Análise tática do Guffo: como joga o Monaco de Filipe Luís
Em duas rodadas da Ligue 1, o time é líder isolado

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A demissão de Filipe Luís no Flamengo foi uma das decisões mais injustas que o futebol brasileiro viu nos últimos anos, e a França está dando a resposta que o técnico merecia. Apenas dois anos de carreira profissional, e mesmo assim, o Monaco o recebeu como quem recebe um nome de ponta. Em duas rodadas da Ligue 1, o time é líder isolado , com seis pontos, 100% de aproveitamento e dois "clean sheets". A sorte não explica isso. O que se vê em campo é um trabalho que já tem identidade, e a velocidade com que essa identidade apareceu impressiona até quem conhece o trabalho de Filipe Luís.
O mecanismo começa na saída de bola, com uma adaptação inteligente dos princípios do Flamengo à matéria-prima do Monaco. A base segue o 4-2-3-1, mas com a bola o desenho vira um 3-4-3: o Nazinho, único lateral esquerdo de ofício, fecha como terceiro zagueiro, o Dier fica central, o Sané abre pela direita e o Camará, o melhor jogador do time, segura a função de primeiro volante. O Coulibaly cai por dentro, o Zakaria sobe pelo outro lado e o Golovin assume a camisa 10. É o mesmo repertório de variações que fez o Flamengo competitivo em todas as frentes, agora montado sobre os perfis que ele encontrou, e não sobre um desenho pré-concebido.
O maestro russo do meio-campo
O Golovin é a tradução perfeita dessa leitura. Onde o Filipe tinha um Arrascaeta se transformando em segundo atacante, com vocação de conclusão, no Monaco ele encontrou um articulador que baixa, circula, atrai marcação e procura o lado oposto. O russo teve cinco gols e seis assistências em 30 jogos na temporada passada, números que não cegam ninguém, mas que revelam um jogador que organiza mais do que finaliza. O treinador não tentou dobrar o jogador, mas moldou o time ao redor da característica dele. Essa é a diferença entre copiar um sistema e construir um modelo de jogo.
A largura é a assinatura ofensiva. Os extremos trabalham colados na linha lateral com dois objetivos claros: esticar a linha adversária ou, quando ela balança para um lado, atacar o corredor oposto. O Vanderson, lateral-direito brasileiro, é a peça que amarra tudo. Com a bola, ele sobe como ponta e vira a referência de cruzamento pela direita. Sem ela, morde na marcação, o que rendeu três faltas inteligentes e cinco recuperações contra o Le Havre, algumas no campo de ataque. Um lateral que ultrapassa e pressiona assim vale por dois jogadores, e a Seleção deveria estar de olho nele.
A aposta que está virando certeza é Brunner. O centroavante lidera os duelos de um contra um do time, marcou os dois gols da vitória por 2 a 0 sobre o Olympique de Marseille na rodada passada e figura entre os artilheiros do futebol europeu neste começo de temporada. Na Conference League, o Monaco passou com 7 a 3 no agregado. O único porém é a enfermaria: Minamino e Salisu se recuperam de lesões no ligamento cruzado, Ansu Fati trata a panturrilha, e mesmo assim o time não sofreu um gol sequer na Ligue 1. Veja na arte abaixo o sistema de pressão na saída de bola do Monaco.

Um duelo que pode ser um marco na carreira
A sexta-feira no Parc des Princes será o teste que coloca o trabalho à prova. O PSG de Luis Enrique tem a maior posse média do campeonato, 71,1%, mas vive um início instável: dois pontos, 11ª colocação, e dois gols marcados apenas depois dos 70 minutos. O time ainda se encaixa, tem Nuno Mendes suspenso e espera o retorno de Dembélé. O confronto tem todos os ingredientes de uma noite que pode cravar o nome de Filipe Luís no mapa europeu.
O risco para o Monaco é se contaminar pela leitura da tabela e tentar impor posse contra o time mais possessivo da França. O caminho é o oposto: repetir a receita do jogo contra o Marseille, quando abriu mão do controle, mostrou solidez absoluta atrás e foi cirúrgico quando o espaço apareceu. O PSG vai ter a bola e é justamente isso que abre as brechas que Brunner e Coulibaly sabem atacar. Quem espera um Monaco encaixado no jogo de posse se engana. A arma dele é a transição, e este é o cenário ideal para isso.
A temporada ainda é um bebê recém-nascido, mas os sinais já estão postos. O Monaco vendeu peças, renovou o elenco com um grupo quase inteiro abaixo dos 23 anos e, mesmo assim, lidera a França com dois jogos. Um treinador com ideias claras, um centroavante em estado de graça, uma defesa organizada e um elenco jovem que tende a melhorar com os retornos. Se essa engrenagem continuar no mesmo ritmo, o Monaco deixa de ser promessa e vira o desenho do próximo clube dominante do futebol francês. O PSG tem dinheiro, estrelas e o título de campeão europeu. O Monaco tem processo, tempo e um comandante que sabe o que faz. E na França de hoje, a combinação certa entre esses três fatores pode vencer qualquer folha de pagamento bilionária.

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