OPINIÃO: Ancelotti, por favor, deixe o 4-2-4 no passado
Italiano muda esquema em segundo jogo diante da Austrália, e Brasil sobe de produção

Carlo Ancelotti, por favor, deixe o 4-2-4 no passado. O Brasil já deu sinais suficientes de que não pode insistir em uma formação que expõe demais o meio-campo e exige um esforço dobrado de jogadores que, por característica, não deveriam passar boa parte do jogo correndo atrás dos adversários.
A vitória por 4 a 2 sobre a Austrália, nesta terça-feira, em Brisbane, não foi perfeita. Longe disso. O Brasil sofreu dois gols, passou por momentos de desorganização e ainda tem problemas importantes para resolver. Mas houve uma mudança que precisa ser observada com carinho pela comissão técnica: três jogadores no meio-campo fizeram a Seleção Brasileira parecer mais equilibrada, mais conectada e, principalmente, mais próxima de encontrar um caminho para este novo ciclo.
Depois do melancólico empate por 1 a 1 com a própria Austrália, em Townsville, Ancelotti mexeu na estrutura. Saiu o 4-2-4, que havia deixado Bruno Guimarães e Danilo Santos praticamente sozinhos para proteger o setor, e entrou o 4-3-3. Gabriel Bontempo foi colocado ao lado dos dois. Não foi uma simples troca de nomes. Foi uma mudança de ideia.
E o Brasil respondeu.
Bontempo mostrou personalidade. Danilo ganhou mais liberdade para participar da construção. Bruno, mesmo tendo mais funções de marcação, apareceu mais perto da área e teve participação decisiva. O meio deixou de ser um corredor aberto. A equipe passou a ter mais gente para circular a bola, pressionar, recuperar e, principalmente, fazer a transição entre defesa e ataque.
É exatamente esse o ponto.
O 4-2-4 pode até funcionar em determinados momentos de uma partida. Pode ser uma alternativa quando o time precisa buscar um resultado, quando o adversário está acuado ou quando existe uma necessidade clara de colocar mais jogadores perto da área. O problema é transformar essa exceção em regra.
Desde que assumiu a Seleção, em maio de 2025, Ancelotti procurou soluções, testou jogadores e, em alguns momentos, tentou encaixar quatro homens de frente em um time que ainda não tinha sustentação para isso. O treinador chegou a defender a possibilidade de atuar com quatro atacantes e falou sobre intensidade e equilíbrio. Na prática, porém, a formação mostrou diversas vezes que o segundo conceito não acompanhava o primeiro.
Contra a Austrália, no primeiro jogo desta Data Fifa, isso ficou escancarado. Estêvão, Raphinha, Endrick e Vini Jr ocupavam os espaços mais avançados, enquanto Bruno e Danilo ficavam responsáveis por uma área enorme do campo. O Lance! apontou justamente a dificuldade de conexão entre os dois setores, além dos problemas de transição e a falta de entrosamento entre meio-campo e ataque.
Não existe milagre tático.
Você pode colocar quatro jogadores talentosos no ataque, mas alguém precisa aproximá-los da bola. Alguém precisa proteger a defesa quando a posse é perdida. Alguém precisa ganhar a segunda bola. Alguém precisa fazer a cobertura quando o lateral sobe. E, quando esses trabalhos ficam concentrados em apenas dois jogadores, a conta chega.
Chegou contra a Austrália.
E não é preciso transformar a vitória de Brisbane em uma obra-prima para reconhecer que houve evolução. O Brasil teve melhores deslocamentos, encontrou mais combinações e conseguiu levar a bola ao ataque de maneira mais organizada. O time passou a parecer menos dividido em dois blocos e mais próximo de uma equipe de futebol.
Talvez seja esse o caminho.
Não significa que Danilo, Bruno e Bontempo sejam, necessariamente, o meio-campo definitivo da Seleção. Muito pelo contrário. O trabalho de Ancelotti é justamente encontrar as melhores peças. Andrey Santos, Douglas Luiz, Breno Bidon, Martinelli e outros jogadores ainda precisam ser observados. O próprio treinador já afirmou que a qualidade dos jogadores convocados permite trabalhar com dois ou três homens no setor.
Mas existe uma diferença entre testar uma formação e insistir em um problema.
O Brasil precisa encorpar o meio-campo.
As grandes seleções que entram em campo pensando em dominar jogos e disputar títulos normalmente precisam de um setor central capaz de controlar ritmo, espaço e transição. Não basta reunir atacantes talentosos. Futebol de alto nível cobra equilíbrio. E, quando o adversário consegue atravessar o meio-campo com facilidade, o talento ofensivo muitas vezes passa a trabalhar longe da área.
É por isso que o 4-2-4 precisa ser tratado como passado.
O Brasil tem jogadores para construir algo melhor. O que falta agora é encontrar os encaixes. É entender quem pode jogar ao lado de Bruno. Quem dá mais equilíbrio. Quem chega à área. Quem protege. Quem acelera. Quem pensa o jogo.
E, nesse processo, Vini Jr também precisa dar um passo à frente.
O atacante marcou de pênalti e participou mais do jogo no segundo tempo, quando conseguiu dar bons passes, encontrar companheiros e aparecer com maior frequência no ataque. Ainda assim, ficou novamente abaixo do que pode produzir. Vini não tem conseguido dar continuidade a muitas jogadas e ainda está distante daquele jogador protagonista que vimos em momentos importantes da Copa do Mundo.
É possível perceber a frustração do atacante. A temporada começou abaixo do que ele certamente esperava. Mas não há fórmula mágica para resolver isso. Vini tem qualidade de sobra para recuperar seu melhor futebol. Precisa reencontrar confiança, tomar melhores decisões e voltar a ser decisivo também nas jogadas que não terminam em gol.
A Seleção precisa dele.
Assim como precisa parar de cair em armadilhas que não dizem respeito ao futebol.
A cena envolvendo Endrick e a provocação dos australianos é mais um exemplo de algo que essa geração precisa deixar para trás. O Brasil não precisa entrar nesse jogo. Não precisa responder a cada provocação, discutir, simular ou tentar transformar uma partida em uma batalha que existe muito mais na cabeça dos jogadores do que dentro das quatro linhas.
Endrick não precisava se jogar no chão naquele episódio. A atitude incomoda porque o Brasil tem futebol suficiente para responder apenas jogando futebol.
Fique com a bola. Faça o adversário correr. Troque passes. Marque gols. Ganhe.
É muito mais brasileiro.
Também há problemas que continuam à espera de solução. O gol é um deles. Alisson deixou um espaço enorme, e a Seleção ainda não encontrou um substituto que transmita a mesma segurança. Hugo Souza recebeu críticas após o empate em Townsville, especialmente pela postura no gol de Irankunda. Otávio, por sua vez, teve sua primeira oportunidade e também apresentou insegurança em alguns momentos diante da Austrália.
Não é justo transformar um goleiro de 20 anos em culpado por uma atuação. Mas também não dá para fingir que a posição está resolvida. O Brasil precisa testar. Precisa observar Morisco. Precisa acompanhar Otávio. Precisa entender a evolução de Hugo. E precisa encontrar, o quanto antes, quem terá condições de vestir a camisa 1 quando começarem os jogos que realmente vão cobrar respostas.
O novo ciclo ainda está no começo. E justamente por isso a vitória em Brisbane pode ser mais importante pelo caminho do que pelo placar.
O Brasil ainda falha. Ainda oscila. Ainda precisa encontrar seu time, seu meio-campo e suas referências ofensivas. Mas, pela primeira vez depois de uma estreia frustrante, Ancelotti mostrou uma mudança que pode representar mais do que uma simples alteração de escalação.
Três homens no meio deram outra cara à Seleção.
Agora é encorpar. Testar. Encontrar os jogadores certos. Criar mecanismos. Dar segurança para quem defende e liberdade para quem ataca.
O Brasil pode, enfim, estar começando a encontrar o caminho.
E, nesse caminho, uma coisa precisa ficar definitivamente para trás: o 4-2-4. Por favor, Ancelotti. Não dá mais.

Tudo sobre

Seleção Brasileira
Ancelotti avalia estreia de Otávio pela Seleção: 'Mostra tranquilidade"
Há 5 minutos
Fora de Campo
Torcida do Cruzeiro reage à atuação de Otávio em Austrália x Brasil
Há 5 minutos
Seleção Brasileira
Ancelotti explica escolha por Vini Jr para cobrar pênalti: 'Merecia gol'
Há 6 minutos
Futebol Internacional
Além de Arrascaeta, veja outros jogadores lesionados na Data Fifa
Há 13 minutos
Seleção Brasileira
'Não tem vaidade': Vini Jr e Bruno Guimarães explicam indecisão na marca do pênalti
Há 20 minutos
Futebol Nacional
Otávio, do Cruzeiro, estreia pela Seleção; veja como foi
Há 23 minutosMais LANCE!

Entenda a comemoração de Raphinha em Austrália x Brasil

Europeus reagem a Endrick em Austrália x Brasil: 'Constrangedor'

Brasil melhora e vence bem a Austrália em segundo amistoso

Lesão de Raphinha durante jogo do Brasil preocupa torcedores do Barcelona

Seleção: Por que Raphinha foi substituído no intervalo por Ancelotti?

Austrália x Brasil: Gol de Raphinha pela Seleção reflete duas marcas importantes

Web aponta falhas de Rayan em Austrália x Brasil

Gabriel Bontempo chama atenção em gol do Brasil: 'Quem diria'

Web aponta novo titular após gol do Brasil: 'Tem que ser'

Quem é Vanderson, autor de golaço do Brasil contra a Austrália?

Veja gols em Austrália e Brasil pelo amistoso internacional

Ancelotti deposita fé em nova geração da Seleção Brasileira, mas pede paciência

Brasil muda bastante para encarar Austrália; veja escalação
