Taveira Sports Women: Thiago Taveira conta história da agência que abriu novos mercados para brasileiras no exterior
Agente Fifa é responsável pelas carreiras de Bia Zaneratto, Tarciane e Gabi Portilho, entre outras atletas

A história de Thiago Taveira no futebol começou ainda na juventude, movida pelo desejo de seguir os passos do pai, Luiz Taveira, um dos pioneiros no agenciamento de atletas do futebol masculino no país. Entre trabalhos operacionais no escritório e o sonho de virar agente, Taveira nem chegou a ser profissional no esporte para migrar definitivamente para os bastidores das negociações. O grande divisor de águas no cenário internacional veio ao apostar na carreira do lateral-direito Ceará, participando de sua consolidação no Internacional e viabilizando a transferência do atleta para o Paris Saint-Germain.
A virada para o futebol feminino ocorreu em 2011, quando acompanhou in loco a Copa do Mundo na Alemanha e enxergou um potencial de mercado até então ignorado no Brasil. Ao assumir a gestão de atletas jovens como Thaisinha, hoje no Santos, e Bia Zaneratto, do Palmeiras, Taveira abriu portas no futebol asiático e pavimentou um modelo de negócios. Hoje, à frente de dezenas de carreiras, o agente coleciona recordes de transferências internacionais na Taveira Sports Women.
Esta reportagem integra uma série especial do Lance! sobre o mercado de transferências no futebol feminino. Ao longo das próximas publicações, serão apresentados agentes, empresas e profissionais que atuam nas negociações de atletas, além de discutir o funcionamento desse mercado, seus desafios e as oportunidades que impulsionam o crescimento da modalidade.
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Entrevista com Thiago Taveira, agente Fifa
Lance!: Taveira, como você iniciou na área e quando surgiu a Taveira Sports Women?
THIAGO TAVEIRA: Minha história começou no futebol quando eu tinha 18 anos de idade. Comecei acompanhando o meu pai. Ele era um dos únicos empresários do futebol masculino no Brasil. Agenciou jogadores como Marcelinho Paraíba, Belletti, fizemos transferências com Marcelinho Carioca, Cris, Edu Dracena, uma série de jogadores lá atrás.
Eu comecei muito jovem como ajudante do meu pai, motorista e tal. Ficava no escritório o dia inteiro ali. "Pai, quero ser empresário, quero ser empresário". Eu me recordo que eu jogava bola no Jabaquara, uma equipe pequena de Santos, e o treinador vivia pegando no meu pé ali, porque meu pai era um dos patrocinadores do time. Aí: "Vai, Thiago! Vai, Thiago!". Dei um chutão na bola e falei: "Vai aonde? Eu vou é virar empresário de jogador". Foi assim que acabei minha carreira no futebol antes de começar.
No dia seguinte, cheguei lá de roupa social no Jabaquara, em Santos, e falei: "Agora vocês vão ter que me engolir aqui, porque meu pai é o patrocinador do time". E aí eu virei empresário. Essa foi a minha transição de carreira.
Comecei a andar com atletas e a pegar experiência com muitos jogadores da base do Santos e da Portuguesa Santista. Foi aí que eu conheci o Ceará, lateral-direito. Na época, meu pai tinha muitos atletas famosos no escritório e não dava tanta atenção para o Ceará. Era um atleta que ainda estava buscando espaço no futebol. Mal sabia eu que estava ajudando e apostando em um campeão do mundo.
O Ceará se tornou campeão do mundo, jogou aquele jogo histórico do Internacional contra o Barcelona, em que marcou o Ronaldinho Gaúcho, em 2006. Depois disso, fiz a transferência dele para o Paris Saint-Germain. Foi a minha primeira grande transferência no masculino. Foi ali que me tornei um empresário internacional. Minha vida mudou um pouco financeiramente e o meu status também, comecei a ter resultado. Não era só o filho do Taveira, mas alguém que estava fazendo negociações. Depois disso, levei o Souza também para o Paris Saint-Germain, quatro meses depois. Era o Souza, comentarista que comenta com o Marcelinho, que era do São Paulo. E comecei a ganhar mais cenário no futebol masculino.
Para resumir, em 2011, fui à Copa do Mundo da Alemanha de futebol feminino e conheci a Thaisinha e a Bia. Elas tinham 17 anos e estavam como suplentes na Copa. O Brasil praticamente não tinha futebol feminino. Tinham as Sereias da Vila, que também estavam em uma fase em que não se sabia se iam continuar ou não.
Só que eu vi, na Copa do Mundo de 2011, um cenário que me impressionou: estádios lotados, jogos com uma energia incrível. O Brasil perdeu aquela Copa para os Estados Unidos, mas o que me impressionou foi a energia de uma Copa do Mundo de futebol feminino fora do país. Eu falei: "Cara, o pessoal não tem noção do que é uma Copa do Mundo de futebol feminino fora do país".
Assumi a carreira da Thaisinha e da Bia com 17 anos e fiquei só com elas. Levei as duas para o Hyundai, da Coreia do Sul, e não queria saber de outras atletas. Tivemos muito sucesso na carreira delas. Se tornaram referências, com contratos que eu não conseguia ver nenhuma agente ou jogadora ganhando no mundo inteiro.
Então, eu tinha esses dois cases de sucesso no feminino. Em 2018, resolvi acelerar. A Bia foi para a China, a Thaisinha voltou para o Santos, e aí acelerei. Já tinha essa bagagem, esse case, e a história tomou essa proporção que você conhece hoje.
LANCE!: Quais características moldam um agente? O que você considera importante para alguém que quer entrar nessa área e que você fala para os seus mentorados?
THIAGO TAVEIRA: O principal que virou a minha chave foi entender sobre perfil comportamental, crenças e mentalidade, porque isso me ajudou na tomada de decisões e a ajudar os atletas nas tomadas de decisão.
Vejo muito agente que sabe fazer negociação, mas não entende de comportamento humano. Quando você fala de futebol feminino, é uma outra abordagem, uma outra comunicação com as atletas.
Eu reputo o meu sucesso no futebol feminino ao fato de conseguir entender que eu era um homem, o que causava um pouco de distanciamento delas, e que eu precisava ser aquele cara em quem elas confiavam. A Thaisinha e a Bia me trouxeram essa credibilidade no mercado. Então, acredito que o grande segredo para o agente de futebol feminino, principalmente o homem, é entender que está lidando com uma atleta, com uma mulher, e que precisa ter uma abordagem diferente daquela que tem com um jogador de futebol.
Quando ele consegue conquistar essa confiança sendo homem, ultrapassa essa barreira. Chega um ponto em que as atletas falam: "Olha, eu tenho um pouco de pé atrás de sair para tomar um café com um cara, mas nesse eu confio porque ele é diferente".
Tenho certeza de que o fato de eu conhecer sobre crenças, emoções e saber fazer a gestão emocional me fez entender qual era a dor da atleta e atacar diretamente essa dor, conseguindo o acolhimento e a confiança dela. Essa foi a minha principal estratégia de sucesso no futebol feminino.
LANCE!: E o que um agente precisa ter na relação com os clubes?
THIAGO TAVEIRA: O agente precisa entender que é um empresário da atleta. Em primeiro lugar, ele tem que ficar do lado dela, que é quem ele representa, mas precisa ter uma relação muito boa com os clubes.
O que me fez ter muito sucesso nos Estados Unidos, na Arábia Saudita e na Europa foi simplesmente servir sem esperar nada em troca. Sempre visitei clubes do mundo inteiro e me coloquei à disposição para trazer informações do Brasil, ajudar em negociações, mesmo quando não envolviam atletas minhas, sem uma contrapartida financeira.
Isso fez com que os clubes recorressem a mim. Pensam: "Vou ligar para o Thiago porque ele tem as informações". Ele vai me dizer se a atleta tem o perfil, se a negociação é fácil, indicar o telefone do diretor, me colocar na cara do gol na negociação e não vai querer entrar no negócio sem necessidade.
Acredito que a palavra é servir, é se colocar à disposição. Essa geração de valor aumenta a sua credibilidade no mercado.
LANCE!: Como foi a entrada da Taveira Sports Women no mercado da Arábia Saudita?
THIAGO TAVEIRA: Apesar de eu ter chegado antes também na Arábia Saudita, cheguei antes dos agentes do Brasil em praticamente todos os lugares do mundo. Isso foi graças à minha visão de negócio e à disponibilidade de entrar em um avião sem sequer imaginar se teria algo em troca.
Eu resisti um pouco nesse mercado pela dúvida que tinha em relação ao preconceito com as atletas, pelo fato de muitas se relacionarem entre si. Imaginei um país machista e pensei que não aceitariam isso.
A primeira atleta que levei foi a Kathellen, do Real Madrid para o Al-Nassr. Foi um teste, um risco que corremos, e deu certo. Percebi que eles estão muito abertos a acolher as jogadoras.
Quando cheguei lá, me deparei com um país maravilhoso, uma cultura incrível, um lugar superseguro e me apaixonei pela Arábia Saudita. Tenho tido a melhor experiência possível naquele mercado.
LANCE!: De onde veio a decisão de produzir mais conteúdo nas redes sociais?
THIAGO TAVEIRA: Entendi que eu precisava transbordar na minha vida. Não apenas para aparecer, mas para transformar vidas. Acredito que uma mensagem pode salvar uma vida. Houve uma atleta, há alguns anos, que tirou a própria vida, e eu me questionei: "Será que, se eu tivesse feito uma live ou produzido um conteúdo, ela teria desistido?".
Nós temos a responsabilidade de transbordar. Toda vez que você transborda, essa energia volta para você. Você tem a oportunidade de mostrar o seu posicionamento, a sua mentalidade e o seu propósito.
É isso que tenho feito há quatro ou cinco anos. Vejo que os agentes ainda estão muito atrasados nesse aspecto. Quando você entende que não é sobre você, faz mesmo sem vontade. Isso é sobre salvar vidas.
LANCE!: Qual negociação ou conquista da sua trajetória mais te orgulha?
THIAGO TAVEIRA: Eu me orgulho de muita coisa. Desde uma atleta de 15 anos em formação até a Bia Zaneratto assinando o maior contrato da história do futebol feminino na China.
Tenho orgulho de ter feito o primeiro empréstimo internacional de uma jogadora de um clube do exterior para um clube brasileiro, com a Bia Zaneratto no Palmeiras. O sistema de transferências da FIFA nem previa esse movimento para o futebol feminino quando fizemos.
Fui o cara que destravou as passagens executivas para as jogadoras nos Estados Unidos, na Coreia do Sul e na Europa. Hoje, muitos clubes oferecem business class às estrangeiras.
Também destravei o comissionamento dos agentes no Brasil. Comecei a conversar com os clubes e mostrar que precisávamos ser remunerados pelo trabalho prestado.
Em relação às vendas, tenho orgulho da transferência da Lorena, da Amanda Gutierres e da Tarciane. A transferência da Tarciane do Corinthians para o Houston foi de US$ 500 mil e, seis meses depois, do Houston para o Lyon, por US$ 1 milhão. Depois, eu mesmo bati esse recorde com a Amanda Gutierres. Pode soar como arrogância, mas eu trabalho muito para isso. Carrego a promessa do Senhor na minha vida. Também houve a transferência da Adriana, do Orlando Pride para a Arábia Saudita, que foi uma quebra de paradigma importante.
LANCE!: Quais são os principais desafios do futebol feminino brasileiro hoje?
THIAGO TAVEIRA: O principal desafio é o preconceito, que continua existindo. O brasileiro, em sua maioria, ainda repudia o futebol feminino. Quando resolvi assumir uma identidade no futebol feminino, senti isso na pele. Saí do futebol masculino e passei a ser conhecido como "o cara do feminino". Meus próprios amigos empresários tiravam sarro.
O segundo desafio é a formação. Os clubes ainda abrem mão das categorias de base, e isso impede uma formação completa das atletas.
Em contrapartida, existe hoje um apelo muito grande pelo posicionamento da mulher no mercado. Vejo empresas buscando mais jogadoras do que jogadores para campanhas publicitárias, tirando casos excepcionais, como Neymar. As principais dificuldades continuam sendo o preconceito e a falta de profissionalização das categorias de base.
LANCE!: O que mudou na Taveira Sports após a recente saída da (também agente) Nina Bueno?
THIAGO TAVEIRA: Hoje administramos mais de 100 atletas entre categorias de base e atletas de alto nível. Fizemos uma ruptura. Houve uma pessoa que veio comigo nessa jornada e que agora não faz mais parte da empresa. Obviamente, ainda temos algumas coisas em conjunto, porque é um "divórcio" que você não resolve da noite para o dia.
Sou muito grato à vida dela porque construímos algo grande juntos. O que muda é que agora consigo implantar a visão que entendo como a melhor para a empresa, sem interferências. É um novo momento. O que mais me importa é continuar andando debaixo da graça do Senhor, porque, se eu estiver debaixo da graça de Deus, os nossos planos serão bem-sucedidos.
LANCE!: Ainda existe uma barreira para as brasileiras chegarem aos grandes clubes da Europa?
THIAGO TAVEIRA: Não existe essa barreira. Mas, na Europa, você não tem tanta facilidade para fazer bons contratos como na Arábia Saudita ou nos Estados Unidos. A atleta precisa ser uma pop star para ganhar muito dinheiro na Europa. É um mercado em crescimento absurdo, mas vejo os Estados Unidos como um campeonato que reúne tudo: qualidade técnica, competitividade, qualidade de vida e bons contratos. A Europa é um mercado estratégico. Minha estratégia com a Kathellen, por exemplo, foi vesti-la com a camisa do Real Madrid para agregar valor ao nome dela e monetizar em seguida. Não adianta a atleta terminar a carreira dizendo que jogou em grandes clubes, mas sem ter construído uma estabilidade financeira.
LANCE!: O que você projeta para o futebol feminino brasileiro no pós-Copa do Mundo de 2027?
THIAGO TAVEIRA: Tem uma safra legal de jogadoras vindo aí no Brasil. A categoria de base ainda não está como deveria, mas já melhorou bastante.
A Copa do Mundo gera um sentimento na população. Se o Brasil fizer uma grande Copa, isso vai empolgar empresas, clubes e a própria CBF. Vejo o futebol feminino como um caminho sem volta. A tendência é apenas crescer. Essa Copa do Mundo veio em um momento excelente para o futebol feminino mundial e, principalmente, para o Brasil, que vai receber a competição no melhor momento da modalidade no país.

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