Dependência de venda de atletas é problema para Palmeiras e outros gigantes: 'Risco alto'
Clube paulista tem 41% das receitas com venda de atletas. Economista faz alerta

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A gestão dos clubes da elite do futebol brasileiro varia entre poucas administrações realmente eficientes, algumas com problemas pontuais, e diversas que pagam a conta de anos e anos de gastos maiores do que a capacidade de arrecadação. A solução para as dificuldades financeiras, porém, é comum a muitos deles: venda de atletas.
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O Brasil é notoriamente um dos maiores exportadores de talento do mundo. Um estudo do Observatório do Futebol do Centro Internacional de Estudos Esportivos (CIES) apontou que 1.455 atletas brasileiros jogam no exterior, distribuídos por 135 ligas. França (1.275), Argentina (1.016), Espanha (681) e Inglaterra (610) completam a lista dos cinco que mais exportam atletas.
Na última janela de transferências, o relatório da CBF publicado em março deste ano aponta Vasco, RB Bragantino e Santos como os maiores exportadores do período, lugar que em 2025 foi ocupado por Palmeiras, Botafogo e Fluminense. E todos esses estão entre os clubes que dependem desse tipo de receita para fechar as contas a cada temporada. Rayan, que deixou o Vasco rumo ao Bournemouth, foi a maior venda: 35 milhões de euros (cerca de R$ 220 milhões). O meia Jhon Jhon é o segundo da lista: saiu do Bragantino para o Zenit, da Rússia, por R$ 125 milhões, seguido pelo lateral-esquerdo Souza, que foi do Santos para o Tottenham por R$ 95 milhões.

O relatório anual de quase 200 páginas da Galápagos Capital, intitulado "Convocados", traz detalhes de diversos fatores financeiros que evidenciam os riscos para quem adota esse tipo de política. O Palmeiras, apesar de ser, ao lado do Flamengo, um dos clubes com maior poderio financeiro do país, não tem a mesma capacidade de arrecadação, o que fica claro ao serem analisadas, por exemplo, as receitas comerciais. Enquanto o Flamengo soma R$ 532 milhões com a exploração de suas propriedades comerciais, o Palmeiras totalizou R$ 237 milhões nesse item em 2025, menos da metade.
O clube alviverde hoje acumula R$ 1,029 bilhão em dívidas. A receita pulou para R$ 1,6 bilhão em 2025, com a alavanca da Copa do Mundo de clubes. Porém, 41% desse total de receitas é atrelado à venda de jogadores. Para efeito de comparação, o Flamengo tem 26% da sua receita no ano passado vinculada às transferências, enquanto o São Paulo tem 28% e o Fluminense, 23%. Já o Botafogo sofre do mesmo problema: mais da metade da sua receita no ano passado veio da transferência de atletas.

Trabalho na base segura o modelo
Na análise do economista e consultor César Grafietti, responsável pelo relatório da Galápagos Capital, clubes que pautam seu operacional pela venda de jogadores correm um grande risco de a conta não fechar no fim da temporada.
— O Palmeiras vive uma situação curiosa, porque, se formos olhar, ele tem R$ 1,4 bilhão, R$ 1,6 bilhão de receita, só que, se a gente tirar o que é venda de jogador, a receita dele tem vindo estável na casa dos R$ 600 e poucos milhões de reais nos últimos três anos. Ou seja, operacionalmente ele não tem conseguido crescer. O que está acontecendo? Para fechar a conta do clube, conseguir contratar e manter as dívidas relativamente estáveis, dentro da normalidade, ele tem que vender jogador ali todo ano para atingir R$ 400 a 600 milhões.
Apesar de o número ser alto, Grafietti analisa que o clube tem conseguido fazer um bom trabalho e fechar as contas satisfatoriamente. Mas o risco é muito alto.
— Mostra um cenário importante do ponto de vista de formação. E tem conseguido formar jogadores, ou vender jogadores que contrata a preço relativamente barato, como o Richard Rios, por exemplo. Tem conseguido fazer a máquina girar, mas tem um risco muito grande. Em um momento em que essa máquina não rodar, se ele fizer um ano com R$ 150 milhões, R$ 200 milhões de venda de jogador, já vai ter um déficit imenso e vai ter dificuldade em honrar suas compras. É claro, o Palmeiras tem tanta força hoje, tão pouca dívida com o mercado, que conseguiria fazer uma antecipação, trabalhar com certas receitas e resolver o problema em um ano pontual. Mas isso começa a virar um problema ao se repetir por mais temporadas.

Inter e São Paulo são retrato do risco
Grafietti explicou que outros clubes adotavam o mesmo tipo de política no passado e hoje estão em situação bastante complicada, casos de São Paulo e Internacional.
— São Paulo e Internacional são os melhores exemplos. Passaram dois ou três anos sem vender jogadores o suficiente, e aí a coisa desandou. Então, o Palmeiras tem uma questão assim: a dívida está controlada? Está controlada. As receitas crescem? Crescem, mas o operacional é muito calcado ali na venda de jogador. Sem um processo de reorganização disso, para perder um pouco dessa dependência, corre risco, sim, de em algum momento ter um desarranjo, porque justamente essa dependência de jogador é algo que não dá para controlar. Uma hora você não vai ter um jogador caro para vender, vai ter um monte de promessas ali que são valores baixos, e aí a máquina não gira.
O relatório da Galápagos mostra que, nos últimos cinco anos, o Palmeiras foi o clube brasileiro que mais arrecadou com a venda de atletas: R$ 1,75 bilhão, R$ 400 milhões a mais do que o Flamengo, segundo colocado dessa lista.

Outro risco para o clube alviverde, na visão de Grafietti, é que rivais diretos passaram a investir mais pesado na base, com objetivo claro de seguir o modelo do Palmeiras na formação de atletas. Os rubro-negros inclusive já tentaram contratar em outras ocasiões o coordenador da base do rival paulista. E isso cria uma concorrência mais forte para atrair talentos e, futuramente, pode criar dificuldades na perpetuação desse ciclo de venda de atletas.
— O Flamengo aumentou o valor de investimento na base, o Bahia, o Red Bull Bragantino, o Cruzeiro... Está todo mundo começando a olhar a base de um jeito, justamente para seguir o modelo do Palmeiras. Agora, o Palmeiras vai começar a ter mais concorrência na hora de acessar esse jogador de qualidade que ele pega ali com 16, 17 anos. Então, tem um risco aqui na gestão do clube, que é essa dependência exagerada da venda de jogador para fechar a conta.
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