Em 'terra inimiga', Corinthians mergulha na rivalidade de Rosário
Timão realizou o último treino antes do duelo com o Rosario Central no CT do Newell's Old Boys

"En un clásico, no hay medias tintas." A definição dada por um morador de Rosário resume a dimensão da rivalidade entre Rosario Central e Newell's Old Boys, dois clubes que dividem não apenas a história, mas também as ruas e a paixão pelo futebol na cidade argentina.
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Após o sorteio da Conmebol, o Corinthians foi colocado no caminho do Rosario Central nas oitavas de final da Libertadores. Fundado em 1889, o clube é um dos mais tradicionais do futebol argentino e terá o Timão como adversário na noite desta quinta-feira (13), no Gigante de Arroyito.
Antes do confronto, porém, o Corinthians viveu uma situação curiosa. Na tarde desta quarta-feira (12), a equipe realizou sua última atividade antes da partida no Centro de Treinamento Jorge B. Griffa, no complexo de Bella Vista, em Rosário. O local é a casa do Newell's Old Boys, justamente o maior rival do Rosario Central.
A rivalidade entre os dois clubes atravessa gerações. O Rosario Central foi fundado em 24 de dezembro de 1889, enquanto o Newell's Old Boys nasceu em 3 de novembro de 1903. Os clubes construíram ao longo das décadas uma das rivalidades mais intensas do futebol argentino.
Uma cidade dividida
Em Rosário, a disputa entre os dois clubes vai muito além dos 90 minutos. A rivalidade também está presente nas ruas. É comum encontrar postes, muros e calçadas pintados nas cores dos dois times.
O vermelho e preto identifica os bairros e espaços ligados ao Newell's, enquanto o azul e amarelo marca a presença do Rosario Central. Durante o deslocamento pela cidade, a reportagem do Lance! ouviu um motorista de aplicativo, torcedor do Newell's, que explicou na frase citada no começo do texto, como a rivalidade está incorporada ao cotidiano dos moradores.
— Em um clássico, não há meio-termo.

A intensidade dessa disputa também é destacada pelo jornalista Néstor Manta, da Cadena 3 Rosario, veículo de imprensa na Argentina. Para ele, o fato de Rosário ter apenas dois clubes com protagonismo na elite argentina contribui para aumentar a dimensão do clássico.
— A rivalidade entre Rosario e Newell's Old Boys, obviamente, é de muitos anos, desde a fundação de cada uma das equipes. São clubes bastante contemporâneos; há pouca diferença entre os nascimentos de um e do outro. E a diferença que talvez exista em relação a outras equipes é que, na cidade, são apenas os dois clubes, Newell's e Rosario — explicou ao Lance!.
— E existe essa rivalidade, que se vê mais refletida na torcida, nas provocações e nas brincadeiras. Mas, como eu digo... em algum momento, há questões que têm a ver com isso, com o efeito da violência, que obviamente nunca se quer, mas isso está acontecendo. É como Corinthians e Palmeiras, uma coisa assim. É uma rivalidade que deveria ficar no campo. Um ganha, o outro perde; um festeja, o outro fica triste. Mas não deveria passar disso — completou.

Como surgiu a rivalidade?
A origem de uma das principais provocações entre os clubes remonta a 1920. Naquele ano, uma comissão do Hospital Carrasco, em Rosário, convidou Newell's Old Boys e Rosario Central para disputar um amistoso cuja renda seria destinada ao combate à hanseníase, doença que na época era conhecida como "lepra".
O Newell's aceitou o convite, mas o Rosario Central recusou. A decisão provocou a reação dos torcedores do Newell's, que passaram a chamar o rival de "canallas", termo que pode ser traduzido como "canalhas". A resposta veio rapidamente: os torcedores do Newell's passaram a ser chamados de "leprosos".
Os apelidos permanecem até hoje. O Rosario Central é conhecido como "Canalla", enquanto o Newell's carrega a alcunha de "Leproso".
Provocações que atravessam gerações
A história do clássico é recheada de episódios utilizados pelos torcedores para provocar o rival. Um dos mais marcantes aconteceu em 1974, quando o Newell's conquistou seu primeiro Campeonato Argentino justamente diante do Rosario Central.
O empate por 2 a 2 no Gigante de Arroyito garantiu o título ao Newell's e transformou aquela partida em um dos capítulos mais lembrados da história do futebol de Rosário.
Outro episódio celebrado pelos torcedores do Newell's aconteceu em 8 de março de 1992. Na ocasião, o clube venceu o Rosario Central por 1 a 0 atuando com uma equipe formada majoritariamente por reservas. A vitória deu origem à provocação conhecida como "Día del Padre", em referência ao rival.
E algumas dessas histórias ainda estão presentes no local onde o Corinthians treinou nesta quarta-feira (12). Logo na entrada do Centro de Entrenamiento Jorge B. Griffa, torcedores do Newell's colaram adesivos com referências a vitórias e provocações direcionadas ao Rosario Central.

Equilíbrio dentro de campo
Apesar de não estarem entre os clubes argentinos com maior número de títulos nacionais, Rosario Central e Newell's construíram um clássico reconhecido pela dimensão e pela intensidade da rivalidade.
O Rosario Central soma cinco títulos nacionais da primeira divisão, sete copas nacionais e uma conquista internacional, a Copa Conmebol de 1995. O Newell's, por sua vez, possui seis títulos do Campeonato Argentino e três copas nacionais.
No confronto direto, o equilíbrio também é significativo. Em 99 clássicos, o Newell's venceu 21 vezes, houve 42 empates e o Rosario Central ganhou 36 partidas. O Rosario marcou 103 gols, contra 74 do rival.
É justamente esse cenário que faz o clássico rosarino ser tratado como algo maior do que uma simples disputa esportiva. Em uma cidade dividida entre azul e amarelo e vermelho e preto, cada vitória sobre o rival é transformada em memória, provocação e orgulho.
Nesta quinta-feira (13), porém, a rivalidade será apenas pano de fundo para o Corinthians. O Timão entra em campo diante do Rosario Central pelas oitavas de final da Libertadores, enquanto uma parcela significativa da cidade estará torcendo contra o adversário brasileiro.
Se o Corinthians terá ao seu lado os milhões de torcedores que acompanham o clube no Brasil, em Rosário também encontrará um aliado improvável. Do outro lado da cidade, entre as cores vermelha e preta do Newell's, haverá quem torça pelo Timão pelo simples prazer de ver o maior rival sofrer.
Antes de se despedir, o motorista de aplicativo resumiu a lógica que move a rivalidade em Rosário: quando o Rosario Central está de um lado, o Newell's está do outro, mesmo que, desta vez, isso signifique apoiar um clube brasileiro.
"Vamos a eliminar a los canallas!"
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