Novo formato da Copa do Mundo cria distorções e gera vantagem na rodada final
Maior edição do torneio tem isonomia prejudicada pelo calendário

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A ampliação da Copa do Mundo para 48 seleções mudou mais do que o número de participantes. Pela primeira vez, o torneio passou a reunir 12 grupos de quatro equipes, e a fase eliminatória deixou de começar diretamente nas oitavas de final. Antes delas, foi criada uma segunda fase com 32 seleções. Para preencher essas vagas, a Fifa manteve a classificação dos dois primeiros colocados de cada grupo e acrescentou um novo elemento à disputa: os oito melhores terceiros colocados também avançam.
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Na prática, isso significa que a luta pela classificação deixou de acontecer apenas dentro de cada chave. Uma seleção que termina em terceiro precisa olhar para o próprio grupo e, ao mesmo tempo, acompanhar o desempenho de equipes espalhadas pelos outros 11 grupos. A cada rodada, forma-se uma tabela paralela que reúne apenas os terceiros colocados, responsável por definir quais deles seguirão vivos no torneio.
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O sistema amplia o número de equipes com chances de classificação até os últimos dias da fase de grupos. Ao mesmo tempo, introduz situações que não existiam nas edições anteriores da Copa e levanta dúvidas sobre a coerência dos critérios de desempate adotados pela Fifa.
Modelo de classificação mudou
A classificação entre os terceiros é definida por uma ordem objetiva de critérios: pontos conquistados, saldo de gols, gols marcados, fair play e, se necessário, o ranking da Fifa. Até aí, o regulamento é relativamente simples. A complexidade aparece quando esses critérios são confrontados com as regras utilizadas dentro de cada grupo.
Para definir a posição das equipes em uma mesma chave, o primeiro desempate não é o saldo de gols, mas o confronto direto. Se duas seleções terminarem empatadas em pontos, vence quem levou a melhor no jogo entre elas. Apenas depois entram outros critérios, como saldo e número de gols marcados.
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A escolha parece lógica quando a comparação envolve equipes que realmente se enfrentaram. O problema surge quando esse mesmo resultado interfere na disputa pelas vagas destinadas aos melhores terceiros colocados.
Imagine um grupo em que duas seleções terminem com quatro pontos. Uma delas possui saldo de gols de três positivo, enquanto a outra fecha a primeira fase com saldo zero. Em praticamente qualquer competição, a equipe com melhor saldo ficaria à frente. Na Copa de 2026, isso pode não acontecer se ela tiver perdido o confronto direto. Nesse caso, termina em quarto lugar e está eliminada.

Até esse ponto, trata-se apenas de uma opção da Fifa para definir a classificação dentro dos grupos.
A contradição aparece na etapa seguinte. Os terceiros colocados passam a ser comparados com equipes de grupos diferentes. Como não existe confronto direto entre elas, esse critério deixa de fazer sentido. A classificação passa a considerar exatamente aquilo que havia sido ignorado anteriormente: pontos, saldo de gols e gols marcados.
Isso cria uma situação curiosa. Um quarto colocado pode terminar a fase de grupos com campanha estatisticamente superior à de vários terceiros colocados espalhados pela competição. Ainda assim, fica fora da disputa porque perdeu o confronto direto dentro do próprio grupo. Já a equipe que terminou em terceiro graças a esse confronto direto entra na comparação geral, embora tenha números inferiores, e pode acabar eliminada.
Em outras palavras, um time pode ter desempenho suficiente para figurar entre os melhores terceiros da Copa e, mesmo assim, não ter direito de disputar essa vaga porque foi classificado como quarto colocado dentro da própria chave.
Jogos em dias diferentes altera rotina
Essa não é a única discussão provocada pelo novo formato. Outra consequência prática aparece no calendário.
Como os 12 grupos terminam em dias diferentes, algumas seleções entram em campo conhecendo exatamente o cenário necessário para avançar. Outras jogam sem essa informação.
Os grupos A, B e C encerram seus jogos antes. Já as equipes dos grupos J, K e L entram em campo quando boa parte da tabela dos terceiros colocados já está definida. Elas sabem quantos pontos bastam, qual saldo de gols precisam alcançar e, em alguns casos, até que tipo de derrota pode ser suficiente para garantir uma vaga.
Essa diferença de informação cria uma vantagem estratégica evidente. Enquanto uma seleção que joga nos primeiros dias precisa atacar sem conhecer o tamanho do desafio, outra pode adaptar completamente sua estratégia porque já sabe qual resultado interessa.
A situação ganha ainda mais importância quando o empate passa a ser conveniente para os dois lados.
Um dos confrontos que chamaram atenção durante a última rodada foi Áustria x Argélia. Dependendo dos resultados anteriores, as duas equipes poderiam entrar em campo sabendo que um empate seria suficiente para classificar ambas. Em outro cenário, talvez uma derrota por margem mínima bastasse para manter uma delas entre os melhores terceiros. Existe até a possibilidade de uma vitória alterar o cruzamento da fase seguinte e colocar um adversário teoricamente mais forte no caminho.
"Marmelada" à vista?
A discussão inevitavelmente remete a um dos episódios mais controversos da história das Copas.
Na edição de 1982, disputada na Espanha, a Argélia encerrou sua participação antes dos adversários diretos. Alemanha Ocidental e Áustria entraram em campo sabendo exatamente do resultado necessário para eliminar os argelinos. Os alemães marcaram logo no início e, dali em diante, a partida praticamente deixou de existir como disputa competitiva. O placar de 1 a 0 classificava os dois europeus e foi administrado até o apito final.
O episódio ficou conhecido como a "Marmelada de Gijón" e provocou mudanças importantes no regulamento da Copa. Desde então, as partidas da última rodada de cada grupo passaram a ser disputadas simultaneamente, justamente para impedir que uma equipe entrasse em campo conhecendo o resultado necessário.
Quarenta e quatro anos depois, a simultaneidade continua preservada dentro dos grupos. A diferença é que a disputa pelos melhores terceiros acontece entre grupos diferentes, encerrados em dias distintos. Assim, surge uma nova forma de vantagem informacional que a regra criada após 1982 não consegue eliminar.
A própria dinâmica da competição evidencia esse cenário. Algumas seleções encerram sua participação e precisam esperar vários dias até descobrir se avançaram. Coreia do Sul e Escócia, por exemplo, terminaram a fase de grupos com três pontos e passaram a depender dos resultados dos grupos restantes. A expectativa deixa de estar apenas dentro do campo e passa a depender de partidas disputadas dias depois.
Em sentido oposto, Bósnia e Herzegovina, Equador e Suécia já asseguraram presença na fase eliminatória mesmo terminando em terceiro lugar, porque alcançaram uma pontuação que não pode mais ser superada pelo número necessário de concorrentes.
O regulamento também aumenta o peso do saldo de gols. Como ele é o primeiro critério utilizado para comparar terceiros colocados de grupos diferentes, cada gol marcado ou sofrido pode alterar significativamente a ordem da classificação. Em muitos casos, preservar uma derrota por diferença mínima pode ser mais importante do que buscar o empate de maneira desordenada.
A ampliação da Copa foi pensada para oferecer mais vagas e ampliar a presença de seleções de diferentes continentes. Esse objetivo foi alcançado. Mais países chegaram ao torneio e mais equipes permanecem vivas até a última rodada.
Ao mesmo tempo, o novo formato trouxe uma camada adicional de complexidade. A classificação passou a depender de uma combinação de critérios. Dentro do grupo vale o confronto direto. Entre terceiros colocados, esse critério desaparece. O calendário também deixou de oferecer exatamente as mesmas condições para todos os concorrentes.
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Nenhuma dessas situações significa, por si só, que o sistema seja injusto. Elas revelam, porém, que a ampliação da Copa produziu efeitos colaterais que não existiam no modelo anterior.
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