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Post-Olympic blues: o que o atleta faz após a realização do sonho

Após anos de preparação, atletas podem enfrentar perda de motivação, ansiedade e vazio emocional

PorBeatriz PinheiroSão Paulo (SP)
04/09/2026 08:00
Imagem mostra um pódio vazio em uma arena olímpica vazia
O post-olympic blues é um fenômeno que descreve a sensação de vazio experimentada por atletas de alto rendimento (Foto: Montagem Lance!/ Gemini)

Imagine passar uma vida inteira correndo em direção a um único dia. Por anos, sair da cama antes do sol nascer. Levar o corpo ao limite a cada treino. Sacrificar momentos com família e amigos. Conviver com dores e cobranças e repetir a mesma rotina milhares de vezes porque, um dia, tudo aquilo pode levar a um pódio olímpico. Mas o que acontece quando esse destino finalmente chega e, de repente, já ficou para trás? Sem a próxima prova para contar os dias ou um grande objetivo no horizonte, pode surgir um vazio difícil de explicar.

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Esse fenômeno, que vem sendo alvo de pesquisas na área da psicologia do esporte, tem nome: post-olympic blues ou, em português, tristeza pós-olímpica. Trata-se de um estado de esgotamento emocional vivido por atletas de alto rendimento justamente quando o corpo passa por uma queda brusca dos níveis de adrenalina, dopamina e endorfina, além da mudança de uma rotina de alta intensidade.

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Uma pesquisa publicada em 2023 na Revista Escandinava de Psicologia do Esporte e do Exercício mostrou que 27% dos atletas apresentaram ou bem-estar abaixo da média ou sintomas de depressão moderados a graves um mês depois dos Jogos Olímpicos de Tóquio. O estudo foi conduzido por pesquisadores ligados ao Time Dinamarca e contabilizou respostas de 49 atletas do país.

— Um evento como uma Olimpíada tem um foco altíssimo do atleta, se ele não vai bem ou se ele vai bem pode gerar um efeito rebote. O atleta precisa entender que falta de motivação, queda de desempenho, ficar ruminando, perder vontade daquilo que a pessoa amava podem ser sintomas de alerta — explicou Carla di Pierro, psicóloga do Comitê Olímpico do Brasil.

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É importante destacar que, dentro da literatura médica, esse fenômeno não é equivalente à depressão clínica, já que ainda não há critérios diagnósticos específicos para esse quadro, diferente da depressão, sistematizada pela Classificação Internacional de Doenças (CID). O post-olympic blues pode ser transitório, e é caracterizado dentro de um contexto específico.

Saúde mental impacta o ciclo seguinte

Para além do sofrimento emocional do atleta, o post-olympic blues, a depressão e outras questões de saúde mental também impactam a sequência do ciclo olímpico do atleta. Foi o que viveu o nadador Bruno Fratus que, após um frustrante sexto lugar nos 50m livre nos Jogos Olímpicos Rio 2016, enfrentou um período de esgotamento mental e depressão.

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Em palestras e relatos públicos sobre o assunto, Bruno contou que, na época, mal tinha vontade de treinar. Ele precisou do apoio de familiares, treinadores e, principalmente, do apoio profissional da psicóloga Carla di Pierro, com quem iniciou um trabalho de recuperação mental.

— Eu comecei a sair (da depressão) justamente quando o COB entrou em cena e me ofereceu esse recurso. Aí eu comecei uma longa jornada, comecei a aprender sobre o tema, fui me tratar para poder superar essa fase da minha carreira e da minha vida — disse.

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O processo mudou a abordagem de Bruno Fratus para o ciclo olímpico seguinte. Além do treinamento tradicional, ele incorporou estratégias de meditação e preparação mental no caminho até os Jogos de Tóquio, quando realizou o sonho do pódio olímpico, com a conquista da medalha de bronze nos 50m livre. Hoje, o ex-nadador se tornou uma referência quando o assunto é saúde mental no esporte de alto rendimento e revelou até a vontade de buscar uma formação em psicologia no futuro.

O nadador Bruno Fratus segura a bandeira do Brasil e mostra a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio
O nadador brasileiro Bruno Fratus conquistou o bronze olímpico após enfrentar uma depressão (Foto: Jonne Roriz/ COB)

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Medalha não é sinônimo de felicidade

Engana-se quem pensa que o post-olympic blues e a depressão afetam apenas os atletas que não atingiram seu objetivo esportivo. Campeã olímpica do vôlei de praia nos Jogos de Paris 2024, a brasileira Duda Lisboa se viu desmotivada, enfrentou crises de ansiedade e questionou a própria identidade após realizar o maior sonho da vida.

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— Eu não queria mais saber de quadra. Muita gente imagina que quando se alcança o topo, tudo fica perfeito, que a felicidade é constante e todos os problemas desaparecem. Mas não foi assim pra mim. Depois da Olimpíada eu me vi perdida, sem vontade de treinar, sem brilho nos olhos, sem conseguir entender o que estava acontecendo comigo. Achei que precisava ser forte o tempo todo, que eu deveria estar feliz — contou, em relato publicado em seu perfil nas redes sociais.

Duda procurou ajuda e tomou decisões dentro e fora de quadra para cuidar da saúde mental. Em 2025, ela enfrentou crises de ansiedade durante o Mundial da Austrália e, em consenso com a parceira Ana Patrícia, decidiu abandonar a competição. Em julho deste ano, optou por se retirar das competições até novembro de 2026 com o objetivo de iniciar a corrida para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 nas melhores condições de corpo e mente.

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— Tive dias em que sair da cama era tão difícil quanto uma final olímpica. Foi quando eu entendi que saúde mental também precisa de cuidado e a gente precisa de coragem pra pedir ajuda e admitir que nem sempre a gente está bem. Hoje ainda estou me redescobrindo além do vôlei, o que é um desafio constante — completou.

Campeão das Olimpíadas de Tóquio, o escalador espanhol Alberto Gines fez um desabafo público após conquistar sua primeira medalha de ouro em etapas de Copa do Mundo. O atleta de 23 anos revelou que viveu muitas dúvidas após o evento na capital japonesa e chegou a questionar se seguiria o caminho até Los Angeles.

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— Depois de Tóquio ouvi tantas vezes que não merecia o ouro que acabei acreditando que o lugar mais alto do pódio não era o meu lugar. Odiei o ouro, senti que não me pertencia, ainda é difícil olhar para a medalha sem me sentir um impostor. Demorei três anos para voltar a ser eu mesmo, e os resultados voltaram a chegar - escreveu.

Duda Lisboa no Campeonato Mundial de Vôlei de Praia 2025 (Foto: Divulgação/Volleyball World)
A campeã olímpica Duda Lisboa falou publicamente sobre sua relação com a saúde mental (Foto: Divulgação/Volleyball World)

O que fazer?

De acordo com especialistas, o melhor remédio contra o post-olympic blues é se antecipar a ele. Assim como a organização de treinamentos e calendário de competições, o planejamento do que fazer após o fim dos grandes eventos é a chave para evitar uma sensação brusca de vazio.

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— A gente pode ensinar o atleta sobre o que pode acontecer, acolher as emoções que aparecerem ali. O que eu vou fazer? Vou tirar férias, vou ter evento com meu patrocinador, vou ficar com a minha família? Prever como seria um pós com bom resultado ou com resultado ruim ajuda a prevenir algumas coisas — explicou Carla.

A preparação mental passou a ser considerada como apenas mais uma parte no todo do trabalho de alto rendimento. Desde 2014, a entidade estruturou uma área de saúde mental e atualmente disponibiliza um espaço físico voltado para isso no Centro de Treinamento. Na visão dos profissionais da área, o ideal é que esse trabalho seja feito em conjunto com comissões técnicas, para atender o atleta com um contexto completo.

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— A preparação mental é preparação, é treino. Não adianta estar na quadra, na piscina treinando, e a piscina estar precisando de um amparo. Da mesma forma que a gente treina na pista, na academia, a gente tem também a preparação mental, que está cada vez mais integrada na preparação dos atletas — completou Fratus.

Durante o setembro amarelo, mês de prevenção ao suicídio, o Lance! traz reportagens sobre o impacto da saúde mental no esporte.

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