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Investidores da FFU topam negociar com CBF por liga única, mas não há canal aberto

Lance! conversa com executivo do grupo sobre veto a direitos de transmissão

PorVicente SedaRio de Janeiro (RJ)
19/09/2026 06:30
Dirigentes dos clubes em reunião da CBF sobre liga (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)
Dirigentes dos clubes em reunião da CBF sobre liga realizada em abril deste ano (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Os investidores da liga Futebol Forte União (FFU) topam negociar com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Na verdade, uma adequação a um novo modelo com eventual junção dos blocos já era até prevista, senão em contrato, na cabeça de quem colocou dinheiro no negócio. O grande nó a ser desatado é o controle que esses investidores têm sobre as decisões majoritárias do Condomínio Forte União (CFU), a estrutura empresarial criada para gerir o grupo.

O Lance! conversou com um executivo de um dos investidores do grupo, que engloba, além da Sports Media Entertainment (SME), gigantes do mercado financeiro como o General Atlantic e a XP Investimentos. Como o tema entra em questões sensíveis de contrato enquanto se desenrola uma disputa de bastidores que envolve os próprios investidores, clubes, CBF e emissoras, foi acordado que a fonte será mantida sob sigilo.

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São essas empresas que possuem o poder de veto a eventuais propostas para compra dos direitos de transmissão dos clubes do bloco, do qual o negócio em que esses investidores aportaram R$ 2,5 bilhões depende integralmente. O comitê do CFU, correspondente a um conselho de administração, precisa ratificar a proposta antes que siga para uma votação em assembleia de clubes, da qual os investidores já não participam.

— Se fosse uma sociedade anônima, teríamos um conselho de administração. Como é um condomínio, temos um comitê condominial. Muito se fala dos vetos, mas é a coisa mais comum. Coloquei R$ 2,5 milhões nesse negócio, quero ter veto em mudanças absurdas, drásticas. Por exemplo, o condomínio quer gastar dinheiro com outra coisa que não seja direitos de transmissão. São vetos a questões que mudam o conceito do negócio.

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O maior nó a ser desatado

Para a CBF, esse é justamente o cenário que inviabiliza a liga, já que a entidade passaria a capitanear a negociação de direitos e não quer ver uma proposta que eventualmente traga por um investidor externo. Em suma, o CFU não consegue empurrar um contrato goela abaixo dos clubes, porque precisa de aprovação em assembleia, mas os clubes também não passam um contrato sem o crivo do investidor, por conta do poder de veto. No caso de CBF e clubes quererem um contrato que os investidores da FFU não acham atrativo, está criada a situação que, na visão atual da entidade, não é possível aceitar.

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Mas a questão é negociável, segundo o executivo ouvido pelo Lance!. Para os investidores, o entendimento é que houve um aporte bilionário em um setor de negócio ainda mal desenvolvido em termos de governança, ou seja, com alto risco, e o retorno desse montante, e a geração de lucros para compensar os riscos assumidos, tornam indispensável não somente um acordo de longo prazo, como o poder de veto sobre a venda desses direitos, dos quais o negócio depende integralmente. Não se trata de uma questão de controle, mas de proteção do negócio, como o executivo afirmou.

— Se for satisfatório para os clubes, deveria ser para o investidor. Só não será se o que é interessante para os clubes e CBF não for bom economicamente, não for estratégico. Como você mencionou, pagamos por isso. A intenção não é colocar um preço para recompra disso. A minha transação, a minha receita, é 100% vinda dos direitos de transmissão. O meu retorno é dessa venda. Se tiver e mostrar uma estrutura comercial que me faça enxergar esse sucesso na venda, como a gente teve comprovadamente no primeiro ciclo, tudo é negociável. Não é no espírito de comprar. Há até uma discussão de valuation (estimativa do valor justo de uma empresa) aqui.

Sede da CBF (Foto: Vicente Seda)
CBF tenta avançar em projeto de liga única sob sua chancela (Foto: Vicente Seda)

A estrutura do condomínio

Essa questão do valor da empresa passa também pela emissão de R$ 950 milhões em debêntures, negociadas pela XP Investimentos, e já compradas por cerca de sete mil pessoas ou empresas de acordo com o executivo. Os detentores desses títulos, que são emitidos no mercado para captação de recursos, são diretamente afetados por essa avaliação. Atualmente, a emissão dessas debêntures sofre ataques na Justiça, em Brasília, por meio do Sindicato Nacional de Associações de Futebol Profissional (Sinafut), e Manaus, em ação movida pelo Amazonas FC. O Sinafut teve inclusive sua legitimidade questionada pelo juiz do processo, já que conta com vice-presidentes da CBF em sua diretoria.

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O condomínio em si também vem sofrendo uma série de ataques nos bastidores, desde questionamentos à isenção do administrador da empresa, comandada por Gabriel Lima, em função de sua sociedade com Ronaldo Fenômeno em um grupo que inclui desde agência de marketing esportivo a produtoras de conteúdo, como possível favorecimento aos investidores em decisões.

— A crítica ao modelo é muito estranha, porque todo mundo está ganhando. O modelo de venda já foi validado. Tirou do monopólio. Hoje, o consumidor, em vez de um jogo por rodada em canal aberto, tem Globo, Record, Cazé TV, Ge TV que foi criada exatamente pela competitividade. Então foi bom para o consumidor, para quem vendeu, para quem comprou. Não vejo a CBF com desejo de estragar isso aqui. Se chamarmos de negociação as partes sentarem e definirem até onde vai o papel de cada um, é o que a gente sempre esperou que acontecesse em algum momento. Mas hoje não tem esse canal aberto.

Um cacique do alto escalão da CBF consultado pelo Lance! também sinalizou nas últimas semanas que, mesmo com a eventual formação de uma liga única, a ideia não é fechar um pacotão de direitos com somente um comprador.

— Esse cheque é alto demais para uma empresa só — afirmou o cartola.

Ele reforçou ainda que os investidores não possuem qualquer tipo de ingerência sobre organização de competições, regras, questões técnicas ou mesmo comerciais que não envolvam os direitos de transmissão. A FFU assinou um acordo no qual seus membros cedem percentuais entre 10% e 20% para a SME pelos próximos 50 anos. Um dos argumentos da CBF para que uma negociação com os investidores da FFU passe a ser atrativa é uma garantia mais sólida de repasse aos investidores, que passaria a ser retido na fonte.

O executivo, contudo, ressaltou que a estrutura do condomínio é eficiente também nesse sentido, já que os valores vão para uma conta neutra, sob controle do CFU, e então é feita a distribuição seguindo os acordos que foram fechados individualmente com os clubes. Segundo ele, os clubes não contestam internamente o condomínio, pelo contrário, a estrutura é sempre elogiada. A empresa passa por constante auditoria da KPMG, uma das quatro maiores do mundo no setor.

— O nosso modelo de negócio torce para que isso aconteça. Só me falem onde vai ser e eu vou estar lá participando no comercial e no administrativo, mais nada — disse.

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Não há canal aberto de comunicação

O que não existe hoje, porém, é um canal aberto direto de comunicação. CBF e a gestão do CFU não se falam atualmente, e a questão é conduzida em uma guerra nos bastidores que se ramifica para disputas comerciais de emissoras e de poder internamente na CBF. Na segunda-feira, os clubes das Séries A e B novamente se reunirão na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, para mais um encontro da série programada pela entidade até o fim do ano. Desta vez, o tema abordado será organização de competições.

Há uma leitura confluente nos dois lados em diversos aspectos, especialmente no de que um produto com os clubes consolidados em uma liga única será muito mais valioso, não somente pelo pacote do campeonato em si, mas por outras possibilidades de negócio que somente a união dos participantes poderia proporcionar. Um exemplo é a negociação em conjunto de material esportivo.

— No nosso modelo, replicando o que tem no exterior, quando se fala de liga, o grande valor primeiro é a venda conjunta. Mas a liga vai além disso, você desenvolve novos produtos, e isso sempre teve no nosso contrato. O próprio Campeonato Paulista tem uma série de propriedades que você não consegue replicar no Brasileiro, só consegue como produto único.

Questionado também sobre a longa duração do compromisso de cessão do percentual de venda dos direitos de transmissão assinado pelos clubes, o executivo explicou que é necessário para recuperar o alto capital investido a curto prazo:

— Coloquei R$ 2,5 bilhões. Com os juros aqui, já passou de R$ 3 bilhões. Um clube da Série B me dá R$ 1,5 milhão, da Série A, R$ 10 milhões, R$ 15 milhöes. Por isso o longo prazo. A gente coloca um dinheiro muito alto em um curto prazo. Os clubes já receberam, na compra, e os repasses com aumento de receita. O sócio aqui não recebeu um real ainda, não vai receber este ano, nem no ano que vem. Porque é um negócio que você coloca, se alavanca, a dívida é cara — analisou.

Samir Xaud, presidente da CBF, durante primeira reunião com clubes para debater liga
Samir Xaud, presidente da CBF, durante primeira reunião com clubes para debater liga (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

CBF fará nova reunião

Na próxima segunda-feira, a CBF realizará uma nova reunião sobre a liga única com os clubes das Séries A e B em um hotel na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. É mais um de uma série de encontros programados até o fim deste ano. Este abordará a organização de campeonatos.

A FFU é um bloco de clubes (entre os quais Corinthians, Cruzeiro, Fluminense, Internacional e outros) que assinou acordo por 50 anos com a SME para cessão de percentuais de sua arrecadação com direitos de transmissão — o total cedido individualmente por cada clube varia entre 10% e 20%. A empresa que tem o controle da negociação dos direitos de transmissão deste bloco é a Livemode, dona da Cazé TV. Até 2029, esses ativos foram divididos entre Rede Globo, Record, Youtube (Cazé TV) e Amazon Prime. Nos contratos atuais, a Livemode só negociou direitos da Série A do Brasileiro; a comercialização de direitos da Série B ficou com a Peak.

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A Libra, por sua vez, não topou ceder direitos a longo prazo para o Mubadala, dos Emirados Árabes. O bloco fechou contrato exclusivo de direitos de transmissão com a Rede Globo também até 2029 e é encabeçado pelo Flamengo. Hoje o bloco tem uma estrutura muito enxuta, que praticamente só faz a gestão desse contrato. Dessa forma, a CBF não vê impedimentos para negociar.

Ainda que as partes não tenham hoje um canal de diálogo direto aberto, há um entendimento dentro da CBF que a judicialização da questão por diversos membros pode forçar os investidores da FFU a buscar uma negociação, já que uma disputa jurídica, com as forças envolvidas, pode se arrastar além do prazo necessário para que a liga única consiga negociar os contratos do próximo ciclo. Os investidores da FFU, por sua vez, afirmam que turbulências já eram esperadas em função dos problemas históricos que sempre cercaram as tentativas de formação de uma liga única no Brasil e garantem que há segurança jurídica no contrato.

Como os contratos de cessão de direitos atuais vão até 2029 — ano de eleição na CBF —, é necessário que a liga esteja pronta para negociar até o fim do ano que vem, já que as tratativas para o próximo ciclo se iniciarão em 2028.


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