Gerente comenta sobre nova casa das Spartanas e futuro do futebol feminino no América-MG
Mesmo na luta contra o rebaixamento e diante das dificuldades financeiras do clube, Daniel de Paiva fala sobre estratégia para tornar o departamento sustentável e explica a parceria com Conceição do Mato Dentro

O América-MG chega às últimas rodadas do Brasileirão Feminino com um objetivo claro: permanecer na elite nacional. Após a derrota por 1 a 0 para o Grêmio, pela 14ª rodada, as Spartanas seguem fora da zona de rebaixamento e dependem apenas dos próprios resultados para confirmar a permanência na Série A1. Nos bastidores, porém, o clube também trava outra batalha: a de manter um projeto competitivo mesmo em meio às dificuldades financeiras.
Em entrevista exclusiva ao Lance!, o gerente de futebol feminino do América-MG, Daniel de Paiva, detalhou como o clube tenta equilibrar as contas, investir na formação de atletas, buscar novas receitas e estruturar um modelo sustentável para o departamento. O dirigente também falou sobre a parceria com a Prefeitura de Conceição do Mato Dentro, o mercado de patrocínios e diz acreditar que o futebol feminino seguirá como prioridade no clube.
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'Talvez tenhamos o menor orçamento da Série A1'
Daniel reconhece que o América disputa o Brasileirão Feminino com um dos elencos mais modestos da competição, pelo menos no quesito financeiro. Segundo ele, o momento delicado vivido pelo clube como um todo obrigou o departamento feminino a trabalhar com um orçamento bastante reduzido.
Mesmo assim, o dirigente acredita que o projeto construído nos últimos anos mantém o América competitivo.
— A gente acredita muito na permanência. Talvez tenhamos a menor folha da Série A1, o menor orçamento, mas temos um trabalho sólido. Conseguimos formar atletas, fizemos duas vendas importantes neste ano e aproveitamos muitas jogadoras da base no profissional. Elas têm correspondido e segurado o rojão junto das atletas mais experientes — afirmou.
As negociações da atacante Ket, com o Palmeiras, e da zagueira Alice, com o Atlético-MG, renderam retorno financeiro ao clube e ajudaram a minimizar parte das dificuldades enfrentadas na temporada. Os valores não foram revelados.
Questionado sobre pendências salariais no departamento, Daniel de Paiva reconheceu que o América-MG enfrentou atrasos nos pagamentos ao longo da temporada.
— A nossa ideia é tentar colocar tudo em dia. Tiveram alguns atrasos relacionados com o próprio clube. O contrato de Conceição do Mato Dentro tinha previsão de ser assinado em fevereiro, mas, pelas questões burocráticas, acabou sendo assinado só agora em julho. Isso acabou deixando um probleminha de fluxo de caixa, mas que o clube está começando a sanar agora — afirmou.
Base segue no DNA, apesar da pausa
Conhecido historicamente como um clube formador, o América precisou interromper temporariamente parte do trabalho nas categorias de base. A decisão, segundo Daniel, aconteceu por dois fatores principais: restrições orçamentárias e falta de calendário para as competições de base.
O dirigente explica que o planejamento previa um ciclo de médio prazo, com equipes compostas majoritariamente por atletas mais jovens para garantir continuidade ao projeto.
— A gente não acabou com a base. Subimos praticamente todas as atletas para o profissional. O grande problema é que, sem calendário, não faz sentido manter toda uma estrutura funcionando. Nossa expectativa era disputar o Brasileiro Sub-17, mas isso não aconteceu. Ainda assim, seguimos acreditando muito nesse DNA formador, que é uma essência do América.
'O futebol feminino precisa ser tratado como negócio'
Um dos pontos mais defendidos por Daniel durante a entrevista foi a necessidade de enxergar o futebol feminino como um produto independente, capaz de gerar receitas próprias. Com formação na área de negócios antes de atuar no futebol, ele afirma que o mercado ainda carrega uma cultura de tratar a modalidade apenas como uma obrigação dos clubes.
— O futebol feminino precisa ser visto como negócio. É um produto diferente do masculino e precisa ser comercializado de outra forma. Não adianta oferecer o mesmo pacote para qualquer empresa. É preciso entender qual é o público que aquele patrocinador quer atingir.
Segundo ele, essa mudança de mentalidade levou o América a criar um braço específico voltado ao desenvolvimento comercial do departamento feminino. Daniel cita como exemplo a valorização dos espaços comerciais da equipe.
— Quando cheguei, perguntei quanto valia o patrocinador master do feminino e ouvi que era uma cortesia. A partir dali, entendemos que precisava existir valor. O futebol feminino não pode ser tratado como um bônus dentro do contrato.
De acordo com o gerente, a expectativa é de que o departamento termine a temporada próximo da autossustentabilidade.

Parceria com Conceição do Mato Dentro busca fortalecer marca e gerar receitas
A parceria entre o América-MG e a Prefeitura de Conceição do Mato Dentro prevê o patrocínio da equipe feminina por oito meses, com a marca do município estampada na parte frontal da camisa das Spartanas. Além do investimento financeiro, o acordo estabelece o Estádio Juvenção como nova casa da equipe, que passará a mandar seus jogos no local após as adequações exigidas pela CBF. O projeto também busca fortalecer o futebol feminino, incentivar a formação de atletas e gerar impacto econômico e social para o município.
A ideia nasceu após uma experiência vivida por Daniel durante sua passagem pelo Palmeiras, que mantinha relação semelhante com a cidade de Vinhedo. Além do retorno financeiro, o dirigente acredita que levar partidas para o interior ajuda a ampliar a presença da marca do América.
— Você leva futebol profissional para uma cidade que muitas vezes carece de entretenimento. A população abraça o clube, as crianças passam a frequentar o estádio e podem virar torcedoras do América. É uma forma de fortalecer a marca e, ao mesmo tempo, monetizar o projeto.
Atualmente, o Estádio Juvenção passa por reformas, com ampliação do gramado, novos vestiários e modernização da estrutura. A expectativa é mandar partidas do Campeonato Mineiro no local ainda nesta temporada. Em um segundo momento, o clube estuda até mesmo transferir toda a operação do futebol feminino para Conceição do Mato Dentro.
Pioneirismo segue como marca do América
Mesmo em meio às dificuldades financeiras, Daniel faz questão de destacar que o América mantém um compromisso histórico com a modalidade. Segundo ele, o clube iniciou seu projeto de futebol feminino antes mesmo da obrigatoriedade imposta pela CBF e foi pioneiro em registrar atletas profissionais em carteira.
— O América sempre enxergou o futebol feminino como algo sério. Esse projeto começou antes da obrigação da CBF e isso mostra que existe uma cultura dentro do clube de acreditar na modalidade.
'Agora dependemos apenas da gente'
Dentro de campo, o dirigente acredita que a equipe chega ao momento mais importante da temporada em condições de alcançar o principal objetivo. Após passar boa parte da competição dentro da zona de rebaixamento, o América saiu do Z-4 e passou a depender apenas dos próprios resultados.
— Esse é o melhor momento da nossa campanha. Agora depende só da gente. Temos um grupo extremamente unido. Atletas, comissão técnica e diretoria estão na mesma página. Talvez o nosso foco seja muito mais pontuar do que pensar apenas em vencer. Cada ponto pode fazer a diferença.
América descarta encerrar projeto feminino
Nos últimos anos, clubes tradicionais reduziram investimentos ou encerraram projetos após dificuldades financeiras. Questionado sobre esse cenário, Daniel garante que esse não é o caminho pretendido pelo América. Mesmo após reduzir cerca de 70% do orçamento do departamento, o dirigente afirma que a orientação da diretoria sempre foi manter a modalidade ativa.
— O clube nunca cogitou acabar com o futebol feminino. A orientação foi enxugar, fazer dentro da realidade, mas continuar. Independentemente da permanência na Série A1, eu não acredito que o América vá encerrar esse projeto. Faz parte da história do clube e continuará fazendo.
Venda de Ket ao Palmeiras também garantiu reforços
A negociação da atacante Ket com o Palmeiras trouxe benefícios além da compensação financeira. Como parte do acordo, o América recebeu três atletas por empréstimo, as meio-campistas Ana Júlia e Clarinha e a lateral-esquerda Giselly, reforçando o elenco para a reta final do Brasileirão.
— Foi um grande negócio. Tivemos retorno financeiro, mantivemos percentual de uma venda futura e ainda recebemos três atletas que chegaram prontas para ajudar. Elas se integraram rapidamente ao grupo e já estão contribuindo dentro de campo.


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