Lance! Tático: As grandes pioraram ou as pequenas aprenderam a competir? Um raio-x da Copa 2026
Japão, Marrocos, Paraguai e outras seleções mostram que organização, estudo e identidade reduziram a vantagem histórica das grandes potências
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Toda Copa do Mundo traz algumas certezas. E uma delas aparece praticamente toda vez que uma favorita encontra dificuldade. "O futebol de seleções piorou", "o Brasil de 2002 atropelava qualquer um", "a França de 1998 era muito melhor", "a Alemanha de 2014 passaria por cima desses times".
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É uma explicação confortável. Se as grandes já não atropelam como antes, a conclusão parece simples: elas ficaram piores. Mas será que foi isso que aconteceu? Ou será que a gente continua olhando para Japão, Marrocos, Paraguai, Estados Unidos, México ou Cabo Verde com os olhos de vinte anos atrás?
Porque talvez a maior transformação do futebol moderno não tenha acontecido nas grandes potências. Talvez ela tenha acontecido justamente nas seleções que, durante muito tempo, entravam em campo apenas para sobreviver.
Hoje, algumas delas entram para competir! E existe uma diferença enorme entre essas duas palavras (sobreviver/competir).
Japão: de vítima do Brasil a pesadelo tático na Copa 2026
Volta comigo para 2006. Brasil e Japão. O placar terminou 4 a 1. O Japão já era uma seleção extremamente aplicada, organizada e disciplinada. Tinha um projeto sério de desenvolvimento e jogadores tecnicamente interessantes.
Mas existia um momento da partida em que a diferença técnica simplesmente resolvia tudo. Ronaldo (2x), Juninho Pernambucano e Gilberto foram responsáveis pelos gols. Vinte anos depois, Brasil e Japão voltaram a se enfrentar. Agora, em um mata-mata de Copa do Mundo.
Tá bem… O final se repetiu: vitória e classificação da Seleção Brasileira..Mas quem assistiu ao jogo viu uma realidade completamente diferente. Mesmo sem Mitoma, Minamino e Endo, três dos principais jogadores da seleção japonesa, o time conseguiu incomodar durante boa parte da partida.
A pressão na saída de bola brasileira foi coordenada, os espaços entre as linhas foram reduzidos e o gol japonês nasceu exatamente do tipo de jogada que explica a evolução dessa equipe: recuperação rápida, poucos toques e um ataque extremamente vertical. Não foi um lance genial de um jogador. Foi uma sequência de movimentos que parecia treinada à exaustão. O Japão está fora da Copa 2026.
Mas deixa uma pergunta. Quanto tempo falta para uma seleção como essa começar a ganhar jogos como esse?
Marrocos: da zebra de 2022 ao projeto que virou regra
Quando chegou à semifinal da Copa de 2022, muita gente chamou de zebra. Quatro anos depois, fica cada vez mais difícil continuar usando essa palavra. Porque zebras acontecem uma vez. Projetos aparecem repetidamente. O que mais chama atenção em Marrocos não é apenas a capacidade de defender.
É a quantidade de soluções que a equipe encontrou para competir. Em alguns momentos da Copa, pressionou a saída adversária. Em outros, baixou as linhas e aceitou defender perto da própria área. Contra equipes que gostam da posse, fechou o corredor central e obrigou o adversário a construir pelos lados. Contra rivais mais frágeis, adiantou a marcação e recuperou bolas perto da área. Isso é evolução tática.
Durante muito tempo, dizia-se que seleções menores precisavam escolher um jeito de jogar e sobreviver com ele. Marrocos faz justamente o contrário. Troca de comportamento durante o jogo sem perder a identidade. Isso é coisa de seleção madura.

Paraguai: como controlar o jogo sem ter a bola
O Paraguai talvez tenha produzido o exemplo mais didático desta Copa. Contra a Alemanha, viu o adversário terminar a partida com muito mais posse de bola. Para quem olha apenas esse número, parece que os alemães controlaram completamente o jogo. Mas controlar a bola e controlar uma partida são coisas completamente diferentes.
O Paraguai praticamente nunca perdeu sua organização defensiva. Aceitou que a Alemanha circulasse a bola longe da área, fechou os corredores centrais e esperou o momento certo para atacar. O resultado foi uma equipe alemã com enorme volume de jogo, mas criando menos situações realmente perigosas do que o domínio da posse sugeria.
O Paraguai não tentou impedir que a Alemanha tivesse a bola. Tentou impedir que soubesse o que fazer com ela. Essa talvez seja uma das maiores evoluções do futebol moderno. Não existe um jeito certo de competir.
Os Estados Unidos também entram nessa conversa. Durante muito tempo, pareciam uma seleção construída apenas em cima da intensidade física. Hoje alternam pressão alta, bloco médio, posse de bola e transições rápidas dependendo do adversário. O México recuperou intensidade sem perder organização.
Cabo Verde mostrou uma equipe extremamente compacta e disciplinada. A RD Congo acabou eliminada pela Inglaterra. Mas, durante boa parte da partida, fez a seleção inglesa trabalhar muito mais do que se imaginava antes da bola rolar.
Harry Kane resolveu porque jogadores desse nível continuam resolvendo. Mas talvez esse seja justamente o ponto. As grandes seleções continuam precisando que seus grandes jogadores apareçam. Percebe como nenhuma dessas equipes joga da mesma maneira.
O Japão não joga como Marrocos. Marrocos não joga como o Paraguai. O Paraguai não joga como os Estados Unidos. Durante muito tempo acreditamos que existia um jeito certo de jogar futebol. Será que o futebol moderno não está mostrando exatamente o contrário? Será que as seleções que mais cresceram não foram justamente aquelas que deixaram de copiar as potências e passaram a potencializar aquilo que realmente têm?
O talento continua fazendo diferença. Mas talvez já não resolva tudo. É claro que isso não significa que as grandes seleções deixaram de existir. Muito pelo contrário. A França enfrentou a Suécia e bastaram alguns minutos para que a diferença técnica aparecesse de forma brutal. Mbappé, Dembélé e Olise fizeram parecer simples um jogo que até então era competitivo. O talento continua sendo um diferencial gigantesco.
Messi, Mbappé, Harry Kane continuam decidindo. A questão talvez seja outra. Esses jogadores continuam decidindo porque são extraordinários ou porque hoje precisam decidir mais do que antes? Porque, há vinte anos, talvez algumas dessas partidas fossem resolvidas naturalmente pela diferença técnica.
Hoje, a sensação é que ela precisa ser construída. Talvez a Copa 2026 tenha mudado mais do que imaginamos. Durante décadas, a diferença entre uma potência e uma seleção emergente era técnica, física e tática. Hoje ela continua sendo técnica. Mas será que ainda é tão tática?
Os treinadores estudam os mesmos adversários. As federações investem em análise de desempenho. Os jogadores atuam nas principais ligas do mundo. O conhecimento deixou de ser exclusividade das grandes seleções.
Isso não significa que Japão seja melhor que Brasil. Nem que Marrocos tenha mais talento que a Holanda. Nem que o Paraguai seja tecnicamente superior à Alemanha. Significa apenas que essas seleções descobriram como reduzir essa distância. E talvez isso mude completamente uma Copa do Mundo.
Porque um campeonato de pontos corridos costuma premiar quem tem o melhor elenco. Depois de trinta e oito rodadas, a qualidade normalmente encontra seu caminho. Na Copa não. São oito jogos. Uma bola parada, uma transição mal defendida ou um plano de jogo melhor executado. Quatro anos de preparação podem terminar em noventa minutos. Talvez seja justamente por isso que tanta gente tenha a sensação de que o futebol ficou mais equilibrado. Será que ficou?
Ou será que algumas seleções finalmente descobriram como diminuir uma distância que nunca conseguiriam reduzir apenas com talento? Elas continuam sem produzir Mbappés e Vini Jrs. Mas talvez tenham aprendido algo igualmente importante. Construir equipes que sabem exatamente onde querem levar o jogo.
E, em um torneio de oito partidas, talvez isso nunca tenha feito tanta diferença. Talvez a gente continue insistindo em dizer que as grandes seleções pioraram. Mas, olhando para o que Japão, Marrocos, Paraguai, Estados Unidos, México, Cabo Verde, RD Congo e tantas outras equipes apresentaram até aqui, começo a desconfiar de outra coisa.
Será que as grandes realmente ficaram piores… ou será que finalmente estamos assistindo ao momento em que algumas seleções deixaram de entrar em campo para sobreviver e passaram a entrar em campo para competir.

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