'As estrelas são elas': a visão e os bastidores da ME Sports no futebol feminino
Agente refletiu sobre o crescimento da modalidade no Brasil e seus desafios

A consolidação do futebol feminino no Brasil nos últimos anos é acompanhada por transformações profundas nos bastidores da modalidade. Longe dos holofotes e das grandes transmissões, o trabalho de estruturação profissional das atletas também inclui os agentes. Foi exatamente nesse cenário de desbravamento que a ME Sports construiu sua trajetória, firmando-se como agência dedicada à modalidade e que hoje tem nomes como Gi Campiolo, Fê Palermo e Diany, do Palmeiras, entre outras jogadoras.
A história da agência remonta a 2014, quando Mário, seu fundador, atuava na produção de grandes eventos esportivos da TV Globo e fez a transição para a assessoria no vôlei. O grande divisor de águas ocorreu em 2016, a partir de um convite da zagueira Gi Campiolo (atualmente no Palmeiras). Segundo ele, ao perceber a carência de uma representação profissional e voltada para o suporte das jogadoras no futebol, Mário migrou definitivamente para a modalidade. O que começou com a gestão pontual de imagem transformou-se no gerenciamento de carreira a longo prazo de grandes referências do futebol nacional.
Hoje, a ME Sports mantém um portfólio intencionalmente enxuto e exclusivo de 30 atletas, com destaque para lideranças e capitãs em diversos clubes de expressão no Brasil. Além do trabalho corporativo e de reestruturação de departamentos femininos pelo país, a agência reinveste seus recursos na formação social por meio do projeto "Pra Ela Jogar", do Instituto ABCD, atendendo dezenas de meninas em Carapicuíba. Em entrevista concedida ao Lance!, Mário apresenta um diagnóstico vívido, honesto e realista sobre os avanços, gargalos e incertezas do futebol feminino no Brasil rumo à Copa do Mundo de 2027.
Esta reportagem integra uma série especial do Lance! sobre o mercado de transferências no futebol feminino. Ao longo das próximas publicações, serão apresentados agentes, empresas e profissionais que atuam nas negociações de atletas, além de discutir o funcionamento desse mercado, seus desafios e as oportunidades que impulsionam o crescimento da modalidade.
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Entrevista com Mário Jr, da ME Sports
1. Lance!: Como você iniciou sua trajetória como agente e como surgiu a ME Sports?
Mário (ME Sports): Eu sempre trabalhei com esporte. Eu fazia a produção de eventos esportivos da TV Globo, de corrida de rua, para você ter ideia: produção da São Silvestre, Maratona do Rio, Meia Maratona do Rio... Trabalhava na produção de eventos esportivos. E aí teve o convite de uma atleta para trabalhar com vôlei. Então inicio minha trajetória de assessoria para atletas do vôlei em 2014 e trabalho dois anos com a modalidade.
2. Lance!: Mário, é interessante que, pelas histórias que estou ouvindo, a maioria dos agentes vem do futebol masculino. Você não teve essa experiência?
Mário: Não, não. Eu sempre trabalhei com esporte feminino. Sou 100% esporte feminino. É o que falo sempre: trabalhar com o feminino exige entender um mercado totalmente diferente, sabendo lidar com suas nuances. Estou nessa trajetória desde 2016, sei o que passamos para chegar onde estamos e o que temos que fazer para melhorar a partir de 2027, depois da Copa do Mundo.
3. Lance!: E qual a sua formação? É jornalista?
Mário: Não, sou formado em Turismo, para você ter ideia. Fiz alguns cursos de marketing, mas minha formação é Turismo. Não tem nada a ver com futebol ou esporte. Fiz Turismo porque gostava de viajar, mas era um engano meu, pois trabalha-se muito mais do que se viaja (risos). Mas sempre fui do esporte.
4. Lance!: Para você ter o tamanho da responsabilidade que é gerenciar a carreira de um atleta, é preciso ter algumas qualidades e características pessoais. O que você considera que uma pessoa que vá trabalhar nessa área hoje precisa ter para desempenhar bem o seu papel?
Mário: Tem que ter entendimento do que é o feminino e do que é trabalhar com atletas femininas. Você precisa saber lidar com a parte mental das atletas, ser alguém que apoia e contribui com elas, entendendo caso a caso. Ter discernimento para lidar com pessoas é o mais importante, além da tranquilidade de saber que seu papel é contribuir.
5. Lance!: Só para eu ter uma ideia, quantas atletas vocês têm no portfólio hoje?
Mário: Hoje trabalho com 30 atletas. É o portfólio que acho ideal para mim. Trabalho majoritariamente sozinho, tendo uma pessoa que trabalha comigo na parte de imagem (o William Ribla). Esse número é o suficiente para manter um trabalho bem personalizado com cada uma.
6. Lance!: Perguntando um pouco sobre a sua rotina: queria entender como é o seu dia a dia hoje, se você tem uma sede física, se fica no escritório, viaja ou acompanha in loco.
Mário: Além do agenciamento, tenho um instituto hoje que é o Instituto ABCD, com um projeto chamado "Pra Ela Jogar". Com os recursos que recebi do futebol feminino, devolvo através de um projeto social para meninas carentes de Carapicuíba. Atendemos mais de 50 meninas de escolas públicas semanalmente e temos parceiros como a Fundação Fenômenos, do Ronaldo. São três anos de projeto trabalhando o desenvolvimento da modalidade na base.
7. Lance!: O que você considera mais importante nessa relação com os clubes e com as atletas?
Mário: Com os clubes, é preciso ter o conhecimento de quem está lá. O futebol feminino é uma bolha e o networking é fundamental. Nosso papel é ser o intermediário entre atleta e clube, fazendo um balanceamento. Às vezes a atleta pede algo de uma forma e você precisa traduzir isso para o clube de forma mais amena e branda, para que ambos entendam e cheguem a um denominador comum. Ter abertura e bom relacionamento em todos os clubes o tempo todo é essencial.
8. Lance!: Queria que você contasse algo de que se orgulha, um case ou situação que retrate a forma como vocês trabalham e a trajetória de vocês.
Mário: O que mais me orgulha é o planejamento de carreira a longo prazo (de 5 a 8 anos) com atletas que estão comigo desde 2016 ou 2017. Ver o crescimento delas e a evolução dos seus contratos — por exemplo, a Giovanna começou me pagando R$ 100 e hoje paga um valor muito maior porque o salário dela multiplicou — é gratificante. Ver uma atleta sem perspectiva tornar-se uma jogadora renomada, com condições de viver do futebol e buscando formação fora de campo, é o meu maior presente.
9. Lance!: Queria saber se tem algum padrão na agência. Hoje qualquer atleta pode buscar o trabalho de vocês?
Mário: Sempre trabalhei com um perfil muito definido. Nunca busquei apenas "craques" ou artilheiras que só fazem gols. Busco atletas que queiram um projeto de longo prazo, responsáveis e que desempenhem papel de liderança. Se você reparar, a maioria das capitãs dos clubes são minhas atletas: desde Bruna Benites, Estela Terra (quando jogava no Red Bull), Bruna Emília (no Juventude) até Rita Bove (no Botafogo). Prezamos pela qualidade psicológica, profissionalismo e construção de legado, e não por quantidade de atletas.
10. Lance!: Você hoje é agente FIFA ou CBF?
Mário: CBF. Quando precisamos de algo relacionado à FIFA, trabalhamos em parceria com agências parceiras. Vale ponderar que a taxa de R$ 12 mil da CBF é pesada para quem atua 100% no futebol feminino, pois grande parte dos clubes ainda não paga comissão aos agentes. A mídia mostra o futebol feminino para a massa, mas os bastidores no backoffice exigem muito mais luta do que as pessoas imaginam.
11. Lance!: Quais os principais desafios do futebol feminino brasileiro e da sua função como agente nesse contexto?
Mário: Acho que erramos a mão como modalidade porque ela cresceu sem o devido planejamento. Com exceção dos seis maiores clubes do Brasileirão, os demais lutam diariamente para se manter. Os salários subiram muito além da capacidade de sustentação a longo prazo. Falta um freio e regulamentação.
12. Lance!: Você sente essa diferença de investimento em negociar com equipes de São Paulo comparado a equipes de outros centros?
Mário: Sim, São Paulo possui uma capacidade financeira superior. Mas o maior problema é o abismo entre as divisões: da Série A1 para a A2 e A3 a diferença é gigantesca. A mídia foca em finais com 40 ou 50 mil pessoas no estádio para dizer que a modalidade cresceu, mas na rotina do campeonato estadual há jogos com pouquíssimo público. Essa disparidade precisa ser encarada com realismo.
13. Lance!: Para finalizar, qual é a sua expectativa pessoal para a Copa de 2027 e para o período pós-Copa?
Mário: Até 2027 viveremos um período excelente de visibilidade. Mas, preocupado com o pós-Copa, estruturo os contratos das minhas atletas com duração até 2028, garantindo segurança financeira caso haja retração no mercado. Não acredito que vamos regredir totalmente, mas precisamos reorganizar a casa, estabelecer pisos, investir na base e ter padrões orçamentários. Países como o México reorganizaram o futebol feminino em três anos com planejamento. O Brasil precisa parar de viver apenas de momentos e planejar o futuro a longo prazo.
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