Da foto ao contrato: como funciona a gestão 360° da W Jardim Sports no futebol feminino
Fundada em 2022, agência carioca atua no modelo "serviço premium" e oferece suporte de imagem, performance e apoio jurídico para atletas e treinadoras

A paixão de Sérgio Jardim pelo futebol feminino remonta a 1995 quando, aos 12 anos, acompanhou pela televisão a marcante vitória da Seleção Brasileira por 6 a 0 sobre a Argentina, em Uberlândia, embalada pela narração de Luciano do Valle e pelos gols de Sissi, Roseli e Pretinha. Jornalista de formação e com vasta trajetória em comunicação corporativa, assessoria de imprensa, gestão de crises e campanhas políticas, Sérgio consolidou-se como sócio da agência Staff em 2015, aproximando-se definitivamente do ecossistema do futebol feminino por meio da cobertura e atendimento em edições da Copa Libertadores Feminina para a Conmebol.
A constatação do enorme déficit profissional que cercava as jogadoras no Brasil foi o estopim para a criação da W Jardim Sports em 2022. Ao notar que atletas de alto rendimento careciam do básico, desde a falta de acompanhamento jurídico e presencial na assinatura de contratos até a compra com recursos próprios de suas chuteiras, Sérgio decidiu buscar capacitação técnica para ingressar no ramo. Acumulando certificações pela CBF Academy, ESPM, FIFA e imersões em Direito Desportivo, fundou a agência com uma premissa inegociável: atuação 100% dedicada ao universo feminino.
Operando sob a filosofia do "serviço premium" e da visão 360º, como ele define (integra agenciamento de carreira, assessoria de imprensa, fotos profissionais exclusivas, media training e análise de desempenho personalizada), a W Jardim Sports conquistou espaço. Em entrevista concedida ao Lance!, Sérgio Luis reflete com franqueza sobre a transição do perfil das atletas, a postura adequada nos bastidores, as disparidades regionais e os impactos da Copa do Mundo de 2027 no Brasil.
Esta reportagem integra uma série especial do Lance! sobre o mercado de transferências no futebol feminino. Ao longo das próximas publicações, serão apresentados agentes, empresas e profissionais que atuam nas negociações de atletas, além de discutir o funcionamento desse mercado, seus desafios e as oportunidades que impulsionam o crescimento da modalidade.
Entrevista com Sérgio Jardim, da W Jardim Sports
A W Jardim Sports foi fundada recentemente, em 2022. Gostaria que você contasse essa história e por que você entrou nesse mercado de gerenciamento de carreira do futebol feminino.
Sérgio Luis (W Jardim Sports): Sou jornalista há bastante tempo. Tenho 43 anos e sempre atuei com imagem, assessoria de imprensa, gestão de crise e comunicação política. Isso me deu uma bagagem imensa, pois lida-se com crises diariamente. Em 2015, virei sócio da agência Staff+, da qual sou sócio até hoje.
Lance!: Do ponto de vista de mercado, você que entrou acompanhando jogos de base, sente muita resistência hoje? Acha que é um mercado fechado ou aberto? Como você avalia?.
Sérgio Luis: Não sinto resistência direta. Estamos vivendo um momento de grande ruptura no mercado. O perfil das atletas mudou completamente: elas não aceitam mais aquele agente tradicional que cobra 10%, fala com elas uma vez por mês e entrega uma chuteira de segunda mão. Hoje elas exigem chuteiras de marca (Nike, Adidas), análise de desempenho e respeito técnico e humano.
Lance!: Você ressaltou o fato de a W Jardim Sports atuar 100% no futebol feminino. Como funciona essa escolha no dia a dia da agência?
Sérgio Luis: Respeito muito quem está no mercado há bastante tempo, mas o fato de atuarmos 100% no esporte feminino é nosso grande diferencial. Não fazemos futebol masculino e nunca tivemos essa pretensão. Não migramos para o feminino em busca de espaço não encontrado no masculino; nascemos exclusivamente para as mulheres. Não agenciamos sequer treinadores homens, apenas treinadoras mulheres. Quando nos procuram para agenciar atletas do masculino, recusamos. É uma diretriz institucional.
Lance!: Se você fosse descrever a sua rotina no acompanhamento das atletas e presenças em jogos no Brasil, como ela funciona?
Sérgio Luis: Acompanho muitos jogos in loco. Tenho, por exemplo, oito atletas no Vasco da Gama atualmente, então acompanho os jogos com frequência. Porém, existe um ponto que me incomoda profundamente: a presença ostensiva de agentes homens em ambientes de jogos de base feminina.
Lance!: Quais você considera os maiores desafios do futebol feminino brasileiro e da função de agente dentro da modalidade?
Sérgio Luis: Os desafios são diários. O primeiro é o letramento constante e a adequação da linguagem. Tenho 43 anos e atendo atletas nascidas em 2010. Busco leitura constante de autoras femininas e estudo contínuo para compreender as mudanças de geração e me integrar ao universo feminino com a máxima empatia e respeito.
Lance!: Como é o relacionamento da agência com os clubes e qual deve ser a postura do agente perante os dirigentes?
Sérgio Luis: A palavra-chave é independência. Eu trabalho para as atletas, não para os clubes. Isso às vezes causa estranhamento em mesas de negociação porque representa uma quebra com a política tradicional. Muitos agentes monetizam e ganham dinheiro dependendo de agrados dos clubes, o que destrói sua independência profissional.
Lance!: Qual é o perfil psicológico e disciplinar que os clubes atualmente buscam nas atletas em formação na base?
Sérgio Luis: É extremamente diversificado e heterogêneo. Clubes estruturados como Ferroviária, Palmeiras e Grêmio realizam um trabalho impecável e multidisciplinar na base. Por outro lado, há clubes onde falta absolutamente tudo. Grandes equipes do cenário nacional, como Cruzeiro e Atlético Mineiro, ainda engatinham na base, mantendo parcerias sem trabalhos continuados.
Lance!: Pode compartilhar algum case ou situação marcante na trajetória da W Jardim Sports de que você se orgulhe?
Sérgio Luis: O case do Vasco da Gama ilustra bem nossa filosofia. Acompanhei o clube em momentos precários, quando o time sub-20 jogava no Caio Martins e os salários da base eram de R$ 250. Trabalhei com atletas desde essa fase, como a Mayara. Acompanhamos a Mayara desde os R$ 250 iniciais. Hoje, ela é a titular da lateral-direita, terceira capitã do time profissional principal do Vasco e possui um excelente contrato. Acompanhar todas as etapas de maturação de uma atleta e proporcionar evolução financeira e estrutural é a maior realização do nosso trabalho. Atualmente, gerenciamos diferentes perfis no Vasco, desde atletas experientes, como a Lidic até jogadoras consolidadas de 28 anos (como a goleira Renata e a Carolzinha).
Lance!: Como você detalha o que chama de "serviço premium" e de suporte completo prestado pela agência às atletas?
Sérgio Luis: Nosso modelo oferece uma gestão de comunicação e performance integral. Nenhuma atleta nossa compra a própria chuteira; nós garantimos o fornecimento de material esportivo. Oferecemos cobertura fotográfica profissional individualizada em todas as partidas que disputam.
Lance!: Para finalizar, qual é a sua expectativa real para a Copa do Mundo de 2027 no Brasil e para o futuro da modalidade?
Sérgio Luis: A Copa do Mundo de 2027 será um marco histórico e um ponto de virada definitiva para o Brasil. Trará a entrada de grandes investimentos e profissionais do masculino no feminino - o que exige vigilância para manter o respeito conquistado pelas mulheres na modalidade.
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