Atlanta 30: Mireya relembra provocações às brasileiras: 'Não é exemplo'
Lenda cubana foi uma das líderes do time tricampeão olímpico de vôlei

"Nunca nos perdoávamos por perder". A frase de Mireya Luis, lenda do vôlei, resume bem o espírito que fez da seleção de Cuba tão dominante ao longo dos anos 1990. Explica também por que o grupo, que ainda tinha nomes como Regla Torres e Magalys Carvajal, se valia de provocações, gritos e confrontos para levar as adversárias ao limite. Uma das rivalidades mais quentes era justamente com a seleção brasileira, e os times protagonizaram um capítulo inesquecível dessa história nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996.
Na ocasião, a seleção cubana chegava já com o status de campeã olímpica, título conquistado em Barcelona 1992. Era um time experiente, que treinava durante horas contra equipes masculinas e observava atentamente as rivais — especialmente o time brasileiro, que vinha em ascensão e buscava sua primeira medalha em Jogos Olímpicos.
— Reconhecíamos que o Brasil estava evoluindo rapidamente e se tornando uma equipe muito difícil de ser derrotada. Nossos estilos de jogo eram parecidos, e sentíamos as mesmas emoções que elas sentiam. O que mais me impressionou foi a confiança com que elas entravam em quadra. Chegaram aos Jogos com a mentalidade de conquistar o ouro olímpico, e essa crença as acompanhou durante todo o torneio — relembrou Mireya.

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Dois anos antes, a seleção cubana havia vencido o Brasil sem dificuldades na decisão do Mundial, em pleno Ginásio do Ibirapuera. Naquele dia, as cubanas estavam tão confiantes na vitória que entraram em quadra usando bobes no cabelo, prontas para a festa em Havana - mais um capítulo icônico dessa rivalidade.
Em Atlanta, porém, a história seria diferente. Logo na primeira fase, vitória das brasileiras por 3 sets a 0. Cuba ainda sofreu mais uma derrota, desta vez diante da Rússia, e reencontrou as rivais sul-americanas na semifinal.
Mireya mudou de opinião sobre provocações
Havia uma grande expectativa nas horas que antecederam aquele duelo do dia 1º de agosto de 1996, considerado uma final antecipada. As cubanas se preocupavam com Ana Moser, Fernanda Venturini, Márcia Fu e Virna, e sabiam que o resultado seria definido nos detalhes. E, principalmente, que o fator psicológico seria tão importante quanto o técnico.
Hoje vice-presidente executiva da Federação Internacional de Voleibol (FIVB), Mireya lembra, aos risos, do que passou a chamar de "táticas não convencionais". A ponteira, conhecida por sua potência física, gritava "salta, chica" quando o bloqueio brasileiro não conseguia acompanhar sua impulsão na rede. Toda a equipe embarcou na estratégia de provocações e xingamentos às rivais.
— Você precisa entrar em quadra com todas as ferramentas preparadas, e a força psicológica é uma das mais importantes. Uma equipe mentalmente forte consegue superar qualquer situação. Hoje tudo isso pertence ao passado, e eu não apresentaria esse comportamento como um exemplo a ser seguido. Não recomendaria entrar na mente das adversárias da forma como fazíamos naquela época - refletiu.
Foi um jogo disputado nos detalhes e definido em cinco sets, com vitória para Cuba, que estava com o resultado da primeira fase "engasgado". Até hoje, mesmo após se sagrar tricampeã olímpica e bicampeã mundial, Mireya considera aquele jogo com o Brasil um dos mais desafiadores de sua carreira.
— As duas equipes fizeram todo o possível para vencer, demos mais de cem por cento. As brasileiras tinham nível muito alto. Nossas estratégias pouco comuns irritaram bastante as brasileiras e tivemos discussões muito fortes - contou.
Essas "discussões" começaram ainda na quadra. Em uma das imagens mais emblemáticas dos Jogos de Atlanta, Ana Moser encara Mireya na rede, pedindo respeito à cubana. A briga não parou apenas nos xingamentos e palavras fortes, mas seguiu pelos vestiários e chegou às vias de fato.
Depois de tanta batalha, a seleção de Cuba seguiu firme em busca do bicampeonato olímpico. Dois dias depois, em 3 de agosto, venceu a equipe da China por 3 sets a 1, construindo mais um capítulo do grupo que se tornaria lendário no esporte.

De rivais a 'irmãs' fora de quadra
Se o clima pesou depois daquela semifinal histórica, Mireya garante que a animosidade com as jogadoras brasileiras ficou no passado. Hoje, considera as antigas rivais como irmãs. Trinta anos depois, muitos fãs de vôlei que testemunharam aquele momento já perdoaram as cubanas. Outros, que apenas ouviram as histórias do clássico, reconhecem o tamanho de Mireya para a modalidade.
— Quando vou ao Brasil, as pessoas pedem fotos e autógrafos e relembram aquelas partidas. Quando falam de voleibol, falam de Brasil e Cuba. Fazer parte daqueles confrontos e daquelas equipes que continuam sendo lembradas é uma honra que carregarei comigo, junto com meu amor e respeito por cada jogadora brasileira e por cada torcedor brasileiro, até o fim da minha vida - finalizou.
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