Atlanta 30 anos: a arrancada de Gustavo Borges para o pódio que inspirou Cielo
Ídolo brasileiro relembrou, ao Lance!, as conquistas nos 200m e 100m livre

Gustavo Borges acordou confiante na manhã de 20 de julho de 1996. Às vésperas da primeira prova nas Olimpíadas de Atlanta, já não sentia mais a ansiedade que lhe tirava o sono quatro anos antes, em sua estreia olímpica. Mais tarde, no Centro Aquático Georgia Tech, o brasileiro protagonizaria uma das arrancadas mais icônicas da história da natação, rumo à medalha de prata nos 200 m livre.
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Do alto de seus 2,03 m, Gustavo Borges balançou a bandeira do Brasil e subiu ao pódio, para onde voltaria dois dias depois, com o bronze nos 100 m livre. Além dele, Fernando Scherer, o Xuxa, sairia de Atlanta com um bronze no peito. Até hoje, as Olimpíadas de 1996 seguem como a edição em que a natação brasileira mais conquistou medalhas na modalidade.

Arrancada na final estava planejada
Pela manhã, Gustavo Borges disputou as eliminatórias dentro do planejamento traçado e garantiu a classificação com o sétimo melhor tempo (1m49s00), mas saiu da piscina exausto. Chegou a pensar que não conseguiria entrar na decisão. Retornou para o quarto determinado a relaxar de vez.
— Durante uma hora e meia, duas, eu estava em plena consciência, entrei em estado de alfa. Eu relaxava e acordava, relaxava e acordava. Aí, quando eu saio da cama, eu falo assim: "caramba, eu estou bem!", e vou para a prova com uma confiança incrível. Tinha até aquele sentimento de que alguma coisa estava estranha, porque eu estava bem demais, sem nenhuma dor — relembrou.
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Competindo na raia um, Borges adotou uma estratégia que hoje considera conservadora. A ideia era executar uma saída forte, equilibrar o ritmo e guardar energia para os 50 metros finais. Mas, do lado de fora da piscina, o público ficou apreensivo ao ver o brasileiro cair da quarta para a quinta colocação aos 150 metros.
— Quando eu viro dos 150, aí eu aciono a perna e vejo que está sobrando energia, aí é o que dá essa arrancada final para trazer a medalha. Então, foi planejado, sim. Gostaria de ter tido menos competição e ganhado o ouro, mas a prata ali veio de bom grado — brincou.
A competitividade da prova era tanta que a definição do pódio veio no momento da batida. Apenas 29 centésimos de segundo separavam o terceiro do sétimo colocado. O título ficou com o neozelandês Danyon Loader, enquanto o australiano Daniel Kowalski levou o bronze.

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Duelo de gigantes
Após a missão cumprida e com a primeira medalha no peito, Gustavo Borges pôde respirar aliviado. A prova mais desgastante, física e emocionalmente, já havia passado. Agora, ia tranquilo para sua especialidade, os 100m livre, em que brigaria pelo ouro com dois grandes rivais que marcaram a geração: o russo Alexander Popov e o norte-americano Gary Hall Jr.
Popov e Borges já haviam disputado o ouro olímpico quatro anos antes, em Barcelona. Na ocasião, o russo ficou com o ouro e o brasileiro levou a prata. Já Gary Hall Jr. fazia sua estreia em Olimpíadas em casa, contando com o apoio da torcida.
Como esperado, o trio deu show na piscina e disputou a medalha a cada braçada. Gustavo Borges e Alexander Popov competiram lado a lado. No final, a diferença entre o brasileiro, terceiro colocado, e o russo, que se tornou bicampeão olímpico, foi de apenas 28 centésimos de segundo. Gary Hall Jr. terminou com a prata.
— Sem dúvidas, o Popov foi um dos grandes rivais que tive, dominou a prova por muitos e muitos anos. O Gary Hall Jr. também chegou muito bem nos 100 metros de 94 pra 96. A gente vive disso, da competição, da adrenalina, da intensidade. Eu sei o tanto que eu treinei pra chegar onde eu cheguei, e, quando um atleta como eles chega na frente ou tem um resultado melhor, eu tenho que dar os parabéns, porque fizeram um trabalho melhor que o meu — refletiu.
Entre os grandes rivais de Gustavo Borges na piscina do Centro Aquático Georgia Tech naquele dia 22 de julho, estava Fernando Scherer, o Xuxa, que terminou a final em quinto lugar. Os dois lideraram uma geração vitoriosa da natação brasileira, protagonizando disputas intensas que impulsionavam os atletas ao mais alto nível. Com personalidades opostas e extremamente competitivos, desenvolveram uma relação de respeito e acabaram se tornando grandes amigos.
— (A rivalidade) era divertido. Divertido e estressante ao mesmo tempo. Tinha umas alfinetadas via imprensa. Ele falava pra caramba. Em Atlanta, já tinha essa competição nossa, e eu cheguei já como medalhista olímpico. Chego lá, em três dias ganho duas medalhas, e ele não ganha nenhuma. Imagina a loucura do Xuxa nessa hora. Depois ele correu atrás da medalha dele, suada pra caramba — relembrou.
A medalha a que Gustavo Borges se referia foi a dos 50m livres, no último dia de disputas da natação. Xuxa precisou disputar um desempate para chegar às finais, mas a recompensa veio ao nadar para 22s29 e garantir o bronze.
Inspiração para o ídolo do futuro
Enquanto Gustavo Borges e Xuxa entregavam tudo de si na capital da Geórgia, um garotinho de nove anos, natural de Santa Bárbara D'Oeste, interior de São Paulo, assistia maravilhado à consagração de dois grandes nomes do esporte brasileiro. Esse garoto era ninguém menos que César Cielo, que mais tarde repetiria os passos dos ídolos.
— Trinta anos passam muito rápido, nem parece que faz tanto tempo assim. Foi uma das maiores influências que eu tive para começar a nadar. A primeira vez que eu me encantei com o esporte da natação foi assistindo ao Gustavo e ao Xuxa. Foi o momento que eu decidi que eu queria aquilo para mim também. Eu olhei e pensei: "eu quero fazer o que eles estão fazendo, quero sentir o que eles estão sentindo" — relembrou.
Cielo é a concretização do legado da natação brasileira nos Jogos de Atlanta 1996. Nas Olimpíadas de Pequim 2008, conquistou o primeiro ouro do país na modalidade, com o título dos 50m livre. Ainda vieram os bronzes nos 100m livre (Pequim 2008) e 50m livre (Londres 2012).
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