'Caminho certo antes da velocidade': a filosofia da Squadra 13 para guiar talentos do futebol feminino
Andrea Sucupira conta história da agência responsável por Gi Fernandes, do Corinthians, e Laura Valverde, do Red Bull Bragantino, e outras atletas

A relação de Andrea Sucupira com o futebol reflete a resiliência de uma geração de mulheres que cresceu no Brasil sob a vigência da proibição legal do esporte para o público feminino. Nascida em 1972, Andrea vivenciou a infância sem a oportunidade de atuar em quadras escolares ou de escolher a modalidade.
A aproximação definitiva com os bastidores do futebol ocorreu anos mais tarde, ao acompanhar a trajetória de um dos seus filhos nas categorias de base do São Paulo Futebol Clube. Vivenciando o ambiente de arquibancada e convivendo com famílias de jovens atletas, Andrea, que é advogada por formação com mais de três décadas de experiência corporativa, viu a falta de transparência e o desamparo jurídico que marcavam o início da carreira de muitas promessas esportivas.
Decidida a transformar o cenário e conectar a paixão da infância à sua bagagem técnica, Andrea buscou especialização de elite no Brasil e no exterior. Concluiu o MBA em Gestão do Esporte pela Universidade de São Paulo (USP), realizou especialização em agenciamento na Universidade de Lisboa e obteve a certificação de agente de jogadores pela CBF Academy. Em 2021, fundou a Squadra 13 (cuja denominação une a paixão pelo futebol italiano ao seu número de sorte), iniciando as operações oficiais em 2022 com a premissa de oferecer um agenciamento ético, seguro e verdadeiramente estruturado.
Hoje, a Squadra 13 conta com um elenco exclusivo de 20 atletas e duas treinadoras, com uma equipe multidisciplinar de cinco profissionais. O modelo da agência fundamenta-se em três pilares centrais: suporte jurídico direto e especializado, medicina e prevenção em fisioterapia (com clínica própria em parceria) e planejamento estratégico de carreira de longo prazo. Possuidora da licença Fifa, inclusive para atuar com menores de idade, Andrea Sucupira falou ao Lance! sobre o amadurecimento do mercado, os desafios de transferência internacional e as metas para a consolidação da modalidade no Brasil.
Esta reportagem integra uma série especial do L! sobre o mercado de transferências no futebol feminino. Ao longo das próximas publicações, serão apresentados agentes, empresas e profissionais que atuam nas negociações de atletas, além de discutir o funcionamento desse mercado, seus desafios e as oportunidades que impulsionam o crescimento da modalidade.
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Entrevista com Andrea Sucupira, da Squadra 13
Gostaria que você me falasse um pouco sobre a Squadra 13, como iniciaram o trabalho e como você se formou e direcionou seus estudos para atuar no gerenciamento de carreira.
Andrea Sucupira (Squadra 13): Eu venho de uma geração em que o futebol feminino era proibido por lei no Brasil. Sou de 1972, nasci sob a proibição que só foi revogada em 1979 e regulamentada em 1983. Sempre fui apaixonada por futebol, jogava bola com meus dois irmãos, mas não podia jogar no recreio da escola. Mais tarde, casei, tive dois filhos e fui para as arquibancadas como mãe e torcedora. Um dos meus filhos jogou na base do São Paulo. Como advogada de formação, conversando com pais de outros atletas na arquibancada, vi uma falta imensa de transparência no futebol. Lidava-se com o sonho de famílias com conhecimento educacional frágil, envolvidas em cenários ilusórios. Decidi me qualificar: fiz MBA em Gestão do Esporte pela USP, curso de agenciamento na Universidade de Lisboa e o curso de agente da CBF Academy. Hoje, jogo no time feminino do meu condomínio todas as quartas-feiras! Juntei meu sonho de infância à minha formação e fundei a Squadra 13 — o nome vem da paixão pela Itália ("Squadra") e do meu número de sorte (13). Fundamos em 2021 e iniciamos as operações em 2022. Quando atendo uma atleta na base, sinto que realizo um pouco do meu sonho de infância de não ter tido a oportunidade de escolher jogar.
Quantas atletas e profissionais vocês têm no portfólio atualmente? E como é a estrutura do staff da Squadra 13?
Andrea Sucupira: Hoje temos 20 atletas e duas treinadoras. Nosso staff é composto por cinco pessoas. Eu possuo as licenças de agente da CBF e da FIFA, sendo responsável pelas intermediações e contato direto com os clubes. Temos o apoio de análise técnica e mapeamento de mercado internacional com o Felipe, que fica alocado na Itália e faz análises pré e pós-jogos com as atletas. A minha sócia, Lisandra, é fisioterapeuta e proprietária de uma clínica de fisioterapia, que compõe a estrutura da agência. Nossa atuação se consolida em três pilares centrais: o Jurídico (pela minha formação em Direito, garantindo suporte direto em situações contratuais complexas); a Saúde e Prevenção (fazemos avaliação física completa na chegada da atleta para evitar lesões, além de oferecer suporte de recovery e fortalecimento nas férias e em intercâmbios em São Paulo); e o Planejamento de Carreira.
3. Lance!: Como funciona na prática a metodologia de Planejamento de Carreira da Squadra 13 com as atletas?
Andrea Sucupira: Sempre começo com a seguinte frase para minhas atletas: "O que importa é o caminho certo, não a velocidade". Minha experiência de mais de 30 anos no meio jurídico empresarial me ensinou que é preciso planejamento e clareza de onde se quer chegar, sem atropelar etapas.
Atendemos muitas atletas em formação que lidam com a ansiedade da família em chegar rapidamente ao profissional por expectativa financeira. Nós mapeamos a situação atual e definimos metas anuais dentro do contrato de agenciamento (que hoje possui limite legal de 3 anos). Fazemos revisões trimestrais para ajustar o planejamento caso ocorram lesões, trocas de comissão técnica ou mudanças de contexto. Ensino a elas outra frase fundamental: "Você está titular, você não é titular". O conforto paralisa; o desconforto gera crescimento. Trabalhamos a preparação emocional e mental para que enfrentem cirurgias de LCA, banco de reservas e não convocações como desafios de amadurecimento, e não como problemas paralisantes. Explicamos juridicamente a diferença entre contrato de formação, contrato amador, contrato profissional e vínculo federativo para que saibam exatamente onde estão pisando.
Lance!: Como é o relacionamento da Squadra 13 com os clubes e diretorias no Brasil e no exterior? Você percebe maior profissionalização desde 2022?
Andrea Sucupira: O networking é essencial, mas, acima de tudo, o relacionamento é construído com as pessoas e diretorias dos clubes. Há uma rotatividade imensa de gestoras entre equipes (Inter, Cruzeiro, Grêmio, etc.), por isso mantenho contato constante e pautado na ética e transparência. Buscamos conhecer profundamente a dinâmica e a filosofia dos clubes no Brasil e no exterior (já visitei instalações do Real Madrid e de equipes europeias) para entender se o perfil da atleta se encaixa na cidade, no grupo e na cultura local. A atleta não vive só os 90 minutos de jogo, ela vive os 365 dias do ano no ambiente do clube. Quando uma atleta minha não está jogando, sento com a diretoria não para contestar decisões técnicas do treinador, mas para ouvir o feedback profissional do clube: a atleta está sem intensidade, dispersa ou fora do peso? Trazemos os dados para a atleta e cobramos a evolução necessária. A profissionalização aumentou muito desde 2022: os clubes da Série A1 planejam contratações e renovações com 6 meses de antecedência e negociam pré-contratos de forma estruturada.
Lance!: O que muda no mercado e nas sondagens internacionais quando uma atleta da agência é convocada para a Seleção Brasileira? Vocês vivenciaram isso com a Gi Fernandes?
Andrea Sucupira: A Gi Fernandes já vinha com histórico nas categorias de base das Seleções, então havia um afunilamento natural. Quando a atleta chega à Seleção Principal, o nome dela passa a ocupar outra prateleira no mercado global. Ao mesmo tempo, é fundamental manter os pés no chão, porque essa valorização aumenta também a responsabilidade e o nível de exigência. A convocação representa um reconhecimento importante, mas a consolidação da carreira depende de constância, disciplina, evolução diária e boas decisões dentro e fora de campo. Diretores de clubes da Europa me dizem abertamente: "Nós olhamos primeiro para quem está na Seleção Brasileira, pois a Seleção já fez o filtro inicial por nós". Quando sai a lista de convocadas, recebo mensagens imediatas do exterior perguntando tempo de contrato e valor da multa rescisória. Os clubes acompanham os dados pela plataforma Wyscout. Por isso, a engenharia contratual precisa ser muito bem feita para não inviabilizar uma transferência internacional, respeitando o patamar financeiro realista do futebol feminino.
6. Lance!: Você possui a licença de agente pela CBF ou pela FIFA? Como funciona a exigência para trabalhar com atletas menores de idade?
Andrea Sucupira: Tenho a licença de intermediária da CBF (desde 2022) e a licença oficial de agente da FIFA, obtida após a aprovação no exame internacional em 2023. Além disso, possuo a certificação específica da Fifa para a Salvaguarda e Trabalho com Menores de Idade. Muitas pessoas desconhecem essa peculiaridade: a prova da FIFA concede a licença geral para maiores de 18 anos. Para constar na carteira a autorização para agenciar menores, é necessário concluir uma formação complementar e rigorosa em salvaguarda de menores de idade. Defendo com firmeza a regularização da profissão: não sou "empresária", sou agente licenciada. Exijo formalidade, registro de contratos na plataforma da CBF, seguro anual obrigatório e conformidade com a Clean House da FIFA.
Lance!
Lance!: Qual a sua avaliação sobre os custos de manutenção da licença FIFA e a diferença do mercado feminino para o masculino?
Andrea Sucupira: A prova da Fifa é extremamente rígida e densa: exige estudo de mais de 600 páginas de legislação desportiva em língua estrangeira, com tempo limitado e exigência alta de acertos. Para manter a agência regularizada, pagamos uma taxa anual de $ 300 dólares à FIFA em setembro, além do seguro anual e taxas da CBF. O custo estrutural para manter uma agência focada no feminino é idêntico ao do masculino, mas o ticket médio de receitas no feminino ainda é incomparavelmente menor. Quem trabalha 100% no futebol feminino faz isso por convicção e planejamento, enfrentando custos altos sem qualquer benesse ou incentivo tributário.
Lance!: Como você enxerga as disparidades regionais no Brasil, especialmente a concentração de investimentos em São Paulo em comparação ao Rio de Janeiro e outros estados?
Andrea Sucupira: Em São Paulo, o futebol feminino é um esporte mais consolidado e estruturado. Quando saímos de São Paulo, a realidade é muito diferente. No Rio de Janeiro, apesar do discurso de tornar a cidade a "capital do futebol feminino", a realidade dos clubes cariocas ainda enfrenta muitas dificuldades. Para o Rio aproveitar o legado da final no Maracanã, os clubes locais precisam investir de fato na modalidade. Não adianta realizar um grande evento internacional sem fortalecer os campeonatos estaduais e a estrutura diária das equipes.
10. Lance!: Onde você quer que a Squadra 13 esteja daqui a 8 anos? Qual é o planejamento de longo prazo da agência para o futebol feminino?
Andrea Sucupira: Quero que a Squadra 13 continue sendo uma referência de ética, profissionalismo e fortalecimento da base. Lutamos diariamente contra condições precárias no futebol. Já vi experiências exploratórias em que atletas jogavam basicamente por comida - cenários que beiram o trabalho análogo à escravidão. Como membro da Comissão de Direito Desportivo da OAB, defendo a obrigatoriedade de contrato profissional para qualquer clube que dispute competições profissionais. Qualquer estabelecimento comercial precisa de formalidade trabalhista; os clubes de futebol também devem exigir essa postura. Espero que em 8 anos não precisemos mais discutir o básico da profissionalização, que tenhamos ética de mercado, canais abertos e que a Squadra 13 siga transformando a vida das atletas através do esporte.
Lance!: Qual a sua expectativa para a Copa do Mundo de 2027 no Brasil e o que precisa ser feito para alavancar o mercado no pós-Copa?
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