Memphis Depay e Corinthians: como o fim da renovação virou uma disputa jurídica
Atacante holandês pretende pedir R$ 180 milhões ao clube paulista

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O casamento entre Memphis Depay e Corinthians terminou depois de quase dois anos, três títulos e uma sequência de acontecimentos que, nos bastidores, transformaram uma renovação encaminhada para um "divórcio" litigioso em uma nova frente de crise financeira para o clube. O atacante holandês chegou ao fim de seu contrato em 31 de julho, mas o vínculo esportivo não foi o único assunto deixado sobre a mesa. Ficaram também uma dívida milionária, documentos trocados durante a negociação e uma discussão sobre até onde avançou o acordo para a extensão do contrato.
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A situação começou a ganhar forma ainda durante as conversas para a renovação. O Corinthians e o estafe de Memphis chegaram a trabalhar com a ideia de um novo vínculo de dois anos, até 31 de julho de 2028. O modelo representava uma mudança importante em relação ao contrato anterior, que vigorou de setembro de 2024 a julho de 2026.
O atacante aceitou reduzir sua remuneração, que era estimada em cerca de R$ 3,5 milhões mensais, para aproximadamente R$ 1,9 milhão. Também abriu mão da preferência inicial por um contrato de três temporadas e concordou em transformar a dívida de aproximadamente R$ 42 milhões em um compromisso parcelado ao longo do novo vínculo, sem a incidência de juros e multas.
A negociação avançou a ponto de Memphis retornar ao Brasil no dia 4 de agosto, depois das férias na Espanha, para cumprir uma etapa que normalmente antecede a assinatura de um novo vínculo. O jogador passou por exames e foi aprovado nas avaliações médicas.
As minutas do contrato haviam sido trocadas entre as partes, e o estafe do atacante aguardava a conclusão formal. O cenário mudou quando o presidente do Corinthians Osmar Stábile decidiu não assinar o novo contrato. A justificativa apresentada pela direção foi a necessidade de preservar a saúde financeira do Corinthians. O recuo ocorreu depois de pressão interna de conselheiros contrários à permanência do holandês, segundo as informações apresentadas no caso.
Para Memphis, a sequência dos acontecimentos produziu uma interpretação diferente. O atacante entende que a negociação havia ultrapassado a fase de uma simples conversa preliminar. A viagem ao Brasil, os exames médicos, as trocas de documentos e a preparação do novo vínculo são utilizados pelo estafe como elementos para sustentar que existia um compromisso entre as partes.
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A reação pública do jogador veio em tom incomum para alguém que havia acabado de encerrar uma passagem marcada por uma relação próxima com a torcida.
— Eu não queria essa situação e sempre respeitei o clube ao longo de todo o processo, mas agora sou forçado a reagir com firmeza para preservar meus interesses. Nos próximos dias, falarei publicamente, mas fiquem certos de que não deixarei esse comportamento inaceitável sem sanção — escreveu Memphis Depay.
A dívida do Corinthians com Memphis
O primeiro número da discussão é conhecido: aproximadamente R$ 42 milhões em valores que o Corinthians deve a Memphis. O débito está relacionado a bonificações e valores previstos no contrato anterior. Com juros e encargos, a própria conta do clube pode chegar a R$ 77 milhões.
A diferença agora está na maneira como esse valor será pago. Durante a negociação da renovação, Memphis havia aceitado diluir o débito no novo contrato. O rompimento fez desaparecer esse mecanismo. Sem a extensão do vínculo, o jogador pode exigir que os valores sejam tratados como uma obrigação independente.
É nesse ponto que aparece a possibilidade de uma cobrança ainda maior. O estafe do holandês avalia pedir aproximadamente US$ 20 milhões, valor próximo de R$ 103 milhões, sob a alegação de que houve um acordo para a renovação que acabou abandonado pelo clube depois de uma série de atos que indicavam a concretização do negócio.
Se essa tese prosperar integralmente, o passivo poderia chegar à casa dos R$ 180 milhões, somando a dívida anterior à indenização pretendida. Esse valor, porém, não representa uma dívida já reconhecida pelo Corinthians. Trata-se de uma projeção ligada à pretensão que Memphis e seus representantes podem levar às instâncias competentes.

O advogado Higor Maffei Bellini, especialista em Direito Desportivo, chama atenção justamente para esse ponto e para os diferentes caminhos que podem ser utilizados pelo jogador.
— Se ele recorrer à Fifa, o pagamento poderá ter de ser realizado à vista, pois o jogador não é obrigado a aceitar o parcelamento, o que pode até gerar uma nova proibição de registro de atletas, o chamado transfer ban. Se procurar a Justiça brasileira, lembrando que uma medida não necessariamente exclui a outra, poderá obter indenização pela maneira como a renovação foi conduzida e posteriormente abandonada pelo clube — analisou Higor Maffei Bellini.
O advogado também ressalta que o parcelamento não pode simplesmente ser imposto ao atleta.
— Também não custa lembrar que nenhum jogador, como qualquer outro empregado dos clubes ou de qualquer empresa, é obrigado a aceitar o parcelamento das verbas rescisórias — afirmou.
A possibilidade de uma ação na Justiça brasileira acrescenta outra camada ao problema.
— A situação pode gerar muita dor de cabeça e prejuízo financeiro para o clube, seja porque o jogador poderá recorrer ao Tribunal da Fifa para cobrar os valores que entende devidos, lembrando que há dívidas do clube com o atleta, já reconhecidas publicamente, seja porque poderá procurar a Justiça do Trabalho brasileira, hipótese em que o custo poderá ser ainda maior — disse o especialista.
Fifa, Justiça brasileira e o risco de um novo transfer ban
Memphis Depay é um jogador estrangeiro que atuou por um clube brasileiro, o que permite que determinadas controvérsias trabalhistas de dimensão internacional sejam levadas aos órgãos competentes da Fifa. Isso não significa, porém, que uma cobrança protocolada pelo jogador resulte imediatamente em punição esportiva ao Corinthians.
Na avaliação de Maffei Bellini, o próprio comportamento do clube durante a negociação poderá ser analisado.
— O clube paulista, aparentemente, não tinha a intenção firme e concreta de permanecer com o jogador e, ainda assim, manteve as negociações — afirmou.
Esse será provavelmente um dos pontos mais delicados caso a discussão avance para uma disputa formal: determinar se houve apenas uma negociação interrompida antes da assinatura ou se os atos praticados pelas partes foram suficientes para criar uma obrigação juridicamente exigível.
O caminho até um eventual transfer ban exige etapas. Primeiro, é necessário que a obrigação seja reconhecida em uma decisão competente. Depois, caso o Corinthians não cumpra a determinação dentro do prazo estabelecido, podem surgir sanções previstas nos regulamentos da entidade, entre elas a proibição de registrar novos jogadores.
Por isso, uma eventual nova punição teria efeito esportivo e financeiro. O clube poderia ser obrigado a encontrar uma solução para a dívida em prazo determinado antes de voltar a registrar atletas, justamente em um momento no qual sua situação financeira foi utilizada como justificativa para interromper a renovação do principal jogador do elenco.
A avaliação de Higor Maffei Bellini é que os dois caminhos, Fifa e Justiça do Trabalho, não precisam necessariamente ser tratados como escolhas excludentes. As competências e os pedidos, contudo, dependerão da natureza de cada pretensão apresentada pelo jogador.
O primeiro movimento, portanto, tende a ser a tentativa de negociação entre o Corinthians e o estafe de Memphis. O clube ainda pode buscar um acordo para parcelar a dívida de R$ 77 milhões, enquanto o jogador terá de decidir se aceita uma composição ou se leva a cobrança às instâncias judiciais e esportivas.
A diferença entre os lados está justamente na existência ou não de um compromisso válido sobre a renovação. Para o Corinthians, o contrato novo não foi assinado pelo presidente e, portanto, não se transformou em vínculo definitivo. Para Memphis, a sequência de atos praticados durante a negociação pode ser utilizada para demonstrar que havia mais do que uma mera expectativa.
É uma discussão que terá de passar pelos documentos, pelas mensagens, pelos e-mails e pelas minutas trocadas entre as partes. Esses registros podem se tornar peças centrais para determinar o estágio em que a negociação realmente estava quando o clube decidiu recuar.
O histórico esportivo de Memphis ajuda a dimensionar o tamanho da ruptura. Em 79 partidas pelo Corinthians, o holandês marcou 20 gols e conquistou três títulos: o Campeonato Paulista, a Copa do Brasil e a Supercopa do Brasil. A passagem iniciada em setembro de 2024 terminou oficialmente em 31 de julho de 2026.
O desfecho, entretanto, não encerrou a relação financeira. O contrato acabou, mas a conta permaneceu.
E é justamente essa conta que agora pode definir o tamanho do problema. Se houver acordo, a crise será resolvida em uma negociação privada, provavelmente com a discussão sobre prazo e condições de pagamento. Se Memphis decidir avançar na Fifa, o Corinthians terá de responder a uma cobrança que pode exigir pagamento em condições mais rígidas. Se a disputa também chegar à Justiça brasileira, a discussão poderá ganhar uma dimensão ainda maior, especialmente se o jogador conseguir sustentar que a forma como a renovação foi conduzida gerou uma obrigação indenizatória.
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