Logo do Lance! branca com exclamação amarela

Messi redefiniu o futebol: longevidade, dados e mito

Jogador anunciou a despedida da seleção argentina nesta segunda-feira (31)

PorMárcio IannaccaRio de Janeiro (RJ)
31/08/2026 20:30
Atualizado há 1 minutos

Em 2016, sufocado pelas críticas e pelo peso de quatro finais perdidas, Lionel Messi anunciou que sua história com a Seleção Argentina havia chegado ao fim. O mundo assistiu ao maior gênio de sua geração quebrar diante da pressão psicológica e da rejeição de sua própria pátria. Mal sabíamos que aquele colapso público seria o primeiro capítulo de um dos arcos de redenção mais cinematográficos da história do esporte, transformando um herói contestado no maior mito cultural do futebol moderno.

Para entender como o craque superou o fantasma de Maradona, chegou a ser comparado a Pelé e unificou um país, é preciso olhar além dos troféus: mostramos em cinco passos — desde a sua metamorfose tática à liderança silenciosa de vestiário — que explicam por que Messi deixou de ser apenas um jogador para se tornar uma lenda viva e inalcançável.

continua após a publicidade

— Sou muito fã do Pelé. Vi o Pelé jogar em 1973 e foi uma das minhas maiores alegrias. Vi toda a trajetória do Maradona, ele é um mito. Mas Messi é de outro planeta. Vi todos os jogos do Messi, mais de 1.200 jogos. O futebol nunca viu isso. Ele venceu tudo e sempre esteve em evolução permanente. E existe uma diferença entre os três: Pelé e Maradona tem como fãs homens adultos. Messi, não. Tem homem adulto, jovens, crianças e mulheres que o adoram. E tudo pelo jeito dele — disse o historiador argentino Jorge Barraza, profundo estudioso na figura de Lionel Messi.

➡️ Lionel Messi anuncia aposentadoria da seleção argentina
➡️ ANÁLISE: Messi transforma goleada em regressiva rumo ao milésimo gol

Messi chora após derrota da Argentina para a Espanha na Copa do Mundo
Messi chora após derrota da Argentina para a Espanha na Copa do Mundo (Foto: Paul Ellis/AFP)

O DVD que salvou a Argentina de perder seu gênio

A história de Lionel Messi com a Seleção Argentina quase tomou um rumo completamente diferente no início dos anos 2000. Por ter se mudado para a Catalunha aos 13 anos, o garoto prodígio do Barcelona era praticamente um anônimo em seu próprio país natal. Sabendo disso, a comissão técnica das categorias de base da Espanha começou a se movimentar intensamente para convencê-lo a vestir a camisa espanhola, um desejo que mais tarde seria endossado publicamente até por figuras como o técnico Vicente del Bosque.

continua após a publicidade

O destino do futebol mundial mudou graças a um DVD enviado pelo técnico da seleção sub-17 da Argentina, Hugo Tocalli, ao auxiliar da equipe principal, Claudio Vivas. Ao assistir às jogadas inacreditáveis daquele adolescente desconhecido no Barcelona, Vivas levou o material imediatamente ao treinador da seleção principal, Marcelo Bielsa. Conta-se que Bielsa, perplexo com a velocidade dos dribles, pediu para que o vídeo fosse colocado em "velocidade normal", apenas para ouvir de seu assistente: "Marcelo, o vídeo já está em velocidade normal. Ele joga desse jeito".

Bielsa aprovou o jovem no ato. Diante do risco iminente de perder a joia para a Espanha, os dirigentes argentinos montaram uma verdadeira operação de emergência. Como Messi só ficaria blindado se atuasse em uma partida oficial pela albiceleste, a federação argentina organizou às pressas um amistoso sub-20 contra o Paraguai, em junho de 2004, apenas para que Messi entrasse em campo, fizesse seu primeiro gol e carimbasse de vez a sua cidadania esportiva. Um desvio histórico que evitou o que os argentinos hoje considerariam a maior tragédia de seu futebol.

continua após a publicidade

— Del Bosque queria chamar o Messi para a Espanha de qualquer jeito. Bielsa o viu e o convocou para a Argentina. Acho que foi bom para a Argentina, não? — contou Barraza.

➡️ Tudo sobre os maiores craques no seu WhatsApp! Entre no Lance! Futebol Internacional!

A ciência da longevidade: o gênio que aprendeu a caminhar

O futebol moderno é implacável com o corpo humano, exigindo intensidade física extrema. No entanto, Messi conseguiu quebrar a barreira do tempo, mantendo-se no topo por mais de duas décadas e anotando gols por 21 anos consecutivos pela Argentina (2006-2026). O segredo de sua longevidade não está na velocidade que perdeu, mas na inteligência tática que refinou.

continua após a publicidade

Messi redefiniu o espaço-tempo no futebol. O jovem ponta elétrico dos anos 2010 deu lugar a um "enxadrista" cerebral. Hoje, ele caminha pelo campo. Mas esse caminhar não é apatia; é mapeamento. Messi estuda o posicionamento dos adversários, identifica as falhas estruturais da defesa e, no momento exato, acelera para dar o passe milimétrico ou o chute cirúrgico. Ele transformou a perda da explosão física em uma exaltação da pura genialidade futebolística.

— Ele está caminhando… É disso que eu mais gosto. Ele não está fora do jogo, ele está envolvido. Ele mexe a cabeça: direita, esquerda, esquerda, direita. Ele sabe exatamente o que vai acontecer. Mas a cabeça dele está sempre assim. Ele está sempre se movendo. Ele não está correndo, mas está sempre observando o que está acontecendo. Ele fareja onde estão os pontos fracos na linha de quatro defensores. Depois de cinco, dez minutos, ele tem o mapa em seus olhos, em seu cérebro, para saber exatamente onde está o espaço e qual é o panorama geral. É como estar na selva e eu preciso sobreviver. E ele sabe que se mover aqui ou ali, terá mais espaço para atacar — definiu Pep Guardiola, em entrevista ao documentário "This is Football", da Amazon.

continua após a publicidade

Jorge Barraza falou da mudança de estilo de Messi.

— Se ele sente que não vai chegar na bola, ele não vai. Ele não se move. O Messi guarda a energia para depois. É um jogador que tem tudo mapeado na cabeça, tudo muito lindo, nunca para trás, sempre em direção ao gol, sempre para frente — afirmou.

Jorge Barraza e Pelé durante a Copa do Mundo de 1978
Jorge Barraza e Pelé durante a Copa do Mundo de 1978 (Foto: Arquivo Pessoal)

O roteiro da redenção: da rejeição ao Olimpo

Nenhuma narrativa de ficção conseguiria mostrar o drama real da relação entre Messi e a Argentina. Por anos, ele carregou o fardo insuportável de ser comparado a Diego Maradona e a frustração de perder quatro finais consecutivas. Em 2016, após o vice da Copa América Centenário, o mundo assistiu ao herói quebrar: Messi anunciou sua aposentadoria da seleção, sufocado pelas críticas que o acusavam de não sentir a camisa dos Hermanos e de ser "frio". O que se seguiu foi o arco de redenção mais cinematográfico da história do esporte.

continua após a publicidade

O retorno, a reconstrução sob o comando de Lionel Scaloni e a glória tardia. Ao erguer a Copa América em 2021, no Brasil, e a Copa do Mundo em 2022, Messi não apenas exorcizou seus próprios demônios, mas unificou um país em crise. Ele deixou de ser o prodígio moldado em Barcelona para se tornar o maior símbolo de resiliência cultural da Argentina. Ultrapassando até mesmo a idolatria por Diego Maradona, o "Dios" do país vizinho.

— Messi tem 927 gols e está a 18 de chegar ao feito de ter 600 gols a mais do que Maradona. Não são 50, 60 gols. São 600 gols. Isso quer dizer alguma coisas — analisou Jorge Barraza.

continua após a publicidade

A liderança silenciosa por trás dos holofotes

Em uma era dominada por capitães falam, gritam, polêmicos e performáticos, Messi consolidou uma liderança diferente. Ele é o capitão silencioso. Extremamente reservado longe dos microfones, sua influência no vestiário se baseia na reverência e no exemplo. A atual geração da seleção argentina cresceu assistindo a Messi pela televisão. Ao entrarem em campo, jogaram não apenas por um país, mas para "dar uma Copa ao Messi". Ele assumiu o papel de mentor dessa nova safra, protegendo os mais jovens da pressão da feroz imprensa argentina e oferecendo um porto seguro tático e emocional dentro de campo. Sua braçadeira não é usada para gritar, mas para inspirar devoção voluntária.

— Na Espanha, no Barcelona, diziam que o Messi era mudo. Ele era silencioso. Agora é um líder. A Argentina nunca mais terá um jogador assim — disse Barraza.

continua após a publicidade

O fenômeno geopolítico: o "efeito Inter Miami"

O impacto de Messi transcendeu as fronteiras competitivas tradicionais quando ele decidiu cruzar o Atlântico. Sua chegada à Major League Soccer (MLS) nos Estados Unidos não foi apenas uma transferência de clube, mas um terremoto geopolítico e comercial no esporte. O "Efeito Inter Miami" alterou a economia do futebol norte-americano. Direitos de transmissão da Apple explodiram, ingressos antes insignificantes passaram a custar milhares de dólares e celebridades de Hollywood passaram a disputar assentos nas primeiras fileiras para assisti-lo. Messi transformou a percepção do futebol em um mercado historicamente resistente ao esporte, provando que sua marca pessoal possui uma força capaz de mudar os hábitos de consumo de uma superpotência global.

Em apenas quatro anos, o valor estimado do Inter Miami saltou de US$ 600 milhões para US$ 1,45 bilhão, impulsionado por um crescimento de 416% em patrocínios com marcas globais. Paralelamente, a audiência global da liga foi completamente reconfigurada: as assinaturas globais do serviço de transmissão do campeonato explodiram, disparando de 110 mil para 11 milhões de usuários.

continua após a publicidade

No ambiente comercial, Messi gerou sozinho mais de US$ 200 milhões em vendas de camisas oficiais, alterando profundamente os hábitos de consumo e colocando o futebol no centro da cultura pop dos Estados Unidos. Toda essa força de mercado é sustentada por uma performance absurda em campo. Em sua trajetória nos Estados Unidos, o craque atinge números impressionantes ao balançar as redes 98 vezes pelo clube da Flórida, consolidando marcas expressivas como a goleada comandada por ele diante do Montreal pela MLS, no último fim de semana.

— Pelé e Messi marcaram época nos Estados Unidos. Messi chegou lá com uma liga bem mais forte. Um dos meus filhos está de férias nos Estados Unidos e foi nessa última partida do Inter Miami. Ele relatou que o estádio ficava quieto e sempre existe aquele alvoroço quando o Messi pega na bola. Os jogos tinham 12 mil, 15 mil torcedores. O estádio no último fim de semana tinha mais de 70 mil pessoas.

continua após a publicidade

O veredito do tempo

Ao olharmos para a trajetória completa de Lionel Messi, fica claro que sua biografia transcende as barreiras comuns do esporte. O garoto anônimo de Rosario, descoberto quase por acaso para defender a Argentina graças à insistência do técnico Hugo Tocalli, encerra seu ciclo internacional deixando um legado inalcançável. Da chocante quase aposentadoria em 2016 à consagração máxima no Catar em 2022, ele provou que o roteiro da vida real pode ser mais dramático e recompensador do que qualquer ficção. Foram 125 gols pela seleção em 21 anos.

Diante de dados estatísticos que beiram o absurdo, Messi domesticou os números e os transformou em arte. Mais do que gols, assistências ou os troféus empilhados em duas décadas de genialidade pura, o maior feito de Messi foi humanizar o posto de divindade do futebol. Ele não foi apenas o maior de sua era; ele reconfigurou a forma como o planeta joga, assiste e sente o esporte. O atleta pode eventualmente se despedir da seleção de seu país, mas o mito que mudou o destino de uma nação permanecerá eterno na crônica da história

continua após a publicidade
Sugerida para você!

Mais LANCE!