Atlanta 30 anos: final brasileira no vôlei de praia 'muito além do que podia sonhar'
Jackie/Sandra venceram Adriana/Mônica e subiram ao lugar mais alto do pódio

A disputa do vôlei de praia nas Olimpíadas de Atlanta 1996 foi um marco não somente para o esporte brasileiro, mas também para as mulheres. Pela primeira vez, uma atleta do país conquistou uma medalha em Jogos Olímpicos. E foi logo em dose dupla. E no alto do pódio. Jackie/Sandra e Adriana/Mônica fizeram uma inédita e única final entre representantes do Brasil na modalidade - na primeira participação do vôlei de praia nas Olimpíadas - e, claro, as quatro subiram ao pódio ao som do Hino Nacional.
A arena temporária construída em Jonesboro, na Geórgia (EUA), guarda as melhores memórias dessas atletas em Jogos Olímpicos. No dia 27 de julho de 1996, há 30 anos, Jackie Silva e Sandra Pires venceram Adriana Samuel e Mônica Rodrigues por 2 sets a 0 na grande final do vôlei de praia.
— Foi muito além do que eu podia sonhar quando era uma menina. Eu tinha um sonho muito real de participar de uma Olimpíada, mas se me contassem lá atrás que eu ia participar e ganhar uma medalha, talvez eu não acreditasse. Foi mágico, é inesquecível - relembra Adriana.
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Trinta anos depois, as jogadoras, aposentadas das quadras, seguem com carreiras próximas ao esporte. Jackie e Mônica, rivais na final de Atlanta, hoje em dia dão aula de vôlei de praia perto uma da outra, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, elas garantem que não há "disputa" por alunos e, sim, muito amor ao voleibol e ao que construíram com ele.
— Eu sempre tive muita vontade de ensinar, assim como eu tenho muita vontade de aprender. Eu tive a sorte de ter excelentes professores na minha estrada e eu gosto de ler, eu gosto de ver, entender como é que os atletas pensam hoje no esporte em si. E como eu continuo jogando também, fica muito fácil para mim poder ensinar, ainda como jogadora — disse Jackie Silva.

Mônica dá aula de vôlei e beach tennis, esporte do qual ela também foi pioneira. A ex-jogadora leva a variação do tênis como hobby. No entanto, a pandemia a fez se afastar um pouco das areias e começar a aulas particulares de disciplinas da escola por um período.
— Além de dar aula na praia na parte da manhã, eu dava aulas particulares de inglês, português e etc. Então, assim, a vida foi moldando para outros caminhos. Mas, assim, vôlei de praia é eterno no meu coração, é a prioridade no meu coração em termos de esforço. Mas joguei tênis, beach tennis. Enfim, estou aqui para colaborar no que precisar.

A final histórica: Jackie/Sandra levam o ouro em cima de Adriana/Mônica

Em 1996, o vôlei de praia era desconhecido no Brasil, o que mudou com a final 100% brasileira nas Olimpíadas daquele ano. A partir daí, o esporte passou a receber mais valor, e foi iniciada a luta das mulheres por igualdade na premiação e pelo direito de usar patrocínio na roupa nas etapas do circuito mundial. Para Jackie, aquela decisão não foi só um jogo: "Depois dali, a gente conquistou uma credibilidade inquestionável de poder estar brigando por isso nas etapas mundiais de vôlei de praia".
Antes de sequer imaginar que estaria em uma final e revolucionando a modalidade, a dupla de Jackie, Sandra, aos 23 anos, chegou à Atlanta inexperiente se comparada à sua parceira, que tinha 34. Para a jovem, o emocional foi a maior dificuldade naquela decisão.
— A gente jogava muito, ninguém batia a gente naquela época, e a gente já tinha vencido a Mônica e a Adriana em todas as partidas anteriores, eu acho. Então, em confrontos, nós éramos favoritíssimas. Eu já estava muito emocionada de estar jogando uma final. Eu estava um pouco dispersa, não estava tão focada. Porque quando eu falei: "Caramba, estou numa final olímpica, gente. Como é que pode? Eu já sou medalhista de prata". Então, a cabeça estava meio… não estava com aquele foco ali no jogo.
O psicológico de Sandra ainda foi surpreendido por uma mudança de estratégia de Adriana e Mônica. Normalmente, Jackie era caçada no saque, mas, daquela vez, aconteceu o contrário, e o primeiro set foi tenso, vencido por Jackie/Sandra pela vantagem mínima de 12/11. Já na segunda parcial, o jogo fluiu mais, e a "novata" foi "botando os pés no chão", como falou ao Lance!".
Assim, Jackie e Sandra se recuperaram e saíram vencedoras do segundo set por 12 a 6, fechando a partida em 2 sets a 0 e conquistando a medalha de ouro. Para elas, o momento do Hino Nacional no lugar mais alto do pódio foi o mais especial daquela Olimpíada.

A prata com gosto especial
Ainda que tenham ficado com a medalha de prata, Adriana e Mônica entraram para a história ao subir no pódio na primeira participação do vôlei de praia em Olimpíadas, e ainda mais em uma final 100% brasileira. Para Adriana, isso foi uma "sorte":
— O momento que mais guardei com carinho foi a imagem de nós quatro no pódio. Uma dobradinha brasileira, a gente com a bandeira do Brasil nas costas. Não vou esquecer nunca, é inesquecível. Acho que vai ficar marcado para sempre. Ainda tem o seguinte: eu ganhei a prata e escutei o Hino Nacional. Eu e Mônica tivemos essa sorte, já que a dupla campeã também foi brasileira.
Segundo a atleta, a medalha foi um divisor de águas em sua vida. "Eu falo sempre: existe ex-atleta, mas não ex-medalhista". Hoje em dia, Adriana é empresária, palestrante e atua em projetos socioesportivos. Já Mônica, atualmente professora de vôlei de praia e beach tennis, lembra daquela decisão de Atlanta 1996 como um momento mágico; uma tristeza no apito final que logo deu lugar à felicidade.
— Na final, a gente perde. Então, quando a gente perde, é lógico que a gente tem aqueles cinco minutos que não gosta, né? Que fica triste. Mas, logo, logo, a gente se juntou a elas (Jackie e Sandra). Foi muito lindo. A gente fala muito que foi a primeira vez que uma dupla medalha de prata ouve o Hino Nacional no pódio. Então, isso é muito especial. Foi muito especial. Foi lindo. E vai ficar marcado, né? Isso é a história do vôlei de praia no Brasil.

'Ser pioneiro não é fácil': a polêmica dos biquínis no pódio
Como é tradicional nos pódios olímpicos, os atletas participam da premiação agasalhados, e não com o uniforme da disputa. Mas não foi isso que aconteceu no vôlei de praia feminino em Atlanta 1996. Após o fim da partida, Sandra e Jackie estavam prontas para trocar de roupa e receber a medalha. Porém, foram instruídas, pela Federação Internacional de Voleibol, a subir de biquíni no pódio.
— No meio da comemoração, a gente não se tocou que o motivo de ficar de biquíni é que seria sexy. Essa discussão não existia naquela época. Então, ser pioneiro é isso. Você vai evoluindo, né? E a gente está ali bem exposto, bem cobaia mesmo. O lado bom, claro, você é o primeiro, né? Nunca mais vão te tirar isso — disse Sandra.
Para ela, ver Duda e Ana Patrícia, campeãs olímpicas em Paris 2024, disputando partidas com short e tops, em vez de biquínis, mostra a evolução no tratamento do esporte e as portas abertas com a conquista em Atlanta 1996.
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