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Ambiente 'irrespirável', críticas internas e goleada: França termina Copa em baixa

Despedida de Deschamps escancarou clima complicado para sucessor

PorPedro BrandãoRio de Janeiro (RJ)
19/07/2026 19:21
Atualizado há 2 minutos
Dembélé com Deschamps em partida da França pela Copa do Mundo
Dembélé com Deschamps em partida da França pela Copa do Mundo (Foto: Dan Mullan / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP)

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A França chegou às semifinais da Copa do Mundo com números de candidata clara ao título. Eram seis vitórias em seis partidas, 16 gols marcados, apenas dois sofridos e nenhuma vez vazada durante o mata-mata. Em poucos dias, porém, a campanha praticamente perfeita deu lugar a uma eliminação, uma goleada na disputa do terceiro lugar e declarações que expuseram o desgaste interno da seleção.

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A derrota por 2 a 0 para a Espanha tirou os franceses da final. Na partida seguinte, os Bleus sofreram quatro gols somente no primeiro tempo e perderam por 6 a 4 para a Inglaterra. A equipe que havia levado dois gols em todo o torneio até a semifinal sofreu oito nos dois últimos compromissos e terminou na quarta posição.

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O encerramento também marcou a despedida de Didier Deschamps depois de 14 anos no comando. Após o último jogo, o treinador revelou que decidiu deixar o cargo porque o ambiente ao redor de seu trabalho havia se tornado "irrespirável".

— A seleção francesa está acima de tudo. Ela não me pertence. Estive a serviço dela, em uma missão, durante 14 anos. Não existe nada acima desta camisa. Decidi que precisava parar. E, sinceramente, não tomei essa decisão por mim, mas pelo bem da seleção francesa. Talvez eu não tivesse dito isso antes, mas havia um ambiente tão irrespirável em relação a mim que a seleção não merecia passar por isso — afirmou Deschamps.

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França desaba depois de campanha dominante

Até a semifinal, a França havia apresentado uma campanha consistente. O time tinha capacidade para controlar os jogos, velocidade no ataque e segurança defensiva. Mbappé e Michael Olise lideravam uma equipe que também contava com opções como Dembélé, Barcola, Cherki e Doué.

A derrota para a Espanha mudou o ambiente. A seleção francesa foi superada por 2 a 0, teve dificuldades para desenvolver seu jogo e viu o sonho do título terminar antes da decisão.

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A reação esperada contra a Inglaterra não aconteceu no início. A França entrou desconcentrada na disputa do terceiro lugar e chegou ao intervalo perdendo por 4 a 0. Declan Rice abriu o placar aos dois minutos, Konsa ampliou, e Saka marcou duas vezes antes do fim da primeira etapa.

Deschamps retirou Theo Hernández, Konaté, Cherki e Doué no intervalo. Digne, Upamecano, Dembélé e Barcola entraram e mudaram o comportamento da equipe. A França marcou quatro vezes no segundo tempo, mas não conseguiu concluir a reação.

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— Evidentemente, é uma derrota. Fizemos um primeiro tempo que não pode ser apresentado. Depois, reagimos e conseguimos fazer coisas boas. Tivemos duas oportunidades para empatar em 4 a 4. Passamos a atacar mais, que é o que sabemos fazer. Infelizmente, a culpa é minha, porque não fiz o que deveria no primeiro tempo. Pelo menos, depois, aquilo se pareceu com alguma coisa, mesmo que a derrota doa. Conseguimos fazer coisas positivas, e nem tudo deve ser descartado — declarou o treinador.

Mbappé: 'Pareceu que abandonamos o treinador'

Capitão da França, Mbappé também reconheceu que a postura no primeiro tempo foi incompatível com uma seleção que disputava uma partida de Copa do Mundo. O atacante marcou duas vezes na etapa final, participou da reação e terminou a competição com recordes individuais, mas deixou o campo frustrado.

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— No primeiro tempo, consigo entender quem disser que foi uma palhaçada e que não respeitamos a camisa. Eu diria mais que fomos humanos e, infelizmente, não podemos nos permitir ser humanos. Estávamos completamente atordoados, e acredito que eles nos despertaram muito bem. No segundo tempo, voltamos a ser jogadores de alto nível, máquinas mentais que não têm mais sentimentos. Conseguimos vencer o segundo tempo, mas, no fim, não ganhamos a partida — afirmou Mbappé.

A derrota teve um peso maior pelo fato de ser a despedida de Deschamps. Antes do jogo, Mbappé já havia publicado uma homenagem ao treinador e dito que o elenco deveria ter oferecido um encerramento melhor. Depois da partida, o atacante admitiu que a atuação inicial transmitiu justamente a imagem que o grupo queria evitar.

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— É uma pena pelo treinador, porque queríamos fazer alguma coisa por ele. Infelizmente, o primeiro tempo dá a impressão de que o abandonamos. Não era isso que queríamos transmitir. Queremos agradecê-lo por tudo o que fez, porque esta partida não vai manchar a lenda de Didier Deschamps — completou.

Rabiot expõe insatisfação com companheiros

Adrien Rabiot foi ainda mais duro. O meio-campista afirmou ter visto comportamentos inéditos de alguns jogadores e classificou como inadmissível a postura da equipe nos primeiros 45 minutos.

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Integrantes da comissão técnica já haviam percebido pouca mobilização entre alguns atletas antes da partida. Linguagem corporal preocupante, aquecimento com pouca intensidade e jogadores aparentemente mais concentrados no fim da competição do que na disputa pelo terceiro lugar foram os indícios.

— Entramos de uma forma bastante vergonhosa no primeiro tempo. Vi comportamentos de alguns jogadores que nunca tinha presenciado até agora. É decepcionante, porque era nossa última partida e ainda tínhamos a oportunidade de terminar bem a competição. Havia muita frustração depois da derrota para a Espanha, mas existia um trabalho a ser feito até o fim. Não podemos simplesmente fazer as coisas de qualquer maneira. Conversamos no intervalo e dissemos que precisávamos demonstrar um pouco de orgulho. A atuação melhorou bastante no segundo tempo porque, na primeira etapa, alguns comportamentos foram inadmissíveis — declarou Rabiot.

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O volante também lamentou que o ciclo de Deschamps tenha terminado dessa maneira. Para ele, a derrota não apaga o trabalho realizado pelo treinador e por sua comissão técnica.

— Gostaríamos de ter terminado com uma vitória para proporcionar uma despedida melhor ao treinador, mas isso não mancha a imagem que ele tem diante dos franceses. Ele nos agradeceu, mas somos nós que precisamos agradecê-lo por todos esses anos e pela disciplina que implantou. Ele ajudou a reconstruir a seleção francesa. Não fez isso sozinho, evidentemente, mas foi um dos grandes responsáveis. É o fim de um ciclo para muita gente dentro da equipe, e nós nos lembraremos dele — disse.

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Deschamps atribui saída ao desgaste externo

Deschamps havia anunciado ainda em janeiro de 2025 que deixaria a seleção depois da Copa do Mundo. Na ocasião, o treinador não havia detalhado os motivos. Após a despedida, explicou que a decisão foi amadurecida durante um período de críticas constantes vindas da imprensa e dos torcedores.

Mesmo com um currículo que inclui o título mundial de 2018, a Liga das Nações de 2021 e outras duas finais importantes, Deschamps enfrentava questionamentos pelo estilo da equipe, pelas convocações e pela gestão do elenco.

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— Não foi uma decisão tomada de um dia para o outro. Desde que ela foi anunciada, o ambiente ficou muito melhor para a seleção francesa. Eu poderia ter tomado a decisão antes da Copa ou durante a competição, mas não quis fazer isso porque respeito muito a seleção — explicou.

O técnico também informou que não pretende comentar o trabalho de quem assumir o cargo. A partir da despedida, Deschamps afirmou que adotará uma postura de reserva em relação aos Bleus.

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O novo técnico será Zinedine Zidane, ídolo da seleção e herói do primeiro título mundial, em 1998. Ele assumirá oficialmente em 1º de setembro, segundo o jornal L'Équipe. E encontrará um ambiente conturbado antes de enfrentar os primeiros adversários do novo ciclo, pela Liga das Nações da Europa: Turquia, Bélgica e Itália, com confrontos agendados entre os dias 25 de setembro e 5 de outubro.

Recordes da França não escondem encerramento frustrante

A campanha terminou com marcas históricas. Olise chegou a sete assistências e se tornou o maior garçom em uma única edição de Copa do Mundo, superando Pelé, que conseguiu 6 na Copa de 1970. Mbappé marcou duas vezes contra a Inglaterra e venceu Lionel Messi em duas disputas: encerrou o Mundial como artilheiro, com 10 gols, e chegou a 22 gols no total, tornando-se o maior artilheiro da história das Copas. Os números individuais, no entanto, ficaram em segundo plano. O próprio Mbappé afirmou que preferiria não ter alcançado o recorde e estar em campo na decisão.

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A França deixa o Mundial com uma base jovem, jogadores em alto nível e possibilidades de continuar entre as principais seleções. Ao mesmo tempo, termina a competição com questões que serão entregues ao próximo treinador: reorganizar a defesa, recuperar a mobilização coletiva e administrar um grupo que expôs suas divergências no último jogo.

Mbappé comemorando gol na Copa
Mbappé comemora gol da França contra Inglaterra na Copa. (Foto: CHANDAN KHANNA / AFP)

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