Dos clubes à Seleção: os impactos da redução do limite de estrangeiros no Brasileirão
A partir de 2030, o limite de relacionados de fora do país será de cinco jogadores

Os clubes das Séries A e B do Brasileirão aprovaram a proposta da CBF para reduzir o limite de estrangeiros de forma gradual, ano após ano, até o máximo de jogadores de fora do país relacionados por jogo cair de nove para cinco atletas, em 2030. A mudança busca fortalecer a formação de jovens brasileiros, mas causou controvérsia: em enquete promovida pelo Lance!, por exemplo, 62% dos torcedores se mostraram contrários.
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Impacto no Brasileirão dos estrangeiros
Na defesa da sua proposta, a CBF alegou que o impacto no planejamento dos clubes não será tão grande. Segundo estudo conduzido pela entidade, em média, os times da Série A do Brasileirão relacionam 5,4 estrangeiros por partida e utilizam apenas 4,3 deles. Além disso, em apenas 29 de 430 partidas (6%), uma equipe alcançou o limite de nove atletas de fora do Brasil.
No entanto, cinco agremiações já não conseguem relacionar todas as suas opções de gringos na regra em vigor. São elas: Athletico-PR (11), Vasco (11), Flamengo (10), Grêmio (10) e Internacional (10). No ano que vem, com a primeira redução no limite de nove para oito vagas, talvez esses times precisem promover ajustes no elenco.
Muitas equipes optam por plantéis com mais atletas do que é permitido devido ao calendário extenuante e à consequente necessidade de alternância de peças. Talvez, então, a nova medida não mude o número de titulares de fora do país em cada clube, mas sim os possíveis substitutos, que muitas vezes também não são brasileiros. O líder Flamengo, por exemplo, tem Gonzalo Plata (Equador) e Jorge Carrascal (Colômbia) como concorrentes diretos à ponta direita.
A mudança de regra representa um movimento contrário dos clubes em relação ao que eles próprios defendiam. Até 2012, o limite de gringos em partidas do Brasileirão era de três jogadores. A pedido dos times, tal número aumentou para cinco, posteriormente sete e, em 2024, nove atletas.

Consequências no mercado
Os times brasileiros sentiram necessidade de aumentar o teto de jogadores estrangeiros devido ao cenário do mercado. Muito mais endinheirados do que os rivais sul-americanos, os clubes conseguem tirar talentos dos países vizinhos sem dificuldades. Um bom exemplo é o atual artilheiro do Brasileirão: o colombiano Kevin Viveros, do Athletico-PR, comprado do Atlético Nacional por US$ 5 milhões (cerca de R$ 27,5 milhões na cotação da época) no ano passado, quando o Furacão ainda disputava a Série B.
Dessa forma, os brasileiros se reforçam ao mesmo tempo em que enfraquecem os concorrentes aos títulos da Libertadores e da Copa Sul-Americana. O resultado é evidente: já são sete títulos verde-amarelos consecutivos na principal competição continental e, na atual edição, três dos quatro semifinalistas são do Brasil (Flamengo, Fluminense e Palmeiras).
Com o novo teto, tais movimentos na janela terão que ser calculados, mas não acabarão. Para o agente de atletas Guilherme Momensohn, as apostas dos brasileiros precisarão ser mais certeiras, favorecendo quem fizer o melhor trabalho de scout.
— Eu não acho que a diferença financeira e técnica dos brasileiros para os rivais irá mudar. O que mudará é a qualidade dos gringos contratados. Hoje temos muitos gringos nota 5 pelo Brasil. Com a nova regra, muito provavelmente ficarão os que realmente têm qualidade, como Jhon Arias ou Álvaro Montoro — analisou.
Por outro lado, o empresário entende que dois impactos gradualmente acontecerão: mais negociações entre clubes da Série A e mais atenção dos times das primeiras divisões aos jogadores de divisões inferiores.
O aquecimento do mercado interno tem aspectos positivos. Os gigantes podem ajudar a fortalecer os pequenos. Se vários times endinheirados disputam um jogador, o time menor pode exigir valores maiores e posteriormente investir tal montante na melhoria da própria estrutura de formação de atletas.
Mas quem sai na frente neste cenário também são os times mais ricos e organizados, como Flamengo e Palmeiras, e será mais comum que as potências tentem tirar jogadores de seus rivais nacionais. A consequência disso é a valorização das negociações internas, como acontece em ligas como a Premier League.
Na Inglaterra, as inflacionadas transferências entre clubes ingleses ajudam a aumentar o poder aquisitivo de cada instituição em outros mercados. Na última janela de transferências, por exemplo, as três transferências mais caras do mundo foram entre britânicos: Enzo Fernández, do Chelsea para o Manchester City; Morgan Rogers, do Aston Villa para o Chelsea; e Elliot Anderson, do Nottingham Forest para o Manchester City.

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E a formação de jogadores?
O motivo para os clubes brasileiros voltarem atrás sobre o aumento de estrangeiros foi a preocupação com o desenvolvimento de jovens, alertada por diretores de base. Em seu estudo, a CBF viu que os minutos concedidos a jogadores sub-23 caíram 40% desde a flexibilização da permissão de atletas de fora do país.
Justamente por isso, a entidade também estipulou um mínimo de inscritos com menos de 23 anos, cujo aumento igualmente será gradual até o cenário ideal em 2030: 25 das 50 peças registradas.
Um levantamento conduzido pelo Lance! em maio deste ano mostrou que, até então, apenas dois clubes da Série A do Brasileirão reservavam mais minutos para atletas formados internamente do que estrangeiros: Cruzeiro e Santos. Em média, as 20 equipes da elite davam mais que o dobro de tempo em campo para jogadores de fora do país do que para aqueles revelados por suas bases.
Os números comprovam que os jovens perderam espaço após a "invasão estrangeira" dos últimos anos, mas levantam diferentes perspectivas.
Na época de condução do estudo, o coordenador da base do Palmeiras, João Paulo Sampaio, se mostrou bastante pessimista com o cenário e fez um apelo por mudanças no futebol nacional.
— Estamos falando do país que mais exporta jogadores no mundo. Temos que ter critérios, pois estamos trazendo atletas que jogam em algumas equipes sul-americanas de menor expressão nas quais, se os nossos estivessem, também estariam jogando. Depois acabamos vendo que tínhamos alguém igual na base, com menor custo e salário, que poderia ter jogado. Nós pioramos nossa transição e facilitamos a vinda de estrangeiros, às vezes só porque fizeram um bom jogo contra brasileiros — refletiu ao Lance!.
Já o português Alfredo Almeida, que dirige a base do Flamengo desde o início do ano passado, não pensava dessa forma. Vale ressaltar que o Rubro-Negro foi contrário à nova medida da CBF.
— Não vejo a contratação de jogadores estrangeiros para o Campeonato Brasileiro como algo que prejudique a base, nem o desenvolvimento de atletas da base no Brasil, porque todas as ligas no mundo têm jogadores estrangeiros. Não existe liga que conte 100% com jogadores nacionais. O caminho que precisa ser traçado é contratar fora do país aquilo que não temos internamente. Quando se contrata no exterior aquilo que não se tem internamente, na minha opinião, aumenta-se o grau de exigência de quem trabalha internamente na base — afirmou ao Lance!.
O consenso é que a evolução dos trabalhos de base é fundamental. O freio na cota de estrangeiros no Brasileirão pode motivar a maior utilização de jovens atletas, mas não será suficiente para uma mudança significativa se não for acompanhado de outras transformações, que passam por identificar as carências que atingem desde os campeonatos nacionais até a Seleção Brasileira.
Outra preocupação é o tempo de permanência dos maiores talentos brasileiros no campeonato nacional. Potenciais craques como Endrick, Estêvão, Vini Jr e Rodrygo deixaram o Brasil aos 18 anos para jogar na Europa. Mesmo mais ricos, os clubes brasileiros não têm condições de segurar suas joias diante do interesse de gigantes como o Real Madrid. E é neste contexto, muitas vezes, que os times vão atrás de reposições internacionais.

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Brasileirão na contramão das grandes ligas?
O novo regulamento do Campeonato Brasileiro será mais radical do que o das principais ligas europeias. Por mais que alguns países do Velho Continente até adotem limites de jogadores estrangeiros, a contabilização é apenas de atletas de fora da União Europeia. Ou seja, seria como se o Brasil não contasse os demais atletas sul-americanos na cota de cinco inscritos do exterior.
Por outro lado, os europeus também criam regras que incentivam oportunidades aos jovens jogadores formados internamente.
Regras nas cinco principais ligas europeias:
- Premier League (Inglaterra): Não existe limite de estrangeiros, mas 17 dos 25 atletas inscritos devem ser formados localmente.
- Serie A (Itália): Só podem ser contratados dois jogadores de fora da União Europeia por temporada. Além disso, quatro dos 25 atletas inscritos devem ser formados no próprio clube e outros quatro devem ser formados na Itália, independentemente da nacionalidade.
- Ligue 1 (França): Os clubes podem ter até quatro jogadores de fora da União Europeia no elenco.
- Bundesliga (Alemanha): Não existe limite de estrangeiros, mas os clubes devem relacionar 12 jogadores com cidadania alemã por partida, além de inscrever oito atletas formados localmente, dos quais pelo menos quatro revelados no próprio time.
- La Liga (Espanha): Os clubes podem ter até três jogadores de fora da União Europeia no elenco.
Os times europeus são globalizados. O Liverpool, por exemplo, tem 79,4% do elenco formado por jogadores de fora da Inglaterra. Já o Real Madrid tem 74,1% do plantel composto por atletas não-espanhóis. A redução do número de gringos nas equipes brasileiras, que vai na contramão do que acontece no Velho Continente, pode aumentar o desafio em competições como o Mundial de Clubes.
Isso não significa que a preocupação que levou à mudança de regulamento no Brasil não exista no resto do mundo. A proliferação de jogadores estrangeiros em todas as ligas gera um receio na Fifa de que os gigantes tenham menos cuidado com suas bases. Por isso, em abril deste ano, o Conselho da entidade discutiu uma proposta que obrigaria os clubes profissionais a ter um jogador formado internamente em campo em todas as suas partidas.

Crise na Seleção motiva mudanças
O futebol de seleções mostra que não há uma relação direta entre o sucesso do país e a quantidade de jogadores nacionais dentro das ligas. Em 2018, a França foi campeã mundial com apenas oito atletas que disputavam a Ligue 1. Quatro anos depois, a Argentina venceu a Copa com apenas um representante do seu campeonato, muito graças ao sucesso de Lionel Messi, um talento extraclasse lapidado na Espanha.
A última vencedora, porém, foi no caminho contrário. A seleção espanhola triunfou com 17 peças em ação na La Liga. O sucesso também é muito explicado pelo trabalho de base fenomenal do Barcelona, que revelou sete dos campeões mundiais, entre os quais Pau Cubarsí e Lamine Yamal.
Ainda que o excesso de estrangeiros não seja uma preocupação por si só para alguns países europeus, todos procuram incentivar a participação de atletas formados na liga dentro dos elencos, especialmente no momento de transição para o futebol profissional.
As tentativas de mudanças promovidas pela CBF são muito motivadas pelo jejum de 22 anos de títulos mundiais da Seleção Brasileira. Na Itália, onde a atual situação da equipe nacional é ainda mais delicada, a "invasão" estrangeira também é motivo de debates constantes sobre a crise na formação de talentos.
Na última conquista mundial, em 2002, a Canarinho tinha 13 jogadores do Brasileirão, mais da metade dos convocados. Hoje em dia, isso é quase impensável. Mas a mudança no perfil das listas brasileiras não tem relação com o aumento de estrangeiros no campeonato, e sim com a ampliação da distância financeira para os europeus, que diminui a retenção dos melhores valores produzidos. As contratações de atletas de outras ligas sul-americanas, na verdade, são sintoma: com os vizinhos, o Brasil consegue se posicionar de forma inversa no mercado.
A visão pessimista da nova regra é de que os times brasileiros perderão qualidade sem a possibilidade de buscar tantos talentos fora do país. Já a perspectiva otimista é de que a mudança fará com que os times olhem com mais carinho (e dinheiro) para a formação de atletas, com reflexos positivos para a Seleção Brasileira. A aposta está lançada; agora resta esperar.

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