Com endividamento superior a R$ 17 bilhões na Série A, clubes fora do alto escalão priorizam equilíbrio financeiro
Destaques em eficiência, Mirassol e Juventude provam que gestão profissionalizada vai além do modelo de SAF, enquanto o mercado acompanha o avanço de novas SAFs no país

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O futebol brasileiro registrou receitas recordes no último ano, mas o crescimento financeiro veio acompanhado de um aumento no endividamento das instituições. Segundo o último Relatório Convocados, produzido pela OutField em parceria com a Galapagos Capital, os clubes da Série A movimentaram R$ 14,3 bilhões em receitas em 2025, o maior valor já registrado no país. No entanto, as equipes da elite do Campeonato Brasileiro acumularam R$ 17,3 bilhões em dívidas no mesmo período, pressionadas pelo avanço das despesas operacionais, como salários e contratações de curto prazo.
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Esse cenário acelerou a necessidade de controle fiscal, movimento que ganhou respaldo institucional com o Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF), modelo de fair play financeiro criado pela CBF. Em período de transição entre 2026 e 2028, o mecanismo prevê implantação gradual e monitoramento independente pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), estabelecendo limites de gastos com elenco e exigência de equilíbrio operacional para as Séries A e B.
Mirassol: eficiência operacional e caixa positivo na elite
O Mirassol, que disputou pela primeira vez a Série A do Brasileirão no ano passado, figura como um dos principais destaques financeiros do campeonato, impulsionado pelo crescimento de receitas decorrente do acesso ao Brasileirão. O clube registrou uma receita total de R$ 183 milhões em 2025, o que representa uma alta de 341% em relação ao ano anterior.
A eficiência da operação foi o grande trunfo da gestão: o EBITDA (Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) atingiu a marca de R$ 64 milhões, um salto de 603%. Esse indicador mede quanto a operação rotineira do clube gerou de valor. O resultado positivo sinaliza que as receitas do elenco e da estrutura superaram os custos de manutenção, mostrando que o negócio efetivamente gerou caixa.
No quesito responsabilidade financeira, o clube do interior paulista encerrou o ano com o status de aplicador líquido, o que significa que possui mais dinheiro no caixa do que contas a pagar, ostentando uma dívida líquida de R$ 41 milhões. Com demonstrações financeiras aprovadas sem ressalvas, o Mirassol validou no mercado a viabilidade de aliar resultado esportivo na divisão principal a uma folha salarial enxuta, com custos de pessoal avaliados em R$ 77,5 milhões, figurando entre os menores da competição.

Juventude: estabilidade financeira e controle de passivos
O Juventude manteve a estabilidade financeira na Série A de 2025, registrando uma receita total de R$ 137 milhões no período, o que representa uma leve retração de 3% em relação ao ano anterior, apontando para um cenário de receitas estagnadas. Ainda assim, a operação garantiu um desempenho eficiente. O EBITDA atingiu a marca de R$ 33 milhões, mantendo o clube no azul com resultados operacionais positivos, mesmo após uma queda de 26% no indicador.
No quesito responsabilidade financeira, o clube gaúcho também repetiu o feito de encerrar o ano com o status de aplicador líquido, o que significa que possui mais dinheiro no caixa do que contas a pagar, ostentando uma dívida líquida de R$ 1 milhão. Com demonstrações financeiras aprovadas sem ressalvas, o Juventude provou ao mercado que é possível competir na elite nacional mantendo a folha salarial mais enxuta entre os avaliados na divisão, com custos de pessoal na casa dos R$ 59 milhões.
Essa realidade financeira dá suporte à estratégia de longo prazo da diretoria, que buscou se afastar das decisões emergenciais de mercado.
— Hoje, no Juventude, sustentabilidade financeira deixou de ser apenas uma meta administrativa e passou a fazer parte da estratégia esportiva do clube. Trabalhamos com planejamento de médio e longo prazo, controle de despesas e responsabilidade nos investimentos para garantir competitividade sem comprometer o futuro da instituição. Conseguimos fechar os últimos exercícios com superávit, o que nos dá segurança para continuar investindo em estrutura, futebol e desenvolvimento institucional de maneira responsável. Praticamente zeramos as dívidas do clube e hoje vivemos uma realidade de equilíbrio, algo fundamental dentro do cenário atual do futebol brasileiro — conclui Fabio Pizzamiglio, presidente do Juventude.
O impacto das SAFs e o mercado
O avanço das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) e a profissionalização da gestão esportiva podem influenciar diretamente a governança dos clubes, aproximando o esporte das práticas tradicionais de mercado.
— Com o crescimento das SAFs, o futebol brasileiro passou a operar em uma lógica muito mais próxima do mercado corporativo. Existe, por um lado, tanto uma preocupação da gestão como uma cobrança maior por governança, controle financeiro e previsibilidade, porque investidores e parceiros querem enxergar projetos sustentáveis a longo prazo — afirma Moises Assayag, especialista em finanças no esporte e sócio-diretor da Channel Associados.
Cuiabá: planejamento integrado ao futebol
O Cuiabá foi o primeiro clube da Série A do ano de 2021 a se transformar em SAF, logo após a Lei da Sociedade Anônima de Futebol entrar em vigência em agosto daquele ano. Além do pioneirismo regulatório, a instituição divide com o Mirassol um importante feito recente na estrutura do futebol brasileiro. Segundo o relatório, desde a criação da Série D em 2009, apenas 2% dos times que disputaram o torneio conseguiram chegar à Série A. Dentro desse seleto grupo, apenas o Cuiabá e o Mirassol alcançaram a primeira divisão nacional sem nunca a terem disputado em sua história.
Esse dado reforça que, além do desafio financeiro, o cenário competitivo do Brasil é restrito, tornando a consolidação do clube mato-grossense um caso a ser seguido de ascensão no mercado do futebol nacional.
Diante disso, o Cuiabá adota o planejamento administrativo como pilar para sustentar sua competitividade dentro da elite nacional, readequando a tomada de decisões para um modelo de previsibilidade. Essa postura institucional é refletida diretamente na governança e na visão estratégica da diretoria.
— O futebol brasileiro começa a entender que organização e responsabilidade financeira são fundamentais para manter competitividade no longo prazo. Não existe mais espaço para pensar apenas no imediato. Atualmente, planejamento é parte importante da construção esportiva dos clubes que almejam se manter fortes e vencer de maneira sustentável — afirma o presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch.
Paraná Clube (SAF): reestruturação de passivo e nova gestão
No Sul do país, o Paraná Clube formalizou sua transição para o modelo de Sociedade Anônima de Futebol. A Next Play, empresa da Chenus, holding especializada em negócios no esporte, assumiu a gestão da SAF da equipe em janeiro de 2026. Em sua atuação inicial, a investidora focou no saneamento fiscal e na recuperação institucional, negociando junto aos credores a aprovação de um modificativo que acomodou mais de R$ 240 milhões em dívidas.
Além da reestruturação financeira, a companhia estruturou a Vila Olímpica e expandiu os ativos comerciais do clube, fazendo o programa de sócios-torcedores saltar de 800 para 5 mil ativos. Em cinco meses de operação, o clube obteve o acesso à Série A do campeonato estadual de forma invicta, somando 12 vitórias e dois empates, além de registrar uma média de aproximadamente 13 mil torcedores por partida.
— Estamos envolvidos em um projeto de longo prazo. É verdade que tivemos resultados esportivos e financeiros bastante positivos em apenas cinco meses, com o acesso para a Série A do estadual de maneira invicta, alta média de público nas partidas, crescimento exponencial do programa de sócio-torcedor, entre outros feitos. Porém, nosso maior objetivo é plantar da maneira correta para que tenhamos frutos para as próximas décadas e não somente para uma temporada — analisa Pedro Weber, CEO da Next Play.

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