Conheça a psicóloga que virou agente Fifa e criou método próprio na Left Sports Women

Jaqueline Cornacini concedeu entrevista ao Lance! e compartilhou detalhes sobre o gerenciamento de carreiras no futebol feminino

PorGiselly Correa BarataSão Paulo (SP)
27/07/2026 18:00
Atualizado há 1 minutos
Jaqueline Cornacini, agente Fifa da Left Sports. (Divulgação)
Jaqueline Cornacini, agente Fifa da Left Sports. (Divulgação)

Antes de falar sobre contratos, transferências e mercado internacional, Jaqueline Cornacini faz perguntas. Psicóloga de formação, a agente Fifa licenciada da LEFT Sports Women aplica conceitos da área da saúde para entender se uma atleta e a agência, de fato, combinam. Na prática, a conversa inicial funciona como uma espécie de "anamnese", como é chamado o procedimento utilizado por profissionais da saúde para conhecer o histórico, os objetivos e o contexto do paciente. Após finalizar a transição de carreira e se dedicar integralmente ao futebol, ela utiliza de ferramentas que aprendeu lá atrás para a nova empreitada no gerenciamento de atletas.

Foi justamente esse olhar que Jaqueline levou para o futebol feminino quando assumiu a operação da Left Sports Women na modalidade, em 2021. Ao lado dos irmãos Leonardo e Eduardo Cornacini, que já atuavam no mercado do futebol masculino, ela construiu um modelo de gestão de carreira focado no acompanhamento individual das atletas. Hoje, é responsável pela carreira de 28 jogadoras e dois treinadores.

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Em entrevista exclusiva ao Lance!, a agente falou sobre os desafios das transferências internacionais, avaliou o crescimento do mercado brasileiro e projetou os impactos da Copa do Mundo Feminina de 2027 para as atletas brasileiras.

Esta reportagem integra uma série especial do L! sobre o mercado de transferências no futebol feminino. Ao longo das próximas publicações, serão apresentados agentes, empresas e profissionais que atuam nas negociações de atletas, além de discutir o funcionamento desse mercado, seus desafios e as oportunidades que impulsionam o crescimento da modalidade.

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Lance!: Como foi a sua entrada no mercado de gestão de carreira no futebol feminino até se tornar agente FIFA licenciada?

Jaqueline Cornacini: Vou tentar ser um pouco mais direta, porque a história sempre acaba se alongando. Eu venho de uma família de ex-atletas. Meus irmãos foram jogadores de futebol e, devido a lesões, precisaram encerrar a carreira cedo e fizeram a transição para o mercado de agentes, há cerca de dez anos.

Eu cresci com eles, gostava de jogar futebol, mas nunca pensei nisso como profissão. Segui a área da saúde e sou psicóloga de formação. Trabalhei no SUS, no CAPS. Paralelamente, sempre falava para os meus irmãos que toparia fazer qualquer coisa na empresa deles.

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A LEFT nasceu em 2019 e, em 2021, surgiu uma oportunidade de atuar no futebol feminino após uma intermediação envolvendo a treinadora Camila Orlando e a seleção feminina dos Emirados Árabes Unidos. Depois disso, recebi o convite para liderar o futebol feminino da agência.

Precisei de cerca de nove meses para me preparar, conhecer o mercado, os clubes, atletas e campeonatos. Quando me senti pronta, comecei a estruturar a operação da LEFT Sports Women. Tive a oportunidade de trabalhar muito com atletas da base, principalmente em São Paulo, e o trabalho foi acontecendo naturalmente.

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Jaqueline Cornacini, Leonardo Cornacini e Eduardo Cornacini, da Left Sports. (Divulgação)
Jaqueline Cornacini, Leonardo Cornacini e Eduardo Cornacini, da Left Sports. (Divulgação)

Lance!: Quais características e conhecimentos são fundamentais para trabalhar com gestão de carreira no futebol feminino?

Jaqueline Cornacini: A psicologia me ajuda muito. Um paciente sempre chega com uma queixa, mas é durante a anamnese que você entende que aquilo é apenas a ponta do iceberg.

No futebol feminino, acontece algo semelhante. Eu posso me interessar por uma atleta pelo que vejo dentro de campo, mas é na conversa que entendo a mentalidade dela, seus objetivos e se eles caminham junto com os meus enquanto agente.

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O trabalho de agenciamento é uma via de mão dupla. Eu preciso escolher a atleta, mas ela também precisa me escolher. Se os objetivos estiverem alinhados, conseguimos construir um plano de carreira juntas. Caso contrário, é melhor entender isso desde o início.

Lance!: Existe algum case profissional que represente bem o trabalho desenvolvido pela LEFT Sports Women?

Jaqueline Cornacini: Como comecei trabalhando com atletas da base, muitos dos nossos cases ainda estão em construção. O nosso maior desafio é justamente vencer as etapas da transição para o profissional.

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Mas eu nunca vou me esquecer de uma atleta que estava no último ano da categoria de base e sabia que não seguiria no clube em que atuava. Recebi essa demanda em maio, com a janela abrindo em junho, e tivemos pouco tempo para trabalhar.

Em pouco tempo, conseguimos fazer a nossa primeira transferência internacional. Foi uma atleta que saiu da base para disputar as fases classificatórias da Champions League feminina. Para mim, aquele momento mostrou que estávamos no caminho certo.

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Lance!: Quantas atletas são agenciadas pela LEFT Sports Women atualmente?

Jaqueline Cornacini: Hoje faço a gestão da carreira de 28 atletas e de dois treinadores: Douglas Matsumoto, técnico do sub-17 da Ferroviária, e Bruno Proton, auxiliar técnico do Palmeiras.

No futebol feminino, sou a única responsável pelo gerenciamento dessas carreiras dentro da LEFT. Prefiro trabalhar com um grupo menor, porque consigo oferecer um acompanhamento mais próximo e de qualidade.

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Lance!: Como funciona a sua rotina de trabalho e qual o peso da vontade da atleta em uma transferência?

Jaqueline Cornacini: A gente não tem rotina. Posso organizar a minha semana inteira e, de repente, receber uma ligação que muda tudo. Hoje me divido entre a parte administrativa do escritório, inaugurado há um ano em São Caetano do Sul, o planejamento estratégico e o acompanhamento das atletas. Sempre que possível, estou presente em jogos e em contato com as famílias.

Eu trabalho principalmente com atletas da base, então preciso olhar para a atleta de maneira integral. Ela não é apenas jogadora de futebol. Ela também é filha, estudante, tem família, religião e tudo isso influencia diretamente na carreira.

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Sobre as transferências, tudo começa entendendo quais são os objetivos da atleta. Algumas querem jogar no exterior, outras preferem permanecer no Brasil. Não existe uma regra. Se a atleta deseja construir uma carreira internacional, começamos a desenhar esse caminho. O objetivo é equilibrar os aspectos esportivos e financeiros. Muitas vezes, apresentamos mais de uma possibilidade e discutimos o que se ganha e o que se abre mão em cada escolha.

A decisão final sempre é da atleta. O meu papel é oferecer as informações e orientações necessárias para que ela tome a melhor decisão possível.

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Lance!: Como você avalia o mercado brasileiro do futebol feminino atualmente?

Jaqueline Cornacini: Muita coisa mudou desde que comecei a trabalhar no futebol feminino. Tivemos uma evolução gigantesca em quantidade e qualidade. Hoje já vemos transferências internas importantes acontecendo, inclusive envolvendo atletas muito jovens. Isso mostra o quanto o mercado está crescendo.

Ao mesmo tempo, o grande desafio é crescer mantendo essa evolução. Precisamos formar melhor as atletas e criar mais oportunidades para que elas consigam atuar em alto nível, seja nos clubes que as formaram ou em outras equipes.

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Também vivemos um momento interessante de encontro entre gerações. Temos uma geração mais experiente que abriu caminhos e uma geração mais jovem tentando conquistar espaço. Quando essas duas gerações convivem e são potencializadas, o futebol feminino só tem a ganhar.

Lance!: O que você espera da Copa do Mundo Feminina de 2027 para o mercado do futebol feminino brasileiro?

Jaqueline Cornacini: Eu prefiro olhar para o copo cheio. Quero acreditar que a Copa do Mundo vai potencializar tudo aquilo que o futebol feminino brasileiro já vem construindo.

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As atletas da seleção brasileira vêm mostrando que temos capacidade para disputar espaço entre as principais potências do mundo. A preparação para a Copa também tem mostrado avanços importantes, inclusive na utilização de ferramentas de análise de desempenho. Talvez as pessoas ainda não tenham dimensão do que pode acontecer com a realização desse torneio no Brasil. Acredito que haverá um envolvimento muito grande do público e que isso pode transformar o futebol feminino em um produto ainda mais forte, rentável e atrativo.

Mais do que isso, espero que esse movimento continue depois da Copa. Estamos formando atletas cada vez mais preparadas, com personalidade e qualidade técnica. Tenho certeza de que elas serão cada vez mais desejadas pelas grandes ligas do futebol mundial.

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Lance!: Os contratos no futebol feminino ainda são mais curtos do que no masculino. Como você vê esse cenário?

Jaqueline Cornacini: Nas categorias de base, trabalhamos com contratos de formação, o que naturalmente torna esse vínculo mais frágil. Já no profissional, vejo que os clubes fazem contratos mais longos quando têm segurança sobre o potencial daquela atleta dentro do projeto esportivo.

Trabalho com atletas jovens que vivem a transição para o profissional, então contratos mais curtos podem ser positivos ou negativos. Um vínculo longo traz segurança financeira, mas não garante que a atleta terá espaço para jogar.

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Já tive casos em que uma atleta permaneceu vinculada a um grande clube e precisou ser emprestada durante três anos para ganhar minutos e experiência. Por isso, tudo depende da estratégia construída para cada carreira. Quanto maior e melhor remunerado for o contrato, melhor para a atleta do ponto de vista da segurança. Mas, esportivamente, é preciso avaliar se ela terá condições de se desenvolver dentro daquele contexto.

Jaqueline Cornacini em curso de gestão do futebol feminino da Federação Paulista de Futebol. (Acervo pessoal)
Jaqueline Cornacini em curso de gestão do futebol feminino da Federação Paulista de Futebol. (Acervo pessoal)
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