Atlanta 30 anos: Scheidt e Grael levam a vela ao topo: 'Minha vida virou do avesso'

Medalhas de ouro inédita consolidaram tradição do país na modalidade

Rio de Janeiro (RJ)
29/07/2026 08:00
Torben Grael e Marcelo Ferreira recebem a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996
Torben Grael e Marcelo Ferreira comemoram a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996 (Foto: Orzmud Alves/ Folhapress)

As águas da costa de Savannah, na Geórgia, uniram os caminhos de dois brasileiros totalmente diferentes, mas que fizeram história nos Jogos de Atlanta 1996. De um lado, o jovem Robert Scheidt que, aos 23 anos, chegava com todo o ímpeto em sua estreia olímpica. De outro, o calmo e experiente Torben Grael, já multimedalhista olímpico. Ali, os dois conquistariam suas primeiras medalhas de ouro, consolidando o legado da vela brasileira.

Até os Jogos de Paris 2024, quando foram superados pela ginasta Rebeca Andrade, Scheidt e Grael figuravam como os brasileiros com mais medalhas olímpicas na história. Depois de Atlanta, Robert conquistou mais uma prata (Sydney 2000) e um ouro (Atenas 2004) na classe Laser, além de uma prata (Pequim 2008) e um bronze (Londres 2012) na classe Star. Torben, que já tinha uma prata (Los Angeles 1984) e um bronze (Seul 1988), também voltou ao pódio em Sydney e Atenas, com bronze e ouro, respectivamente.

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Torben Grael e Marcelo Ferreira recebem a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996
Torben Grael e Marcelo Ferreira comemoram a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996 (Foto: Orzmud Alves/ Folhapress)

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Scheidt: "Minha vida virou do avesso"

A participação de Robert Scheidt em Atlanta foi uma novidade em todos os aspectos. Além da primeira participação olímpica do atleta, marcou a estreia da classe Laser no evento. Atualmente chamada oficialmente de ILCA (International Laser Class Association), a categoria individual é conhecida pela simplicidade e baixo custo no cenário competitivo da vela.

A medalha de ouro veio após uma disputa acirrada com o britânico Ben Ainsle, que seguiria como um dos grandes rivais do brasileiro pelos ciclos seguintes. Scheidt ficou entre os três primeiros colocados em todas as regatas disputadas e chegou à prova decisiva com dois pontos de vantagem na liderança, bastando a ele impedir uma boa largada do adversário. Foi exatamente o que aconteceu. Os dois queimaram as três largadas e Robert subiu ao lugar mais alto do pódio.

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Ao relembrar o momento, Robert conta que, apesar de já ser bicampeão mundial de vela, não sofria tanto assédio da mídia, em uma época ainda sem a presença massiva da internet e das redes sociais. Ele se deu conta da dimensão de sua conquista por meios analógicos: a recepção no aeroporto e o telefone fixo.

— Naquela época, não tinha internet, celular, não tinha nada. Eu competi meio embaixo do radar. Pra mim, parecia que era um outro campeonato qualquer, mas, quando eu chego de volta com a medalha, desembarco no Aeroporto de Guarulhos, minha vida virou do avesso. De repente, tinha carro dos Bombeiros me esperando, o telefone de casa não parava de tocar. Foi uma mudança drástica de vida, passei a ser reconhecido, tive propostas e tudo o mais que acontece depois de uma medalha em Olimpíada — contou.

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Robert Scheidt comemora medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996
Robert Scheidt comemora medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996 (Crédito: Ormuzd Alves/Folhapress)

Robert Scheidt escreveu sua história ao longo de sete participações olímpicas, presente até os Jogos de Tóquio 2020. Porém, guarda o dia 31 de julho de 1996 em um lugar especial entre as memórias no esporte.

— Quando você ganha a segunda, a terceira, é maravilhoso, você se sente no topo do mundo, mas também vem um alívio. Quando você vai pra segunda, já existe aquela expectativa de que você ganhe de novo, você quer ganhar de novo. A primeira é, talvez, a mais especial — refletiu.

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A bandeira que mudou tudo na vela

Torben Grael retornava às Olimpíadas na classe Star, repetindo a parceria com Marcelo Ferreira. A dupla precisava de uma nova história, após a frustração em Barcelona, em que terminaram apenas com o 11º lugar. Desta vez, Torben e Marcelo tiveram um início firme, com vitória na primeira regata, e chegaram à decisão com um ponto de vantagem sobre os australianos Colin Beashel e David Giles, únicos adversários pelo ouro.

O momento mais marcante daquele 29 de julho veio antes mesmo que o barco "Vida Bandida" cruzasse a linha de chegada. Com cerca de 30 minutos decorridos do início da regata, ao contornar uma boia do percurso, Marcelo notou a bandeira preta que mudou tudo: Beashel e Giles haviam queimado a largada e estavam desclassificados. Ali, em alto-mar, os dois celebraram e concluíram a regata com sentimento de dever cumprido.

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— Ir para a Olimpíada é um grande feito. Ser medalhista é ainda maior, você sempre será lembrado. Agora, ser campeão olímpico é a satisfação de ter chegado ao topo do mundo, no lugar mais alto possível. Muda o reconhecimento — refletiu Torben.

O ouro de Atlanta foi apenas o primeiro com o dedo de Torben Grael, que perpetuou seu legado na modalidade que mais trouxe títulos olímpicos para o Brasil. O velejador ainda voltaria ao topo do pódio em Atenas 2004, em sua despedida olímpica como atleta, antes de perpetuar o legado também fora da água: anos depois, participou como head coach das campanhas que levaram a filha Martine Grael ao bicampeonato olímpico nos Jogos do Rio e de Tóquio.

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Infográfico detalha os feitos do Brasil nas Olimpíadas de Atlanta
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