Brasil x Haiti: 'Todo militar que serviu lá vai se emocionar'
Capitão que esteve na Força de Paz fala da emoção de ver o jogo desta sexta (19)

Quando a bola rolar para Brasil e Haiti nesta Copa do Mundo, o duelo terá um significado muito maior do que os 90 minutos para centenas de militares brasileiros que passaram pela missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no país caribenho. Entre eles está o capitão de mar e guerra fuzileiro naval João Luiz Cantanhêde, que viveu de perto um dos períodos mais dramáticos da história haitiana e hoje se emociona ao ver a seleção do país alcançar um feito que durante muito tempo pareceu impossível: disputar uma Copa do Mundo.
Cantanhêde, oficial da Marinha do Brasil, desembarcou no Haiti em janeiro de 2010, poucos dias após o terremoto que devastou o país em 12 de janeiro daquele ano. O tremor atingiu magnitude 7,0 na Escala Richter, utilizada para medir a intensidade dos terremotos, e deixou centenas de milhares de mortos, além de destruir grande parte da infraestrutura haitiana.
A missão, que inicialmente seria realizada em um país que apresentava sinais de recuperação, ganhou contornos completamente diferentes.
— Antes de ir trabalhar, fomos fazer um reconhecimento. Éramos 14 oficiais. Vimos um Haiti funcionando, se recuperando. Aí veio o terremoto e acabou com tudo. Eu iria no dia 13 e só consegui embarcar no dia 20. O país fechou e mudou completamente — relembra.

O militar integrou a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), liderada pelo Brasil. Durante cerca de seis meses, acompanhou de perto o esforço internacional para reconstruir o país.
— O Haiti teve dois momentos para quem serviu lá: antes e depois do terremoto. Eu peguei justamente a fase da reconstrução. Mudava a tropa brasileira a cada seis meses, mas aquilo não era uma missão do Brasil. Era uma missão da ONU. Nós estávamos subordinados à ONU e fazíamos parte da força de paz —explica.
Mas nem só de segurança e reconstrução era feita a rotina dos militares. Em meio às dificuldades, surgiu uma ponte capaz de unir brasileiros e haitianos: o futebol.
Segundo Cantanhêde, as tropas brasileiras transformaram os finais de semana em oportunidades de convivência com a população local. Em diversas regiões foram criadas escolinhas improvisadas para crianças e adolescentes.
— Muitos militares montavam escolinhas aos sábados e domingos. Eu participei de três delas. A gente ensinava a garotada a jogar futebol. Não existiam muitas escolinhas e vários sargentos faziam esse trabalho — conta.
Para ele, a influência brasileira ajudou a fortalecer a cultura do futebol em um país historicamente mais ligado a outras modalidades esportivas.
— O Haiti é Brasil. O Haiti é aqui. O futebol haitiano foi muito incentivado pelos brasileiros. A relação do futebol com as tropas de paz é uma verdade que quem esteve lá conhece.
A ligação entre os dois países por meio da bola, porém, começou antes mesmo do terremoto. Em 18 de agosto de 2004, a Seleção Brasileira desembarcou em Porto Príncipe para disputar o histórico "Jogo da Paz". A partida foi realizada em um momento de grave crise política e social no Haiti, que vivia uma guerra civil após a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide.
O Brasil venceu a partida por 6 a 0, com três gols de Ronaldinho Gaúcho, dois de Roger Flores e um de Nilmar. Vale lembrar que a delegação desembarcou em Porto Príncipe com um forte esquema de segurança. Os jogadores desfilaram em carros blindados do Exército Brasileiro e foram ovacionados por uma multidão pelas ruas de Porto Príncipe.
O evento teve forte caráter humanitário. Como parte de uma campanha de desarmamento, ingressos foram distribuídos em troca da entrega voluntária de armas de fogo. A Seleção Brasileira levou esperança para uma população marcada pela violência e pela instabilidade.
— O pessoal se apegou muito àquele jogo. Ficou esse gostinho do futebol brasileiro. Depois disso, muita gente começou a trabalhar o futebol com as crianças — lembra Cantanhêde.
A Copa do Mundo de 2010 foi vivida pelo militar em território haitiano. Ele recorda que as ruas se enchiam de bandeiras brasileiras durante os jogos da equipe comandada por Dunga.
— Eu estava lá durante a Copa da África do Sul. Todo mundo torcia pelo Brasil. Era impressionante ver as bandeiras espalhadas.
Por isso, ver o Haiti disputar hoje uma Copa do Mundo tem um significado especial para quem participou daquela história.
— Todo militar que serviu no Haiti vai se emocionar vendo a seleção deles jogar com o Brasil numa Copa do Mundo. Todos que trabalharam lá ficaram emocionados quando veio a classificação. É um evento espetacular — revelou o militar.
A emoção é tão grande que Cantanhêde admite que a rivalidade fica em segundo plano.
— Os jogadores haitianos entram em campo como fãs. A torcida deles está comemorando jogar contra o Brasil. Se eu pudesse pedir alguma coisa para a Seleção, diria: faz só 1 a 0, não humilha os caras.
A frase é dita em tom de carinho, resultado de uma convivência construída ao longo de anos. Para ele, o sonho de muitos jovens haitianos continua sendo o mesmo desde os tempos da missão de paz.
— O sonho do garoto haitiano é morar no Brasil. Existe uma relação de amizade muito forte entre os dois países.
Mais de uma década depois da tragédia que abalou o Haiti, a presença da seleção caribenha na Copa representa muito mais do que uma conquista esportiva. Para militares brasileiros como João Luiz Cantanhêde, é a prova de que um país marcado por crises, terremotos e dificuldades conseguiu encontrar no futebol uma razão para sonhar novamente.

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