Crivelari, Lelê, Kaká e mais: Brazil Talents Sports detalha metodologia de gestão de carreira
Agência tem portfólio de 55 atletas no Brasil e no exterior

Antes de os grandes contratos serem assinados ou de convocações para a Seleção Brasileira se concretizarem, o futuro das principais jogadoras do país é desenhado nos bastidores. As tomadas de decisão sobre renovações, transferências internacionais e gestão de imagem passam pelas mãos de profissionais dedicados a transformar o talento em carreiras sustentáveis. É nesse cenário em expansão que a Brazil Talents Sports, agência comandada por Ruany Veríssimo e Renato Santos, completa quase uma década de atuação.
Detentores da licença Fifa, os agentes administram a carreira de cerca de 55 atletas, incluindo nomes consolidados como Giovanna Crivelari, Lelê e Fátima Dutra. Com um modelo baseado em indicadores objetivos de desempenho e suporte multidisciplinar, a empresa combina gestão financeira e jurídica para garantir que as jogadoras mantenham o foco exclusivo na performance dentro de campo.
Em entrevista exclusiva ao Lance!, Ruany Veríssimo detalha a metodologia de trabalho da agência, analisa as disparidades estruturais entre os clubes brasileiros e faz um alerta sobre os desafios do ciclo pós-Copa. Para o empresário, o boom de visibilidade do Mundial precisa vir acompanhado de uma reformulação urgente na base e na capacitação dos gestores, sob o risco de o futebol feminino estagnar assim que os holofotes do grande evento se apagarem.
Esta reportagem integra uma série especial do L! sobre o mercado de transferências no futebol feminino. Ao longo das próximas publicações, serão apresentados agentes, empresas e profissionais que atuam nas negociações de atletas, além de discutir o funcionamento desse mercado, seus desafios e as oportunidades que impulsionam o crescimento da modalidade.
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Entrevista com Ruany Veríssimo, da Brazil Talents Sports
Lance! — Qual é a história da BTS e como foi a sua trajetória profissional até se tornar agente no futebol feminino?
Ruany Veríssimo — Primeiro, obrigado pela oportunidade de falar sobre nossa atuação. Infelizmente, a figura do agente foi muito banalizada no futebol e frequentemente associada a algo negativo. Eu costumo brincar que o agente não pode ser apenas honesto: precisa provar que é honesto o tempo todo.
Meu nome é Ruany Viana Veríssimo. Sou nascido e criado no Rio de Janeiro (Padre Miguel) e hoje moro em São Paulo. Joguei futebol até o sub-17 e depois me formei em Administração de Empresas, com três pós-graduações: Gestão Estratégica Empresarial, Comunicação e Marketing no Esporte e Gestão do Futebol.
Comecei no mercado corporativo tradicional. Em 2015, resolvi empreender criando uma agência de comunicação voltada para atletas (assessoria de imprensa e mercado publicitário). Entre 2017 e 2018, me uni ao meu sócio e amigo de infância, Renato, que já atuava na intermediação do futebol masculino e fundara a BTS em 2013. Decidimos criar a frente de futebol feminino em 2017.
Na época, era um mercado embrionário, com pouquíssimos agentes atuando e sem rentabilidade imediata, éramos mais entusiastas da modalidade. Nossa atuação oficial começou no fim de 2017 com a nossa primeira atleta, a Giovanna Crivelari, que trabalha conosco até hoje e se tornou um case importantíssimo para a empresa.
Lance! — Quantos anos de atuação no agenciamento de atletas a BTS completa no final do ano que vem?
Ruany Veríssimo — Completaremos 10 anos de atuação no final do ano que vem, considerando o início das nossas atividades no fim de 2017.
Lance! — Qual foi o impacto do ano de 2019 para a consolidação da agência e do futebol feminino no Brasil?
Ruany Veríssimo — O ano de 2019 foi um divisor de águas crucial. Foi quando nosso volume principal de atuação começou, marcado pela transferência da Crivelari para o Corinthians e pelo nosso auxílio na montagem do elenco do Audax. 2019 foi o ponto de partida para que a modalidade começasse a evoluir de forma consistente.
Lance! — Quais são os principais serviços e diferenciais competitivos oferecidos pela BTS?
Ruany Veríssimo — Nosso diferencial se divide em duas frentes: humanização e planejamento.
- Humanização: Entendemos o propósito individual de cada atleta. Algumas buscam estabilidade financeira imediata para transformar a vida da família em 10 a 15 anos de carreira; outras priorizam legado esportivo, como jogar Champions League, Copa do Mundo e Seleção Brasileira. Estruturamos o trabalho de acordo com esse perfil. Além disso, oferecemos suporte completo para que a atleta só pense em jogar: parcerias com nutricionistas, psicólogos do esporte, assessoria jurídica, assessoria contábil (gestão de PJ e emissão de notas para direitos de imagem) e assessoria de investimentos.
- Planejamento: No início do trabalho, traçamos metas de curto prazo (1 a 2 anos), médio prazo (3 a 5 anos) e longo prazo (6 anos em diante). Anualmente, revisamos o planejamento para analisar os resultados e reavaliar a rota. Não atuamos como meros intermediários de contrato, mas na gestão contínua de carreira.
Lance! — Quais critérios e parâmetros são utilizados para orientar a atleta na tomada de decisão sobre mudança de clube ou renovação?
Ruany Veríssimo — A palavra final é sempre da atleta, mas criamos um modelo baseado em seis indicadores de tomada de decisão:
- Comissão Técnica: Análise do estilo tático do treinador e adaptação do perfil da atleta.
- Elenco: Competitividade interna nos treinos versus minutagem e tempo de adaptação.
- Calendário: Existência de competições de alto nível o ano todo, evitando períodos de inatividade que prejudiquem a evolução e pretensões de Seleção.
- Estrutura: Qualidade do Centro de Treinamento, departamento médico, fisiologia e academia.
- Geolocalização e Qualidade de Vida: Segurança, clima e bem-estar pessoal.
- Capacidade de Investimento: Saúde financeira do clube, histórico de pagamentos em dia e capacidade real de cumprir o contratado.
Ao pontuar esses fatores, a atleta obtém clareza objetiva sobre qual projeto atende melhor aos seus objetivos.
Lance! — Como funciona o processo de obtenção da licença FIFA/CBF e qual a importância desse credenciamento para o mercado?
Ruany Veríssimo — A certificação é indispensável. A BTS é credenciada na CBF desde 2013 para atuar nacionalmente. Em 2023, a FIFA retomou o controle global das licenças de agentes, exigindo uma prova de certificação internacional.
Trata-se de um exame rigoroso com 20 questões, exigência de 75% de acerto em uma hora de prova, abrangendo mais de 500 páginas de regulamentos internacionais (transferências, código de ética, salvaguarda de menores, etc.) em idioma estrangeiro (inglês, espanhol ou francês).
Hoje, 100% da BTS possui licença FIFA ativa, o que nos habilita a operar em qualquer lugar do mundo e a representar não apenas atletas, mas também clubes compradores, clubes vendedores e confederações.
Lance! — Qual deve ser a postura do agente na relação com os clubes de futebol?
Ruany Veríssimo — A relação precisa ser pautada na coerência e no respeito mútuo. Apresentamos relatórios de performance e dados estatísticos para embasar os pleitos financeiros. Gostamos de trabalhar com contratos com gatilhos de produtividade: premiações por metas batidas, minutagem e desempenho, garantindo valorização para a atleta e proteção financeira para o clube.
Lance! — Como você avalia o nível de profissionalização dos dirigentes e gestores do futebol feminino no Brasil?
Ruany Veríssimo — Existe disposição para evoluir, mas ainda há uma grande carência técnica. O principal polo de formação, a CBF Academy, pratica custos elevados e inacessíveis para a maioria da sociedade. Muitos profissionais em clubes acabam tendo que aprender na prática, "trocando o pneu com o carro em movimento". A falta de formação acessível gera gargalos na qualificação de toda a cadeia do futebol feminino.
Lance! — Como a estrutura dos clubes e o modelo de gestão afetam o desenvolvimento da modalidade e o tempo de contrato das atletas?
Ruany Veríssimo — A maioria dos clubes brasileiros ainda opera sob modelos associativos arcaicos, sem responsabilidade fiscal direta dos dirigentes estatutários, que enxergam o futebol feminino como um "centro de custo gerador de prejuízo". Isso impede a criação de projetos de longo prazo e explica a predominância de contratos curtos (de um ano).
Em contrapartida, modelos estruturados como os da Ferroviária (onde temos atleta com contrato até 2030) e do Palmeiras demonstram que é possível criar projetos autossustentáveis, gerando receitas com transferências, patrocinadores e exploração de estrutura.
Lance! — Quantas atletas a BTS atende atualmente e quais são os principais cases de sucesso da agência?
Ruany Veríssimo — Atendemos cerca de 55 atletas, com um teto operacional máximo estabelecido em 60 atletas para preservar a qualidade da gestão direta.
Nossos principais cases incluem:
- Giovanna Crivelari: Trajetória construída desde o início até a consolidação em grandes clubes nacionais, Seleção e Champions League.
- Lelê: Expansão da projeção e posicionamento no mercado nacional e internacional.
- Fátima Dutra: Repatriação estratégica para a Ferroviária focada no objetivo de convocação, culminando na disputa da Copa América em menos de um ano.
- Kaká: Transferência para a NWSL (Estados Unidos).
- Emily: Atuação na Espanha, Seleção Brasileira e Palmeiras.
- Histórico institucional: Intermediação das duas primeiras vendas de atletas da história dos projetos do Bahia e do Red Bull Bragantino.

Lance! — Qual o impacto comercial e operacional quando uma atleta é convocada para a Seleção Brasileira?
Ruany Veríssimo — A convocação aumenta exponencialmente a valorização de mercado da atleta e funciona como uma chancela fundamental para transferências internacionais, especialmente para ligas com critérios rígidos de visto por pontuação, como a Inglaterra. Operacionalmente, a atuação da agência muda de ativa para receptiva, gerenciando a alta demanda de propostas e sondagens de clubes e scouts internacionais.
Lance! — Como você enxerga a consolidação do mercado de transferências pagas entre clubes brasileiros?
Ruany Veríssimo — A compra e venda interna de atletas é um passo indispensável para a sustentabilidade do ecossistema. No entanto, não vejo isso se tornando uma tendência generalizada a curto prazo: as compras ficarão concentradas em poucos clubes financeiramente estruturados, enquanto os demais venderão por necessidade de caixa.
Lance! — Quais são os objetivos estratégicos da BTS para os próximos 5 a 10 anos?
Ruany Veríssimo — Nossa principal meta profissional é realizar uma transferência direta de atleta para a WSL (Women's Super League), respeitando as etapas do planejamento. Buscamos a evolução contínua da qualidade dos serviços prestados, sem a ambição egocêntrica de ter apenas volume.
Lance! — Quais são as exigências legais e operacionais na gestão de atletas menores de idade?
Ruany Veríssimo — A licença FIFA exige uma credencial específica para representação de menores de idade, a qual possuímos. Operacionalmente, nenhuma abordagem ou reunião ocorre sem a presença e autorização prévia dos pais ou responsáveis legais, que participam ativamente do planejamento de carreira da atleta até a maioridade.
Lance! — A agência também atua na gestão comercial e marketing de influência das atletas?
Ruany Veríssimo — Sim. Possuímos uma divisão para marketing de influência e parcerias comerciais, atuando na precificação, posicionamento e monetização do perfil das atletas nas redes sociais em conjunto com marcas parceiras.
Lance! — Qual é a sua análise sobre o cenário e os desafios do mercado de futebol feminino no ciclo pós-Copa do Mundo de 2027 no Brasil?
Ruany Veríssimo — Analisando o futebol feminino como uma linha de produção industrial:
- Categorias de Base (Insumos): Estrutura precária e falta de calendários estaduais e nacionais contínuos.
- Qualificação Profissional (Mão de Obra): Acesso limitado a cursos de capacitação técnica.
- Modelos de Gestão (Estrutura): Predominância de gestões associativas sem visão de longo prazo.
- Imprensa e Patrocínios: Cobertura do dia a dia ainda reduzida, o que limita o investimento das marcas a grandes eventos isolados.
A Copa do Mundo de 2027 trará uma excelente visibilidade ("embalagem do produto"), mas há o risco de retrocesso se a estrutura interna do futebol brasileiro não for reformulada antes do evento. Sem um planejamento de legado sustentável por parte de confederações e clubes, a modalidade poderá estagnar após a Copa.

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