Plano da Fifa abre guerra com a Uefa e expõe disputa pelo futuro da Copa
Entidade europeia reagiu ao plano da Fifa

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A proposta da Fifa de criar uma empresa para administrar os direitos comerciais da Copa do Mundo e de outros torneios, permitindo a entrada de investidores privados em troca de bilhões de dólares, rompeu um equilíbrio que parecia consolidado há décadas e colocou frente a frente as duas organizações mais poderosas do esporte.
De um lado, a Fifa sustenta que pretende ampliar sua capacidade de investimento e redistribuir recursos para as 211 federações filiadas. Do outro, a Uefa enxerga um risco muito maior do que uma simples operação financeira. Para os dirigentes europeus, abrir espaço para investidores externos significa iniciar um processo que pode alterar a própria lógica de funcionamento do futebol mundial.
O debate ganhou força porque não envolve apenas balanços financeiros ou modelos de governança. A discussão passa pelo controle da competição esportiva mais valiosa do planeta, pelos limites entre interesse comercial e interesse esportivo e pelo temor de que a expansão da Copa do Mundo seja guiada menos por critérios técnicos e mais pela necessidade de remunerar investidores.
A proposta que opõe Fifa e Uefa
O projeto apresentado pela Fifa prevê a criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), uma subsidiária avaliada inicialmente em cerca de US$ 20 bilhões. A entidade permaneceria como acionista majoritária, mas venderia participações minoritárias para investidores externos, levantando aproximadamente US$ 4,2 bilhões ainda nesta primeira etapa.
A ideia ainda depende da aprovação das 211 associações nacionais filiadas, mas já provocou uma ruptura pública entre as entidades que dividem o comando político do futebol internacional.
O dinheiro captado permitirá ampliar significativamente a distribuição de recursos às federações nacionais. O discurso oficial afirma que todo o lucro líquido retornará ao desenvolvimento do futebol mundial, fortalecendo países com menor capacidade financeira e reduzindo desigualdades históricas entre as diferentes confederações.
Enquanto isso, a reação da Uefa foi imediata e extremamente dura.
Para a entidade europeia, o anúncio ultrapassa um limite institucional que nunca deveria ser cruzado. Em comunicado oficial, a organização afirmou que "a alma e a governança do futebol não são ativos para negociação" e argumentou que nenhuma instituição possui legitimidade para comercializar uma parte do esporte.
A resposta escancarou um conflito que já vinha crescendo nos bastidores.
Nos últimos anos, a Fifa aumentou o número de participantes da Copa do Mundo, criou um novo formato para o Mundial de Clubes, passou a discutir uma competição com 64 seleções e ampliou sua influência sobre o calendário internacional. Cada um desses movimentos encontrou resistência da Uefa, que vê suas próprias competições perderem espaço dentro de um calendário cada vez mais congestionado.
Agora, o embate deixou de ser apenas esportivo. Tornou-se financeiro. A proposta prevê que o grupo de investidores seja liderado pela Thrive Capital, empresa fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente norte-americano Donald Trump. A estrutura também conta com consultoria do banco JP Morgan, além da participação de executivos ligados ao mercado financeiro norte-americano.
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A presença desse grupo reforçou o discurso europeu de que interesses privados poderão ganhar influência sobre a principal competição do futebol mundial.
Embora a Fifa assegure que manterá controle absoluto sobre regulamentos, calendário, arbitragem e decisões esportivas, o simples fato de investidores passarem a ter participação econômica em seus maiores ativos despertou preocupação em diversos setores do esporte.
Especialistas em direito esportivo observam que o modelo não pode ser analisado apenas pelo percentual das ações.
O advogado e coordenador do Núcleo de Direito Desportivo da PUC-SP, Paulo Sérgio Feuz, faz uma distinção importante entre a exploração comercial do produto e a condução da competição.
— Aparentemente, eu não vejo problema algum da Fifa contratar uma empresa para gerir os direitos comerciais, desde que essa empresa não tenha poderes sobre a competição, efetivamente, que possa controlar a competição de forma que isso possa gerar um desconforto, um descompasso. Quer dizer, se for uma empresa que for gerir só o aspecto comercial, eu não vejo problema algum, porque, de certa forma, isso meio que acontece já de uma forma indireta, né? Porque as empresas de marketing, elas acabam gerindo aí esses direitos comerciais, né? Então, de certa forma, se for isso, eu não vejo problema nenhum — analisou Feuz.
Na avaliação dele, a separação entre administração comercial e administração esportiva é justamente o ponto que determinará se a operação poderá ou não comprometer a credibilidade da competição.
O próprio desenho apresentado pela Fifa procura responder a essa preocupação. A entidade afirma que conservará maioria no conselho da nova empresa e permanecerá como única responsável pelas decisões regulatórias.
Mesmo assim, parte da comunidade jurídica entende que essa garantia, sozinha, não encerra a discussão.
O advogado especialista em direito esportivo Andrei Kampff avalia que a estrutura de governança precisa ser conhecida em profundidade antes que seja possível medir os impactos reais da operação.
— A entrada de capital privado não é, por si só, incompatível com o desenvolvimento do futebol. O problema está em saber quais mecanismos de governança serão criados para impedir que a busca pelo retorno financeiro passe a orientar decisões que deveriam considerar também o interesse esportivo, social e institucional — afirmou.
A preocupação vai além da composição acionária.
Ela envolve direitos de veto, formação dos conselhos, transparência nas decisões e, principalmente, o nível de influência que investidores poderão exercer sobre um produto cuja relevância ultrapassa qualquer balanço financeiro.
— Não basta a Fifa afirmar que continuará com a maioria das ações. Governança não se mede apenas pelo percentual societário. Será preciso conhecer os direitos dos investidores, os poderes de veto, a composição dos conselhos, os critérios de prestação de contas e os mecanismos de prevenção de conflitos de interesse — completou.

Essa desconfiança cresce porque a discussão acontece exatamente no momento em que a entidade amplia sucessivamente suas competições e concentra receitas cada vez maiores em torno da Copa do Mundo, transformando o torneio no principal ativo econômico do esporte global.
A reação da Uefa
O anúncio abriu uma fissura pública entre as duas entidades mais poderosas do futebol. A Uefa classificou a iniciativa como uma linha que jamais deveria ser cruzada, argumentando que a governança do esporte não pode ser tratada como um ativo financeiro. A resposta foi imediata e expôs uma disputa que já vinha se intensificando nos últimos anos por calendário, receitas e influência política.
A leitura feita pela Uefa é que a abertura para investidores privados tende a aumentar a pressão por eventos maiores, mais frequentes e financeiramente mais rentáveis.
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Mesmo fora da Europa, as preocupações passaram a girar em torno do mesmo eixo: até que ponto investidores privados permaneceriam interessados apenas na exploração comercial do produto sem tentar influenciar decisões capazes de elevar ainda mais o faturamento?
O advogado também relativiza parte da reação europeia, sugerindo que o debate ultrapassa o aspecto jurídico e entra no terreno político.
— O que está acontecendo também é que a Europa está se movimentando, talvez com uma oposição ao Infantino. Então, esse tipo de questão talvez venha a ser um bode expiatório para uma questão política — avalia.
Ao mesmo tempo, ele lembra que a decisão não depende exclusivamente do presidente da entidade.
A hipótese de uma Copa do Mundo com 64 seleções aparece como consequência natural dessa lógica econômica. Se investidores passarem a aportar bilhões de dólares esperando retorno financeiro, cresce a tendência de ampliar o principal ativo da empresa.
Hoje, uma competição com 48 países já reúne 104 partidas. Um torneio com 64 participantes saltaria para 128 jogos, exigindo mais estádios, hotéis, centros de treinamento, logística e praticamente mais uma semana de calendário.
A discussão se torna ainda mais sensível porque a edição de 2030 já será distribuída entre Espanha, Portugal, Marrocos, Uruguai, Argentina e Paraguai, enquanto a Arábia Saudita receberá sozinha a edição de 2034, enfrentando desafios adicionais relacionados ao calendário internacional e ao período do Ramadã.
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Na prática, um Mundial maior também reduziria o peso esportivo e comercial das Eliminatórias. Com mais vagas disponíveis, diversas seleções tradicionais passariam a se classificar com maior facilidade, diminuindo o valor dos torneios continentais e aumentando a dependência financeira das confederações em relação à própria Fifa.
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