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'Abusos encurtam carreiras': COB fortalece Esporte Seguro

Liderado por ex-atletas olímpicos, programa combate a violência no esporte de alto rendimento

PorBeatriz PinheiroSão Paulo (SP)
07/08/2026 07:00
Mariany Nonaka e Sebastian Pereira lideram o Programa Esporte Seguro do COB
Mariany Nonaka e Sebastian Pereira lideram o Programa Esporte Seguro do COB (Foto: Divulgação/ COB)

Abusos encurtam carreiras esportivas. Esse é o alerta deixado por Mariany Nonaka e Sebastian Pereira, ex-atletas olímpicos e hoje líderes do Programa Esporte Seguro, do Comitê Olímpico do Brasil (COB). A iniciativa visa o combate ao abuso e assédio, mas também amplia o debate sobre temas como a equidade de gênero, o antirracismo e a manipulação de resultados.

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Por muito tempo, o esporte naturalizou a violência psicológica e o assédio sob o verniz da "disciplina". Mas, os tempos são outros, e o COB entendeu que era necessário adotar uma abordagem que ajude a proteger os atletas em meio a um choque geracional.

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— Antigamente, havia a cultura do 'no pain, no gain' à base de gritos e berros. Hoje precisamos conscientizar sobre a forma correta de cobrar, sem cruzar a linha tênue da violência psicológica. Na minha época de atleta, o treinador mandava subir escada correndo com outro nas costas e você fazia sem questionar. A geração atual é muito mais questionadora e atenta, quer entender o porquê do treino - contou Sebastian, que representou o Brasil no judô nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996.

O debate global para a necessidade de criar um ambiente mais seguro para os atletas vem ganhando relevância nos últimos anos, e foi marcado por episódios emblemáticos. Mariany citou como exemplo o caso da ginástica dos Estados Unidos, em que o médico Larry Nassar abusou de mais de 200 atletas. A repercussão acendeu um alerta para o fato de que o ambiente esportivo, quando fechado e extremamente hierárquico, pode ser terreno fértil para violência.

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— O Esporte Seguro é desenvolver ações de forma preventiva, educacional e combatente para que não chegue nesse ponto. Para a gente entender se as pessoas que estão no nosso entorno estão correndo risco, se precisam de proteção, se o atleta precisa de acolhimento ou ajuda. O treinador sabe o limite? O fisioterapeuta sabe o limite até onde deve chegar? O Esporte Seguro é também uma transformação cultural de como foi o esporte até aqui. O esporte evolui, a nossa sociedade evolui, as coisas mudaram e isso precisa começar a ser dito - explicou.

A mudança bate de frente com estatísticas duras. Segundo estudos do Comitê Olímpico Internacional (COI), 78% dos atletas que relatam ter sofrido violência sexual são mulheres ou fazem parte do grupo LGBTQIA+.

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— Os estudos apontam que atletas que sofreram abuso tendem a desistir e abandonar a carreira precocemente. A carreira de atleta já é difícil por si só, envolve muitas renúncias. Um ambiente mais seguro proporciona melhores resultados - completa Mariany.

A ex-atleta de tênis de mesa e advogada Mariany Nonaka, durante o III Fórum Esporte Seguro do COB
A ex-atleta de tênis de mesa e advogada Mariany Nonaka, durante o III Fórum Esporte Seguro do COB (Foto: Grazie Batista/COB - @grazie.batista / @timebrasil)

Medalha não pode vir a qualquer custo

Alguns questionamentos surgem com frequência quando se discute os limites da cobrança no esporte: estamos diante de uma geração mais frágil e sensível de atletas? Essa postura atrapalha os resultados esportivos? Para o COB, as políticas de proteção e acolhimento servem para diminuir os obstáculos no caminho até o pódio.

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— O principal objetivo do Comitê Olímpico são as medalhas. Só que se a gente não proteger essa jornada, a gente não vai ter a medalha. A gente perde um monte de gente pelo meio do caminho - pontua Sebastian.

Para Mariany, a pauta foi vivenciada na prática. Ex-atleta de tênis de mesa, ela disputou as Olimpíadas de Atenas 2004 e Pequim 2008, e recorda uma formação esportiva em que o medo de errar prevalecia à vontade de vencer. Na época, porém, a pressão era considerada apenas rotina.

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— Presenciei e sofri muita violência. No tênis de mesa, havia uma disciplina extremamente rígida. Eu tinha medo de errar a tática dada pelo técnico, como sacar curto ou comprido, e perder o jogo por conta da bronca ou castigo que receberia depois. Era um ambiente muito abusivo. Muitos ex-atletas dizem: 'Na minha época era assim e eu ganhei medalha'. Mas não precisa ser assim - recordou.

Neste cenário de reconstrução, a área de Esporte Seguro atua de forma preventiva e transversal. Isso vai desde canais de denúncia com acolhimento psicológico humanizado — sem aquelas perguntas violentas de responsabilização da vítima, como "com que roupa você estava?".

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Joanna Maranhão participa do III Fórum Esporte Seguro do COB
Joanna Maranhão participa do III Fórum Esporte Seguro do COB (Foto: Grazie Batista/COB - @grazie.batista / @timebrasil)

O III Fórum Esporte Seguro

Pelo terceiro ano consecutivo, o COB realizou o Fórum Esporte Seguro, na última quinta-feira (6). Com a presença de ex-atletas como Daiane dos Santos, Joanna Maranhão e Eduarda Amorim, com o tema "Esporte Seguro é para todos". O encontro reuniu atletas, gestores, treinadores, especialistas e profissionais da saúde para discutir estratégias de proteção do ambiente esportivo.

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