Antes de desafiar o Brasil, o Japão foi transformado por Zico; entenda a relação
Ídolo do Flamengo revolucionou o futebol japonês nos anos 1990 e segue tratado como uma lenda

Quando a bola rolar para Brasil e Japão pela Segunda Fase da Copa do Mundo, Zico viverá um sentimento raro. Ídolo máximo do Flamengo e um dos maiores jogadores da história da Seleção Brasileira, o Galinho também ocupa um lugar quase sagrado do outro lado do mundo. No Japão, é considerado um dos principais responsáveis pela revolução do futebol no país e segue sendo tratado como uma lenda nacional mais de três décadas depois de desembarcar em Kashima.
Apesar do carinho pelos dois países, o coração não ficará dividido. Nas vésperas do duelo, Zico deixou claro para qual lado vai a sua torcida.
— Eu vou torcer para o Brasil, sou brasileiro, pô! Agora, se ganhar o Japão, paciência. O que eu tenho certeza é que vai ser uma grande partida, porque o time do Japão joga o jogo — afirmou Zico à "Fifa" sobre o confronto entre Brasil e Japão nesta segunda-feira (29), às 14h (de Brasília), pela Copa do Mundo.
Zico: o brasileiro que mudou o futebol japonês
Quando aceitou defender o Sumitomo Metals, atual Kashima Antlers, no início da década de 1990, muita gente não entendeu a decisão. O futebol japonês ainda era praticamente amador. Os clubes pertenciam a grandes empresas e a liga profissional sequer existia. Até familiares do Galinho estranharam a escolha de um dos maiores ídolos do futebol brasileiro por um projeto tão pequeno.
O que parecia um fim de carreira acabou se tornando um dos movimentos mais importantes da história do esporte japonês.

Dentro de campo, Zico elevou o nível técnico da equipe. Fora dele, ajudou a implantar uma nova cultura de profissionalismo, dedicação e competitividade. O Kashima rapidamente virou referência nacional e passou a ser visto como modelo para o desenvolvimento da recém-criada J-League. Não por acaso, até hoje é tratado como o maior personagem da história do clube.
Uma estátua e um legado que vai além dela
A homenagem mais conhecida fica logo na entrada do estádio do Kashima Antlers. Uma estátua em tamanho real eterniza Zico no local onde ajudou a escrever parte da história do futebol japonês.

Mas talvez seu maior legado seja invisível. No clube nasceu o conceito conhecido como Spirit of Zico (Espírito de Zico), filosofia que ultrapassou gerações.

O termo representa intensidade, dedicação, profissionalismo e respeito ao adversário. Até hoje esses princípios orientam a formação de atletas do Kashima e ajudam a explicar parte da identidade competitiva do futebol japonês.
Recentemente, o clube inaugurou também um mural em homenagem ao brasileiro, destacando três palavras que simbolizam seu legado: trabalho, lealdade e respeito.

O reconhecimento que nem o Brasil deu
O reconhecimento a Zico no Japão nunca ficou restrito ao futebol. Em 2021, durante os Jogos Olímpicos de Tóquio, o Galinho foi escolhido para participar do revezamento da tocha olímpica na província de Ibaraki, onde fica a cidade de Kashima. O convite foi tratado como mais uma homenagem ao brasileiro que ajudou a transformar o esporte no país.
O momento ganhou ainda mais simbolismo porque, cinco anos antes, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, Zico não foi escolhido para participar do revezamento da tocha em seu próprio país, decisão que gerou críticas de torcedores e admiradores do ídolo.
➡️ Zico participa de revezamento de tocha olímpica no Japão: 'Meu país me negou essa oportunidade'

Do campo ao banco da Seleção Japonesa
Depois de encerrar a carreira, Zico nunca deixou o Japão. Entre 1996 e 2002 trabalhou como diretor técnico do Kashima. Logo depois, assumiu o maior desafio de sua trajetória no país: comandar a seleção japonesa.
Foram quatro anos à frente da equipe. Em 64 partidas, acumulou 36 vitórias, 13 empates e apenas 15 derrotas, com aproveitamento superior a 63%.
Foi justamente nesse período que viveu uma das situações mais curiosas da carreira. Na Copa do Mundo de 2006, Alemanha, Brasil e Japão caíram no mesmo grupo. Na última rodada, Zico precisou enfrentar justamente a Seleção Brasileira. Naquela tarde, o Brasil venceu por 4 a 1 e eliminou a equipe japonesa. Ainda assim, a passagem de Zico deixou marcas profundas no desenvolvimento da seleção asiática.

Um reencontro com um velho conhecido
O duelo desta segunda-feira reserva outra coincidência. O atual treinador do Japão, Hajime Moriyasu, enfrentou Zico quando ainda era jogador do Sanfrecce Hiroshima.
— Ele jogou contra mim naquela época. Tinha muita técnica, muita qualidade. Depois virou um grande treinador.
Agora, Moriyasu comandará justamente a seleção que Zico ajudou a transformar. Dias antes da partida contra o Brasil, o técnico japonês falou sobre a importância do brasileiro para o país asiático.
— A importância do Zico para o futebol japonês foi gigantesca. Ele chegou ao Japão pouco antes da criação da J-League e contribuiu para o crescimento do esporte quando o país possuía apenas uma liga amadora. Mesmo após encerrar a carreira como jogador, continuou ajudando o desenvolvimento do futebol japonês, especialmente através do Kashima Antlers. Poder vê-lo jogar no meu país foi algo especial para toda a minha geração. Ele teve participação decisiva no crescimento da J-League e, como uma referência para todos nós, também ajudou o Japão a alcançar novos patamares no futebol internacional — afirmou Moriyasu.
O Japão que Zico sonhava ver
Se nos anos 1990 o futebol japonês ainda engatinhava, hoje a realidade é completamente diferente. Dos 26 convocados para a Copa do Mundo, 23 atuam em ligas europeias. Bundesliga, Premier League e Serie A passaram a fazer parte do cotidiano dos jogadores japoneses.
Para Zico, esse amadurecimento explica o crescimento competitivo da seleção.
— O Japão tem um nível muito mais competitivo hoje. Assim como acontece com os brasileiros, os jogadores japoneses foram para a Europa, ganharam experiência e voltaram mais preparados.
Talvez essa seja a maior prova do impacto deixado pelo Galinho. O Japão que hoje desafia o Brasil em uma Copa do Mundo nasceu muito antes de Hajime Moriyasu. Tudo começou quando o ídolo do Flamengo tomou a decisão de começar um projeto do zero. Mais de três décadas depois, o país asiático colhe os frutos daquela escolha.
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