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Análise tática do Guffo: a queda de Fernando Diniz no Corinthians

O clube demitiu o técnico no pior momento possível

PorGustavo Fogaça•
Colunista
Rio de Janeiro (RJ)•
10/10/2026 08:00

Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Fernando Diniz durante a partida entre Corinthians x Estudiantes
Técnico Fernando Diniz durante partida entre Corinthians x Estudiantes (Foto: Miguel Schincariol/AFP)

O Corinthians demitiu Fernando Diniz no pior momento possível, e a frase precisa ser dita sem rodeios: a decisão olhou apenas para o calendário. O time saiu do Beira-Rio derrotado pelo Internacional, mas com a assinatura mais nítida do treinador em toda a sua passagem pela Neo Química Arena. A diretoria preferiu o choque de gestão ao diagnóstico técnico, e quem acompanhou o jogo sabe que o placar mentiu para quem só lê o resultado.

Repare no que aconteceu no jogo da demissão, porque é aí que mora a contradição. O Corinthians teve 72% de posse de bola (foi a menor posse do Internacional em casa na história dos pontos corridos!), trocou 613 passes contra 245 do rival, finalizou 22 vezes, criou 2,18 de gols esperados (xG) e ainda acertou três bolas na trave. O mecanismo de Diniz funcionou: Garro se aproximou da base da jogada, Ranieri virava terceiro zagueiro pela esquerda, os laterais ganhavam liberdade e o time se apresentava em um 3-2-5. A ideia foi executada. O placar de 2 a 1 nasceu de um gol sofrido aos 40 segundos e de um erro individual do Garro na saída de bola, situações que escapam da prancheta de qualquer treinador.

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Os números contam outra história

Os números da passagem inteira, porém, contam outra história, e é essa a parte que pode sustentar a demissão. O Corinthians fechou com sete derrotas seguidas, o pior recorde do clube na história dos pontos corridos, com seis gols marcados e 14 sofridos na sequência. E o dado mais revelador é outro: este foi o Corinthians menos Diniz de todos os times de Fernando Diniz. O time que sempre liderou posse de bola está em sétimo neste quesito no Brasileirão, permitiu ao adversário a 14ª maior troca de passes do campeonato e registrou a primeira queda de posse de bola da carreira do treinador na comparação com o trabalho anterior. A identidade que ele construiu em Fluminense, São Paulo e Vasco não apareceu na Neo Química Arena.

Por que Diniz não deu certo? A resposta começa no elenco que ele herdou, um time refém de um trio que arrebentou na reta final de 2024 e nunca mais repetiu a dose. O Garro é um "One Season Wonder" desde o atropelamento na Argentina, o Memphis entrega impacto midiático e financeiro, mas oscila na confiança, e o Yuri Alberto vive de lesões recorrentes. O Corinthians foi montado há dois anos do mesmo jeito e continua do mesmo jeito, dependente de três jogadores que estão longe do nível que os consagrou. Pode vir Guardiola, Klopp ou Ancelotti que o time seguirá refém do mesmo sistema.

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O que o Corinthians apresentou foi o avesso do Diniz que o futebol brasileiro conhece. Os times dele costumam ir bem na construção e sofrer sem a bola; este Corinthians produziu pouco mas conseguiu ser muito eficiente defensivamente em um momento. Na sequência de sete derrotas, o time até aumentou a posse e a troca de passes, mas apelou para o cruzamento como válvula de desespero, com Gustavo Henrique virando centroavante e Pedro Raul entrando sem parar. O percentual de bolas longas caiu para 8%, e o ataque, que sempre foi a marca registrada, virou o elo mais fraco. A posse virou posse pela posse, sem profundidade, sem o último passe que quebra a linha.

O contexto explica o resto da história

O bastidor explica o resto. A diretoria deu voto de confiança a Diniz antes da Data Fifa, o elenco pediu a permanência do treinador, e bastou uma derrota no Beira-Rio para o Marcelo Paz mudar de ideia. Se a decisão fosse pelo resultado, ela estava 20 dias atrasada; se fosse pelo desempenho, ela não tinha motivo para existir. O Corinthians é o clube com a maior dívida ativa do Brasil, com a maior dívida de curto prazo, com risco de transfer ban e com uma bagunça política que envolve denúncias graves. O treinador virou o elo mais fraco de uma estrutura que não funciona, como geralmente acontece com clube grande em crise institucional.

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O cenário é de emergência real. O Corinthians tem 32 pontos e precisa de mais 13 para escapar, e a sequência de sete derrotas o colocou em uma lista de perigo iminente de rebaixamento. O elenco titular, para ser justo, é um bom grupo de jogadores, com Bidon, Matheusinho, Gabriel Paulista, Caio César. Mas o conjunto institucional é o pior entre os grandes. Grêmio, Inter e Corinthians brigam para fugir da degola, mas pelo menos um desses três gigantes deve cair. 

A demissão de Diniz foi um tiro no escuro, e o risco é o Corinthians descobrir isso tarde demais. O próximo técnico herda um time que jogou bem no jogo da demissão, mas quebrado na confiança e refém de uma gestão que decide por resultado e não por trabalho. Espere um Corinthians que vai brigar ponto a ponto até a última rodada, porque o calendário não perdoa e a estrutura não ajuda. Torcedor, prepare-se para o pior cenário: se a casa não for arrumada por dentro, nem o melhor treinador do mundo segura esse time na Série A.

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O técnico do Corinthians, Fernando Diniz, em jogo contra o Palmeiras, na Neo Química Arena
Fernando Diniz em jogo do Corinthians contra o Palmeiras, na Neo Química Arena (Foto: Rodrigo Coca Agência Corinthians

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