expectativa é que ainda antes dos Jogos Olímpicos de Los Angeles (2028) tenham quase igualado ou ultrapassado os 10s49 — acredita Lauter.
Provas de velocidade perto do limite humano
Maiores controles de doping à parte, há como explicar, segundo Abdalan, por que os recordes de provas mais longas, normalmente, são batidos com mais frequência:
— Porque provas diferentes respondem a variáveis diferentes, e o sprint é a prova menos sensível à evolução tecnológica e nutricional. A maratona é altamente sensível a três fatores que evoluíram muito: economia de corrida (calçado), fornecimento energético (nutrição instrumentada) e durabilidade fisiológica (treino mensurado). As provas de velocidade, por sua vez, dependem quase exclusivamente de potência neuromuscular e biomecânica, áreas em que estamos próximos do limite humano. Para mencionar um exemplo concreto, 4% de economia metabólica num supertênis significam quase cinco minutos numa maratona; mas, numa prova de dez segundos, esse mesmo princípio, retorno elástico ao longo de centenas de passadas, simplesmente não se aplica. A tecnologia que destravou a maratona não destrava as provas de velocidade. O sprint está mais perto do limite humano. A maratona estava mais perto do limite da nossa engenharia — explica Abdalan.
Adauto vê a corrupção, como é o caso do doping, inerente ao ser humano. Mas é a favor das punições:
— O controle antidoping hoje é muito grande, pega bastante gente. Quando a gente fala do doping é porque hoje tem muito dinheiro, que, às vezes, corrompe. Não que seja ruim o dinheiro, mas a forma de ganhar. Assim como evoluiu muito a tecnologia de tênis, de camiseta, de treinamento, há uma evolução dessa indústria do doping. A gente está correndo atrás. Um dos motivos é financeiro, é poder, é a pessoa se achar. Isso é do ser humano, não é só do esporte. Em várias áreas a gente vê corrupções, pessoas corruptíveis. Então, a gente tem muito isso, e no esporte não é diferente. Mas eu parto do princípio de que acredito no esporte, em grandes resultados de atletas. Sempre me pego esperando primeiro esse controle, antes de criticar alguém. Mas eu reconheço, ninguém vai querer tampar o sol com a peneira, e o controle tem que correr atrás e banir sempre que puder pessoas que cometem uma infração.

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