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Invasão estrangeira tira espaço de talentos da base no Brasileirão

Com mais sul-americanos no elenco, clubes usam menos jovens formados em casa

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Pedro Werneck
Rio de Janeiro (RJ)
Dia 08/05/2026
06:00
Castillo, argentino, e John Kennedy, formado em Xerém, disputam posição no ataque do Fluminense (Foto: Mauricio De Souza / AGIF / Folhapress)
imagem cameraCastillo, argentino, e John Kennedy, formado em Xerém, disputam posição no ataque do Fluminense (Foto: Mauricio De Souza / AGIF / Folhapress)

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O número de estrangeiros no futebol brasileiro aumentou drasticamente nos últimos anos, tanto é que o limite de relacionados por jogo no Brasileirão passou para nove. Assim, o espaço nos elencos para jovens promovidos das categorias de base diminuiu. Segundo levantamento do Lance!, apenas dois dos 20 clubes da Série A reservaram mais minutos para atletas formados internamente do que nascidos fora do país: Cruzeiro e Santos. Se considerados apenas jogadores sub-23, excluindo nomes como Fabrício Bruno e Neymar, nenhum clube fez isso.

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Em média, as 20 equipes da elite dão mais que o dobro de minutos em campo para jogadores estrangeiros do que formados em suas bases. Esse movimento também representa a qualificação dos campeonatos nacionais, impulsionada pelo aumento da diferença de poderio financeiro para as outras ligas sul-americanas.

— A pressão e a necessidade de resultados geralmente levam os clubes a buscar jogadores que possam trazer resultados imediatos. Sendo assim, em vez de dar oportunidade a jogadores jovens, os clubes buscam atletas mais "prontos". Como os valores para contratar jogadores do mercado interno são mais altos, seja nas transferências ou nos salários, os clubes buscam os estrangeiros — explicou ao Lance! o empresário Guilherme Momensohn.

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O zagueiro Arthur Dias (à direita), de 19 anos: revelação da base do Athletico-PR (Foto: Ascom / Dourado)
O zagueiro Arthur Dias (à direita), de 19 anos: revelação da base do Athletico-PR (Foto: Ascom / Dourado)

Athletico-PR é quem mais utiliza a base

O Athletico-PR é o clube mais generoso com as revelações da base: 35,46% da minutagem total do time neste Brasileirão foi jogada com atletas formados no clube. Já o que mais usou estrangeiros foi o Inter: 49,69%. Confira os dados:

Times que mais (e menos) utilizam estrangeiros e atletas formados em sua base no Brasileirão 2026:
*Levantamento apenas com jogos realizados até 30/04/2026
** Cálculo: porcentagem do total de minutos dos jogadores do clube
*** Formados = fizeram base nos clubes em que atuam, independentemente da idade atual

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Gráfico mostra utilização de estrangeiros e atletas da base dos clubes no Brasileirão (Imagem por IA)
Gráfico mostra utilização de estrangeiros e atletas da base dos clubes no Brasileirão (Imagem por IA)

Dirigentes da base veem salto de qualidade, mas fazem alerta

Nesse contexto de crescente importação de jogadores na Série A, os times viram necessidade de mudança na regra. O limite era de três estrangeiros relacionados por jogo em competições nacionais até 2013, quando a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ampliou para cinco. Em 2023, os clubes da Série A aprovaram em conselho técnico a elevação para sete. Em 2024, foi instaurado o número máximo atual: nove jogadores. Hoje, porém, alguns diretores de base de grandes clubes se preocupam com o impacto disso na formação de jovens brasileiros e buscam soluções ao lado da entidade máxima do futebol no país.

João Paulo Sampaio, coordenador de base do Palmeiras, mostra pessimismo com o cenário atual e faz um apelo por mais oportunidades aos jovens brasileiros.

— Sim, com certeza atrapalha, pois estamos falando do país que mais exporta jogadores no mundo. Temos que ter critérios, pois estamos trazendo atletas que jogam em algumas equipes sul-americanas de menor expressão nas quais, se os nossos estivessem, também estariam jogando. Então, depois acabamos vendo que tínhamos alguém igual na base, com menor custo, salário, luvas… Pioramos nossa transição, facilitamos a vinda de estrangeiros às vezes só porque fizeram um bom jogo contra brasileiros — refletiu, em entrevista ao Lance!.

Mas o debate ainda divide opiniões. O português Alfredo Almeida, que dirige a base do Flamengo desde o início do ano passado, não pensa dessa forma. Segundo ele, a chegada de estrangeiros contribui indiretamente para o desenvolvimento dos jovens atletas brasileiros.

— Não vejo a contratação de jogadores estrangeiros para o Campeonato Brasileiro como algo que prejudique a base, nem o desenvolvimento de atletas da base no Brasil, porque todas as ligas no mundo têm jogadores estrangeiros. Não existe liga que conte 100% com jogadores nacionais. O caminho que precisa ser traçado é contratar fora do país aquilo que não temos internamente. Quando se contrata no exterior aquilo que não se tem internamente, na minha opinião, aumenta o grau de exigência de quem trabalha internamente na base — afirmou ao Lance!.

Além disso, o dirigente rubro-negro acredita que o debate serve como reflexão para o futuro dos trabalhos de base no futebol brasileiro.

— Se contratamos um estrangeiro para o Brasileirão é porque provavelmente tem características que não foram possíveis encontrar no mercado brasileiro. Então, quem trabalha na base tem de fazer uma reflexão de por que contrataram aquele jogador, já que não foi possível encontrar aqui o brasileiro que atendesse a essa necessidade. Temos que potencializar e desenvolver os atletas da base para que cada vez menos se contrate estrangeiros, produzindo internamente as necessidades do futebol profissional. Não vejo como um ponto negativo, e sim como um ponto de reflexão e exigência para quem trabalha internamente no futebol de base — concluiu.

Por um lado, as oportunidades para jogadores da base nos times profissionais diminuíram. Por outro, com elencos mais fortes, a expectativa de que atletas em formação resolvam os problemas dos grandes clubes também. Com isso, a transição pode ser feita de maneira mais suave. Para Henrique Teixeira, técnico da equipe sub-20 do Atlético-MG, o saldo também é positivo.

— Existem dois lados em relação aos estrangeiros em qualquer liga. Eles ocupam algumas vagas, o que obviamente diminui as oportunidades para outros jogadores, mas a chegada de estrangeiros também simboliza maior competitividade e acrescenta qualidade às equipes. Nesse sentido, contribuem para o desenvolvimento dos jogadores jovens, exigindo maior competitividade e desenvolvimento. Quando um jogador sobe da base para o profissional para treinar, por exemplo, ele irá jogar com grandes jogadores, que disputaram Copa do Mundo, com experiência, e isso com certeza vai fazer ele aprender ainda mais, ajudando na sua formação — opinou ao Lance!.

Kaiki Bruno em ação pelo Cruzeiro contra o Corinthians, pela Copa do Brasil
O lateral-esquerdo Kaiki Bruno em ação pelo Cruzeiro na Copa do Brasil (Foto: Gustavo Aleixo / Cruzeiro)

Kaiki Bruno é jovem da base com maior minutagem

Os casos de jogadores da base que assumem protagonismo em gigantes da Série A são mais raros do que há poucos anos, mas não inexistentes. Exemplos são os jovens Breno Bidon (Corinthians) e Kaiki Bruno (Cruzeiro) ou Evertton Araújo (Flamengo) e Allan (Palmeiras), que acharam espaço mesmo nos elencos mais caros do futebol nacional.

Jogadores sub-23 com maior minutagem no Brasileirão pelos clubes em que fizeram base:
*Levantamento apenas com jogos realizados até 30/04/2026

JogadorClubeMinutos em campo*Idade

Kaiki Bruno

Cruzeiro

1.073

23 anos

Lucas Ronier

Coritiba

1.066

21 anos

Arthur Dias

Athletico-PR

1.051

19 anos

Allan

Palmeiras

975

22 anos

Viery

Grêmio

809

21 anos

Cauan Barros

Vasco

774

21 anos

Breno Bidon

Corinthians

723

21 anos

John Kennedy

Fluminense

704

23 anos

André

Corinthians

660

19 anos

Gabriel Bontempo

Santos

656

21 anos

A invasão estrangeira não é exclusiva do futebol brasileiro, pelo contrário. As ligas mais fortes e ricas do mundo buscam talentos em outros campeonatos. O temor de que isso gere um cuidado menor dos gigantes com as suas bases é tanto que, segundo o "The Athletic", o Conselho da Fifa discutiu, no último dia 28 de abril, uma proposta que prevê a obrigatoriedade de clubes profissionais manterem ao menos um jogador formado nas categorias de base em campo durante as partidas.

Luiz Carlos Azevedo, gerente do futebol de base do Atlético-MG, reconhece o desafio de equilibrar essas duas forças: pressão por resultado e aproveitamento dos jovens.

— Acredito que um dos maiores desafios na formação de qualquer atleta é a transição para o futebol profissional. Naturalmente, quanto maior for a concorrência, somado ao alto nível técnico dos nossos campeonatos, mais difícil será a transição de atletas jovens. Cada clube deve ter o seu processo estabelecido de integração da base com o profissional, mas acredito, sim, ser possível ter uma equipe forte e competitiva e, ao mesmo tempo, oportunizar a base — disse ao Lance!.

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Estrangeiros chegam, brasileiros saem?

O mercado do futebol se movimenta em cadeia. E o crescimento dos clubes brasileiros ainda passa pela formação de ótimos talentos. A partir de vendas de altos valores para times europeus é que as equipes conseguem tirar destaques de outros campeonatos. As maiores promessas, inclusive, saem cada vez mais cedo.

Maiores vendas do Brasil para a Europa nos últimos 10 anos:
*Apenas jogadores formados nos clubes

JogadorClube vendedorClube compradorIdadeValor

Estêvão

Palmeiras

Chelsea

18 anos

€ 45 mi (+ € 16,5 mi em metas)

Endrick

Palmeiras

Real Madrid

18 anos

€ 35 mi (+ € 25 mi em metas)

Vini Jr

Flamengo

Real Madrid

18 anos

€ 45 mi

Rodrygo

Santos

Real Madrid

18 anos

€ 45 mi

Lucas Paquetá

Flamengo

Milan

21 anos

€ 38.4 mi

Para os jovens que não alcançaram tanto destaque no início da carreira profissional, a concorrência é pesada. Em seu trabalho gerenciando a carreira de atletas, Guilherme Momensohn tenta valorizar a importância da persistência. No entanto, o empresário prevê um movimento cada vez maior de brasileiros para mercados menores, seja por empréstimo ou em vendas definitivas.

— É importante trabalhar diariamente com os atletas jovens para entenderem que precisam ter paciência e resiliência, que a oportunidade chegará. Além disso, criar uma cultura no atleta de trabalho dentro e fora do campo, de melhoria e evolução contínua. O Brasil é e será sempre formador de talentos. O que pode acontecer é termos mais atletas saindo mais cedo para mercados menores e secundários buscando mais minutos como profissionais — analisou.

Breno Bidon (Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians)
Breno Bidon, meia do Corinthians: avaliado em R$ 127 milhões (Foto: Rodrigo Coca / Agência Corinthians)

Brasileiros sub-23 mais valiosos:
*Fonte: Transfermarkt

JogadorClubeValor*Idade

Vitor Roque

Palmeiras

€ 38 milhões

21 anos

Breno Bidon

Corinthians

€ 22 milhões

21 anos

André

Corinthians

€ 16 milhões

19 anos

Allan

Palmeiras

€ 15 milhões

22 anos

Gabriel Mec

Grêmio

€ 12 milhões

18 anos

Botafogo é o clube que usou o maior número de estrangeiros

O levantamento concluído no último dia 30 de abril pelo Lance! para apurar a distribuição de minutos para jogadores estrangeiros e formados nas respectivas categorias de base dos 20 clubes da Série A no Brasileirão traz algumas curiosidades. Apesar de o Inter ser o time com maior minutagem de atletas estrangeiros, o clube que mais colocou jogadores de outros países em campo foi o Botafogo: 13. Mas eles jogaram por menos tempo.

Já o Athletico-PR é o que tem maior minutagem de jogadores da sua base. Mas aproveitou nove atletas, enquanto o Santos usou um número maior de crias da Vila Belmiro: 11. Só que atuaram por menos minutos: 27,2% do total, o terceiro da lista, atrás também do Grêmio.

Minutagem estrangeiros x jogadores da base

Observações:

  • Atletas que obtiveram nacionalidade brasileira devido ao tempo de carreira no Brasil (e não por nascimento ou relação familiar) ainda foram considerados estrangeiros;
  • Jogadores estrangeiros formados na base dos clubes brasileiros só foram considerados estrangeiros;
  • Os clubes estão ordenados abaixo de acordo com a classificação do Campeonato Brasileiro após a realização da 14ª rodada.
Clube% dos minutos totais ocupada por estrangeiros% dos minutos totais ocupada por jogadores formados na basetotal de estrangeiros utilizadostotal de jogadores formados na base utilizados

Palmeiras

36

12,4

7

7

Flamengo

37,2

10,9

8

3

Fluminense

39,2

12,6

10

3

São Paulo

31,1

10

8

9

Athletico-PR

47,8

35,4

8

9

Bahia

31,3

4,8

6

3

Bragantino

24,6

10

6

7

Coritiba

16,8

10,9

3

2

Vitória

11,4

8,8

4

3

Botafogo

37,8

1,1

13

2

Atlético-MG

31,3

3,9

9

3

Internacional

49,6

3,6

9

3

Vasco

31,9

5,6

8

7

Grêmio

38,9

31,4

10

10

Cruzeiro

17,2

23,8

5

9

Santos

23,8

27,2

10

11

Corinthians

20,1

20

7

8

Mirassol

1,9

0

1

0

Remo

12,2

0

7

0

Chapecoense

12,1

6

3

3

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