Lúcio de Castro: a bola entra por acaso na Copa do Mundo
De quatro em quatro anos, Ferran Soriano costuma ser desmentido

De quatro em quatro anos, Ferran Soriano costuma ser desmentido. Por essa entidade chamada Copa do Mundo, que amanhã tem a estreia do Brasil. Estrela de primeira grandeza do barcelonismo, artífice da virada definitiva para a glória culé, esse catalão, atualmente CEO do grupo City, é autor de um clássico cujo título virou paradigma de excelência no futebol e, mais amplamente, de gestão.
Em "A bola não entra por acaso", o ex-vice do Barça entre 2003 e 2008, talvez os anos mais gloriosos da história azul-grená, refuta a ideia de que o sucesso pode ser fruto da sorte. Nas páginas do já clássico livro, defende que a consistência do sucesso é necessariamente o resultado de planejamento estratégico, disciplina, transparência e gestão eficiente de pessoas e recursos. Colou a ideia de "círculo virtuoso" como conceito de modelo a ser seguido.
E que isso tudo explicava a glória de seu time de então.
Virou best-seller, ganhou as prateleiras do mundo, citação fácil em nove entre dez palestras motivacionais daquelas que juntam uma coleção de chavões e muito pouca profundidade.
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A parte que Soriano não conta é que a história não era bem assim.
E que o Barcelona não era esse modelo todo de excelência que vendeu livros como água.
Entre a excelência de La Masia e a genialidade de Guardiola e Messi exaltados como frutos de grande gestão, existia um mar de lama que nada lembra qualquer primor de administração.
O Barcelona de Guardiola, Soriano, Messi, Ronaldinho Gaúcho e algumas das páginas mais encantadoras do campo e bola, o Barça onde a bola não entrava por acaso, era também o Barça de Sandro Rosell. O "Sandrito".
Inegavelmente vitorioso como vice e depois como presidente campeão de Champions League e tudo o que se imaginar. Responsável por conseguir diminuir a dívida histórica do clube. Parecia uma gestão financeira rígida e austera.
O que "A bola que não entra por acaso" não conta direito é o outro lado de Sandrito. E do Barça.
Das tenebrosas transações.
Do Sandrito, parceiro das sombras de Ricardo Teixeira em negócios de corar as piores organizações. Unidos pela Omertà.
Se me permitem o depoimento pessoal, lá por volta de 2010, em reportagens na ESPN Brasil, consegui mostrar que Teixeira era o sócio oculto de Sandrito e Claudio Honigman em empresa de "marketing esportivo".
Daquelas de prateleira.
Do Sandrito preso em 2017 na "Operação Souleig", acusado de integrar organização criminosa que se dedicava à atividade de lavanderia. Depois de quase dois anos como hóspede do estado espanhol, acabou absolvido. A juíza entendeu que não havia provas suficientes. Entendeu mais: que não havia provas de que Sandrito sabia da origem ilícita do dinheiro. Então tá.
Na cabeça da excelentíssima, Sandrito prestava apenas serviços de marketing. Sigamos.
O caso faz lembrar sempre ao jornalismo que não dá para se apegar apenas ao transitado em julgado como culpado e tornar sentenças de juízes como única medida para saber o que é matéria ou não.
Muitas vezes, vale mostrar os fatos que abundam, mesmo que na cabeça de meritíssimos não existam provas suficientes.
Sim, era esse o outro lado do barcelonismo, que desmentia um tanto o título da obra de Soriano.
Tudo isso para dizer que a Copa também costuma desmentir Soriano.
Tá aí nosso estreante de amanhã, mais uma vez chegando numa Copa depois de um ciclo atropelado, cheio de histórias de malfeito da cartolagem. É o Brasil, penta, mesmo sem jamais ter tido uma gestão digna em sua entidade máxima.
A bola entrando pelo talento de sua gente, jamais pela organização.
Tá aí a Argentina de Chiqui Tapia, atual campeã do mundo.
Nenhuma bola entra mais por acaso do que a pelota hermana. Talvez só mesmo a brasileira.
Tudo próximo a Chiqui Tapia cheira a barulho e sombra.
Acusações de apropriação indevida de receitas fiscais (sim, apropriação indevida é o apelido daquela outra coisa), desvio de fundos de seguridade social e tanto mais.
Seu poder certamente não passa pela transparência. Fortalecido por imensa habilidade política, tão grande habilidade que ganhou o apelido de "la rosca", essa capacidade de articulação nos bastidores.
Ainda teve a sorte da genialidade de Messi ter estado a serviço de sua época.
Certamente Tapia e CBF desmentem Soriano.
Ao menos no que se refere à gestão.
A bola cansa de entrar por acaso quando o assunto é seleção argentina.
E é assim também que chegamos a mais um Mundial com o Brasil.
Carregando décadas de escândalo em gestões sucessivas.
Trocas de presidente da CBF e de treinadores em ritmo alucinado nos últimos 4 anos.
Se a bola não entrasse por acaso muitas vezes em Copas do Mundo…
Era melhor nem desembarcar por lá.
A Copa do Mundo do horror
Apenas para fechar: quem acompanha esta coluna não foi pego de surpresa com o show de horrores que estamos vendo nos Estados Unidos.
Agradeço silenciosamente porque lá na frente, quando a história cobrar de quem não contou essa Copa como ela é, estarei livre desse pecado. Ao menos desse.
Nunca houve nada parecido.
Nem na Copa de 78, em pleno horror da ditadura de Videla.
Nem na Rússia do czar Putin.
O tenebroso Catar se esmerou em violar direitos humanos. Teve gente morrendo.
Mas nem lá houve tanto desrespeito a quem chega para uma Copa como estamos vendo no momento nesses Estados Unidos de Donald Trump.
Um show de preconceito e autoritarismo, violações da isonomia esportiva, países competidores não podendo permanecer nas sedes dos jogos, árbitros africanos sendo enviados de volta para casa, seleções submetidas a humilhações no desembarque.
A genuflexão de Infantino para Trump.
Os amigos do rei presidencial ganhando milhões.
Boa parte da imprensa silenciou quando tudo isso já era bem claro.
Vergonhosamente.
Praticando algo que nada tem de jornalismo. Que, afinal, se não trata primordialmente desses horrores tanto quanto do campo e bola numa cobertura do tipo, nem merece ser chamada de imprensa.

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