Clubes da FFU pedem troca de administradora por favorecimento a investidor
Atlético-GO, Cuiabá e Operário notificaram condomínio, que avisou que responderá nas 'instâncias competentes'

A liga Futebol Forte União (FFU) vive turbulências intensas desde o fim de junho, quando uma ação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) impetrada pelo CSA de Alagoas iniciou uma série de questionamentos, judiciais e internos, que começam a abalar a estrutura do condomínio. Nesta semana, foram mais três notificações extrajudiciais às quais o Lance! teve acesso e que têm como objetivo final a substituição da administradora do Condomínio Forte União (CFU).
A disputa no bloco de clubes, que tem como principal investidor a Sports Media Entertainment (SME) e negociadora dos direitos de transmissão do grupo a Livemode, que controla a Cazé TV, se embaraça com a criação de uma liga única sob chancela da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e uma guerra de bastidores do canal de streaming com a Rede Globo. A FFU é o bloco de clubes (entre os quais Corinthians, Vasco, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro, Atlético-MG e Inter) e o CFU é a estrutura empresarial formada com investidores para negociar direitos deste bloco.
Nos últimos dias, o CFU recebeu notificações extrajudiciais de Atlético Goianiense, Cuiabá e Operário, todas pedindo, por diferentes motivos, a deflagração de um processo de troca de administradora, hoje chefiada por Gabriel Lima, ex-CEO de Cruzeiro e Coritiba. Entre as alegações estão falta de transparência por dificuldade de acesso a documentos e gravações de reuniões, e "perda da independência", apontando que a administradora estaria favorecendo o investidor.
CFU analisará questões individualmente
A assessoria do CFU enviou a seguinte nota: "O Condomínio Forte União reúne 33 clubes. As manifestações mencionadas envolvem quatro deles e tratam de questões distintas, que serão analisadas individualmente conforme a Convenção e as regras de governança do CFU.
A Administradora atua dentro das competências previstas na Convenção, sob supervisão do Comitê Condominial, e rejeita qualquer alegação de favorecimento. As questões apresentadas pelos clubes serão respondidas formalmente nas instâncias competentes".

Paralelamente, continua o processo no Cade que em junho estabeleceu que SME e a FFU não podem criar obstáculos financeiros para a saída de membros, ainda que as cláusulas contratuais continuem valendo, bem como o reembolso de valores já repassados. Neste caso, o Operário cita diretamente a ação e afirma que tenta, há dois meses, obter a apuração do valor de recompra dos seus direitos de transmissão, sem sucesso.
Além dessas novas notificações, após a decisão do Cade sobre saída de membros, diversos clubes, como Botafogo, Cruzeiro e Corinthians, enviaram notificações à FFU, sendo que o clube paulista chegou a cogitar na nota a saída do bloco. Recentemente, em entrevista ao Lance!, o presidente do Vitória reclamou de tratamento desigual na FFU, e a Federação Bahiana da Futebol (FBF) informou que notificou o Cade a respeito das alegações do clube.
Não menos relevante para a continuidade do condomínio de clubes é a ação do Amazonas FC na Justiça Cível de Manaus. O processo, que questiona as garantias da emissão de R$ 950 milhões em debêntures pela SME, tem como objetivo, como confirmado ao Lance! pelo presidente do clube, reaver os direitos de transmissão do bloco. O Sindicato Nacional das Associações de Futebol Profissional (Sinafut) também entrou com ação civil pública contestando as garantias da emissão desses títulos.
Notificação extrajudicial do Cuiabá
A notificação do Cuiabá enviada na sexta-feira, dia 14, argumenta perda da independência da administradora do Condomínio Forte União (CFU), controlada por Gabriel Lima, a CFU Administradora Ltda. O clube usa como base a cláusula 6.8 da convenção, que versa sobre "perda da independência da Administradora, frente ao Condomínio, pela comprovação de favorecimento indevido a qualquer dos Condôminos". Sob a alegação de que "esse limite vem sendo ultrapassado de forma reiterada", o Cuiabá "comunica formalmente sua intenção de deflagrar o procedimento de substituição da Administradora do CFU".
Um trecho da notificação diz: "A administradora é indicada pelo investidor e por ele pode ser substituída a exclusivo critério, a qualquer tempo. Sujeito a essa dependência, o administrador passou a se conduzir como preposto do investidor, e a administradora vem se valendo da posição que ocupa no condomínio para penetrar a vida interna da associação, instrumentalizando-a em proveito de quem a indicou".

O investidor citado, no caso, é a SME. O controle da SME é da gestora de recursos Life Capital Partners (LCP), que tem como um dos sócios e co-fundadores Carlos Gamboa. A SME é um braço de investimento da LCP em direitos de mídia de longo prazo, capitaneado por Gamboa. Outro trecho afirma: "a administradora deixou de atuar como centro neutro de execução e passou a operar em favor de um dos condôminos, exatamente onde os interesses deste se opõem aos dos demais".
O Cuiabá diz que "a situação tornou-se, no entanto, insustentável com a Ação Civil Pública nº 071764954.2026.8.07.0001, ajuizada pelo SINAFUT contra a SME perante a 2ª Vara Cível de Brasília/DF, na qual se imputa ao investidor a prática de condicionar os repasses devidos aos clubes à assinatura de documentos, à prática de atos de gestão e à desistência de medidas judiciais e extrajudiciais".
Em seguida, o texto da notificação completa: "Três dias antes, a administradora já intentava obter dos próprios clubes a aprovação daquilo que se imputava ao Investidor. Na Assembleia Geral Extraordinária da FFU de 15 de maio de 2026, conforme Ata Notarial lavrada pelo 19º Tabelionato de Notas de São Paulo/SP, o Sr. Gabriel Ribeiro Lima conduziu os trabalhos e endereçou aos clubes deliberação destinada a permitir o condicionamento dos repasses à assinatura de documentos".
Notificação extrajudicial do Atlético-GO
A notificação extrajudicial do Atlético-GO diz que estuda deflagrar processo de substituição da administradora do CFU, e dá prazo de cinco dias úteis para resposta às suas contestações enviadas no dia 13 deste mês (última quinta-feira). Diferentemente da argumentação do Cuiabá, o Atlético-GO alega dificuldade de acesso a documentos e gravações de reuniões, apontando falta de transparência da administradora.
O clube narra, em sua notificação: "Em 25 de junho de 2026, o Notificante protocolou requerimento formal solicitando: (i) o fornecimento de cópia integral da gravação, em áudio e/ou vídeo, da reunião realizada em 22 de junho de 2026; e (ii) o fornecimento de cópia da respectiva ata e da lista de presença. O pedido foi renovado por meio de notificação extrajudicial de 16 de julho de 2026".

Em seguida, o documento afirma: "Em 24 de julho de 2026, a CFU Administradora Ltda., por seu Administrador, respondeu à notificação. (...) Não obstante, apesar de reconhecer a ocorrência da reunião, não entregou os documentos solicitados, cingindo-se a afirmar que 'não é competência da Administradora do CFU a disponibilização das gravações requeridas' e que o pedido deveria ser endereçado ao Comitê Condominial".
Por fim, o Atlético-GO afirma que "o pedido encontra amparo no dever geral de transparência a que a
Administradora está submetida" e que "o acesso a documento do condomínio, contudo, é direito de todos os seus membros, e deve ser concedido qualquer que seja o caminho pelo qual o pedido chegue à Administração, isto é, seja pela via direta, seja por meio do Comitê".
Notificação extrajudicial do Operário
O Operário, por sua vez, já oficializou o desejo de deixar a FFU. E a sua notificação extrajudicial enviada no dia 14 contra a administradora do condomínio é decorrente da alegação de que não está sendo possível apurar os valores devidos aos investidores para formalizar a desvinculação do bloco. O clube também diz que estuda adotar medidas, como pedido de substituição da administradora, alegando falta de independência, como fez o Cuiabá.

É citada a decisão do Cade no sentido da proibição de que se criem obstáculos para saída de clubes, e também é dado o prazo de cinco dias úteis para envio do valor de recompra dos direitos cedidos, devidamente apurado. O clube afirma no texto estar aberto ao diálogo.
Diz o documento: "A omissão, que em alguma medida beneficia o investidor, único a quem interessa que a recompra não avance, soma-se aos elementos que põem em dúvida a independência da administração". (...) "Notifica, ainda, o Presidente do Comitê Condominial de que igualmente estuda adotar as medidas cabíveis no âmbito do Condomínio, entre elas o pedido de substituição da Administradora, nos termos da cláusula 6.8, itens (ii) e (iv), da Convenção, e de que os fatos aqui expostos, assim como a resposta que sobrevier, serão oportunamente comunicados ao Cade".
Liga única sob chancela da CBF
Internamente, na CBF, o interesse na criação de uma liga única passa diretamente pelo controle da negociação de direitos de transmissão. E também há interesse da Rede Globo, que tem fortes aliados no alto escalão da entidade, em brecar o avanço da Livemode, e da Cazé TV. Recentemente, o canal por streaming foi retirado pela entidade da disputa pelos direitos de transmissão da Copa do Brasil. Em outra frente, a Cazé TV e a Livemode enfrentam investigações do Ministério da Justiça e do Ministério da Fazenda relacionadas a possíveis irregularidades na propaganda de casas de apostas.
O desejo da CBF ao formar uma liga é que essa nova estrutura tenha autonomia para negociar seus ativos, o que o atual contrato da FFU inviabiliza. Quem está à frente das negociações pela liga única na entidade é Francisco Mendes, filho do ministro do Superior Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes.
No entendimento de dirigentes de clube ouvidos pela reportagem, não há intenção de calote nos investidores da FFU, mas existe uma percepção de que contratos foram mal negociados e de que o propósito da criação do bloco caminhou em uma direção de controle do investidor, e não para uma autonomia maior dos clubes, como era pretendido. A intenção é de fato reaver os direitos.
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