Copa do Mundo acelera mudança no consumo de transmissões esportivas
Plataformas digitais registram marcas históricas de audiência durante o Mundial

A Copa do Mundo tem provocado mudanças que vão além das quatro linhas. Enquanto a TV aberta segue como principal plataforma para acompanhar os jogos, os números registrados pelas transmissões digitais mostram um crescimento expressivo do consumo esportivo via streaming. O cenário ficou evidente na partida entre Brasil e Haiti, disputada na última sexta-feira (19), quando as plataformas digitais alcançaram 13,7 pontos de audiência média e 20,9% de participação entre os televisores ligados, segundo dados divulgados pelo portal "Notícias da TV."
Os números colocaram o streaming como a segunda principal forma de acesso ao confronto. A "TV Globo" liderou a audiência com 33,3 pontos de média e 51% de share, mas as plataformas digitais superaram o "SBT", que registrou 11,7 pontos de média e 17,8% de participação durante a transmissão.
O principal responsável pelo crescimento foi a "CazéTV", que atingiu 16,1 milhões de acessos simultâneos durante a partida do Brasil. A marca estabeleceu um novo recorde histórico do YouTube e representou um crescimento de 28% em relação ao primeiro jogo da Seleção Brasileira transmitido pela plataforma nesta Copa.
Para Bruna Simões, especialista em inovação digital e CEO da "Thunder Games", os resultados reforçam uma transformação que já vinha sendo observada nos últimos anos.
– Os números mostram que mesmo que a TV aberta siga em posição de liderança, já há um grande espaço que foi ocupado pelo streaming, o que era difícil de imaginar há alguns anos. Hoje, fica claro que a tendência pelo consumo digital, em plataformas online, torna-se cada vez maior, independentemente de dificuldades como o delay das transmissões. Existe toda uma nova geração vindo que já nasceu nesse ambiente, e as oportunidades são enormes – disse a CEO.
A mudança também é percebida no perfil do público. Para Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da "ESPM", o avanço das plataformas digitais está diretamente ligado à forma como os torcedores passaram a consumir conteúdo esportivo.
– O fenômeno da CazéTV mostra que a disputa não é mais entre televisão e internet. A disputa é pela atenção. O público, especialmente o mais jovem, passou a valorizar autenticidade, interação e linguagem mais próxima da sua realidade. A tecnologia foi apenas o meio – afirmou Ivan
Alcance cresce em relação à Copa de 2022
Os números registrados nesta edição do Mundial também mostram um salto em comparação ao torneio disputado em 2022. Durante a primeira fase da Copa atual, a CazéTV já ultrapassou a marca de 64 milhões de espectadores alcançados no YouTube. Há quatro anos, o canal havia registrado 22 milhões de espectadores no mesmo período.
O crescimento aparece também quando a comparação é feita pelos acessos simultâneos. Na Copa de 2022, o recorde da plataforma havia sido de seis milhões de espectadores durante a partida entre Brasil e Croácia. A atual marca de 16,1 milhões representa um aumento de aproximadamente 166%.
Segundo Moisés Assayag, sócio-diretor da "Channel Associados" e especialista em finanças do futebol, a expansão da audiência digital amplia o valor comercial das competições.
– Os recordes de audiência registrados no streaming ajudam a demonstrar que o valor econômico do futebol não está apenas dentro de campo. O alcance das transmissões tem impacto direto na atratividade do produto para patrocinadores, anunciantes e parceiros comerciais – disse Moisés.

Bruno Brum, CMO da "Agência End to End", destaca que a relação entre público e conteúdo também mudou.
– O público mais jovem deixou de ser apenas espectador para se tornar participante da conversa, buscando formatos mais leves, linguagem nativa das plataformas digitais e uma experiência que mistura entretenimento, informação e interação em tempo real – afirmou o CMO.
A mesma percepção é compartilhada por Robson Carlo, sócio-fundador da "FutebolCard".
– O jogo já não acontece apenas dentro do campo. Hoje, o torcedor quer participar da experiência em tempo real, comentar, comprar produtos, interagir e fazer parte da comunidade – completou Robson.
O avanço das transmissões digitais acontece paralelamente ao fortalecimento do chamado comportamento de segunda tela. A prática consiste em acompanhar as partidas enquanto se utiliza outro dispositivo para acessar estatísticas, redes sociais, aplicativos de resultados e informações em tempo real.
Levantamento da empresa de mídia programática MiQ aponta que 76% dos torcedores devem assistir aos jogos da Copa de 2026 utilizando uma segunda tela móvel simultaneamente.
Para Alexandre Vasconcellos, diretor regional da "Flashscore" no Brasil, o comportamento já está consolidado entre os fãs de esporte.
– Nos dias de hoje, consolida-se a tendência entre os torcedores de acompanharem os eventos esportivos em múltiplas telas, ao mesmo tempo. O comportamento se divide entre assistir à transmissão, comentar nas redes sociais e buscar informações em tempo real paralelamente – afirmou Alexandre.
Anderson Nunes, especialista em marketing esportivo e head de negócios de uma casa de apostas, avalia que o crescimento das plataformas digitais amplia as possibilidades de relacionamento entre marcas e torcedores.
– Mais do que uma disputa entre TV e streaming, o que estamos vendo é uma ampliação das formas de consumo do esporte. O crescimento das plataformas digitais mostra que o torcedor quer flexibilidade e identificação com o conteúdo que consome – disse Anderson.
Outro comportamento impulsionado pela Copa envolve as apostas esportivas. Pesquisa realizada pela "Creditas "em parceria com a "Opinion Box" aponta que 56% dos brasileiros consideram realizar apostas durante o torneio.
Diante desse cenário, especialistas defendem atenção aos hábitos de consumo. Cristiano Costa, psicólogo e diretor de conhecimento da Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (EBAC), destaca a importância do equilíbrio durante a competição.
– O mais importante é que as pessoas aproveitem a experiência com equilíbrio, reconhecendo o caráter imprevisível das disputas e preservando sua saúde mental por meio de atitudes conscientes ao longo das competições – afirmou o diretor.
Daniel Fortune, especialista em conteúdo digital voltado à conscientização sobre apostas, também reforça a necessidade de responsabilidade.
– A Copa do Mundo é um período de alegria e pode despertar um desejo maior em apostar, mas é sempre necessário ter em mente que as apostas não são uma forma de enriquecer e que não são destinadas ao público infanto-juvenil – disse Daniel.
A expectativa do setor é de forte movimentação financeira ao longo do torneio. Segundo Darren Small, vice-presidente da "Sportradar", a receita global gerada pelas plataformas de apostas durante a Copa pode ultrapassar US$ 50 bilhões. Em meio ao crescimento da atividade, João Fraga, CEO da "Paag", destaca a importância da infraestrutura tecnológica.
– Em meio aos valores movimentados, é fundamental que as plataformas reforcem os sistemas de antifraude e de jogo responsável, para garantir a segurança de todos. A grande quantidade de acessos simultâneos também demanda estabilidade tecnológica – finalizou
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