Logo do Lance! branca com exclamação amarela

Conheça a Premiere, agência de futebol feminino fundada por ex-jogador da base do Fluminense

Empresa é responsável pela gestão de carreira de 15 atletas, entre elas, Adrielly (Fluminense) e Anna Bia (São Paulo)

PorGiselly Correa BarataSão Paulo (SP)
01/08/2026 12:58
Jean Dutra, da Premiere, e Adrielly, joia do Fluminense. (Acervo pessoal)
Jean Dutra, da Premiere, e Adrielly, joia do Fluminense. (Acervo pessoal)

Antes de atuar como agente, Jean Dutra foi meia-atacante das categorias de base do Fluminense, onde permaneceu desde os oito anos e conquistou o Mundial sub-15. Depois de encerrar a carreira, trabalhou no jornalismo esportivo e, em seguida, ingressou em uma empresa de gestão de carreiras no futebol masculino, para hoje atuar com futebol feminino na Premiere Assessoria Esportiva.

A mudança para o a modalidade aconteceu em 2019, após a Copa do Mundo Feminina. Segundo Jean, o contato com atletas mostrou que muitas profissionais não tinham uma estrutura adequada de gestão de carreira, principalmente em temas que vão além do desempenho em campo, como planejamento financeiro, contratos e organização da vida profissional. Na prática, o ex-atleta sentiu as dores das jogadoras, semelhantes às que enfrentou, e decidiu investir na nova carreira.

continua após a publicidade
Jean Dutra foi menino de Xerém, formado na base do Fluminense. (Acervo pessoal)
Jean Dutra foi menino de Xerém, formado na base do Fluminense. (Acervo pessoal)

Foi a partir dessa percepção que nasceu a Premiere Assessoria Esportiva, agência voltada exclusivamente ao futebol feminino, que hoje gerencia nomes como a meia Adrielly, do Fluminense, e Anna Bia, goleira do São Paulo. Atualmente, a empresa trabalha com 15 atletas e prioriza um acompanhamento individualizado, com monitoramento constante, análise de desempenho, apoio psicológico, orientação jurídica quando necessário e estratégias de visibilidade para as jogadoras.

Em entrevista ao Lance!, Jean falou sobre o modelo de trabalho da agência, a relação com os clubes, a profissionalização do mercado e as expectativas para o legado da Copa do Mundo de 2027. 

continua após a publicidade

Esta reportagem integra uma série especial do L! sobre o mercado de transferências no futebol feminino. Ao longo das próximas publicações, serão apresentados agentes, empresas e profissionais que atuam nas negociações de atletas, além de discutir o funcionamento desse mercado, seus desafios e as oportunidades que impulsionam o crescimento da modalidade.

➡️ Tudo sobre Futebol Feminino agora no WhatsApp. Siga nosso novo canal Lance! Futebol Feminino

Entrevista com Jean Dutra, agente da Premiere

Lance! - Como surgiu a Premiere e a sua trajetória como agente?

Jean Dutra - Eu sou um moleque de Xerém. Meu contato com o futebol começou muito cedo, aos oito anos. Tive a oportunidade de viver duas fases importantes da minha vida dentro do esporte: primeiro como atleta e depois trabalhando nos bastidores. Sendo jogador, participei de negociações importantes para a minha carreira e tive empresários muito qualificados. Isso me permitiu observar como funcionava o trabalho de um agente e entender a importância de ter pessoas preparadas para orientar o atleta.

continua após a publicidade

Depois que parei de jogar, fui para o jornalismo esportivo. Trabalhei em uma rádio ligada ao Grupo Bandeirantes durante o período dos Jogos Olímpicos do Rio e foi ali que retomei o contato com o esporte. Mais tarde recebi um convite para trabalhar em uma empresa de gestão de carreira no futebol masculino e comecei a entender o outro lado da profissão.

Em 2019, durante a Copa do Mundo Feminina, percebi que existia um cenário completamente diferente. Havia muito menos estrutura para as atletas e muitas delas não tinham uma gestão de carreira eficiente. Foi quando decidi migrar para o futebol feminino e começar esse trabalho. No início precisei mudar completamente minha maneira de enxergar o futebol. É a mesma modalidade, mas com uma realidade totalmente diferente. Aprendi muito sobre recomeçar, sobre ter paciência e sobre compreender as necessidades das atletas. Também aprendi muito com a força delas para conquistar espaço.

continua após a publicidade

Lance! - O que um agente precisa ter para gerenciar uma carreira?

Jean Dutra - O principal é dar direção para a atleta. Mostrar que uma vitória não é o céu e uma derrota também não é o inferno. O agente precisa trazer equilíbrio. Eu procuro interferir o mínimo possível na vida pessoal delas, mas existem momentos em que é preciso orientar. O futebol feminino tem características próprias e o agente precisa saber lidar com isso. Mais importante do que qualquer curso é conseguir enxergar a atleta além do campo.

Em 2019 fiz cursos na CBF Academy voltados para análise de desempenho justamente para entender melhor esse processo. O futebol não é só o que acontece durante os 90 minutos. Muitas vezes uma atleta está vivendo um momento difícil por questões pessoais, e isso se reflete dentro de campo. Em outros casos acontece exatamente o contrário. Por isso acredito muito em um trabalho humanizado. Foi isso que aprendi na minha formação dentro do Fluminense. Lá tive contato com psicóloga, assistente social, curso de inglês e outros profissionais que ajudaram na minha formação como cidadão. Tento levar isso para o meu trabalho hoje.

continua após a publicidade

Lance! - Como funciona o trabalho da Premiere?

Jean Dutra - Hoje trabalhamos com pessoas terceirizadas em algumas áreas, como redes sociais, mas faço questão de acompanhar jogos e analisar atletas pessoalmente. A especialidade da empresa é análise e captação. Fazemos monitoramento constante tanto das atletas que já fazem parte da agência quanto das que ainda estamos observando.

A avaliação não passa apenas pelo desempenho dentro de campo. Também observamos comportamento, estrutura familiar e buscamos feedbacks dos clubes. Hoje trabalhamos com apenas 15 atletas porque acreditamos que não é possível dar atenção de qualidade para um grupo muito grande. Além do acompanhamento esportivo, prestamos apoio psicológico, orientação jurídica quando necessário e também ajudamos na construção da visibilidade das atletas.

continua após a publicidade

Lance! - Como você avalia a relação entre agentes e clubes?

Jean Dutra - Minha relação sempre foi muito boa. Quando existe alguma preocupação em relação à atleta, procuro resolver da maneira mais tranquila possível. Meu trabalho é proteger a carreira dela. Os clubes já enfrentam muitos problemas internos e não vejo motivo para criar conflitos desnecessários. O foco sempre é pensar no melhor para a atleta.

Lance! - Como funciona a captação de atletas?

Jean Dutra - Temos mais duas pessoas trabalhando comigo nessa área. Acompanhamos praticamente todos os jogos das Séries A1, A2 e A3, principalmente quando existe transmissão. Quando uma atleta entra em contato ou recebe indicação, analisamos o histórico, o material disponível e o desempenho. Também avaliamos potencial de mercado. Existem atletas muito boas tecnicamente, mas que ainda não apresentam um histórico consistente. Seguimos critérios bem definidos e trabalhamos com métricas internas para decidir quem faz sentido integrar ao grupo. O objetivo sempre é oferecer um acompanhamento de qualidade e ser justo com todas as atletas.

continua após a publicidade

Lance! - Você percebe evolução na profissionalização do futebol feminino?

Jean Dutra, da Premiere - Não vejo essa evolução toda, pois ainda existe muito amadorismo. Se estivéssemos evoluindo, não veríamos clubes chegando à Série A1 e desistindo do projeto pouco tempo depois. Isso prejudica diretamente as atletas.

Também vejo muito amadorismo na arbitragem, na gestão e na administração dos clubes. Muitas vezes as pessoas menos experientes na arbitragem acabam sendo direcionadas para o futebol feminino e isso prejudica muito o jogo.

continua após a publicidade

Sem investimento é impossível fazer futebol profissional. Meu papel é justamente proteger as atletas desse ambiente e evitar que elas sofram as consequências dessas decisões.

Lance! - Poderia citar exemplo o qual você se orgulhe na agência?

Jean Dutra -  O caso da Adrielly. Quando a conheci, ela ganhava R$ 800 por mês. Era uma camisa 10 titular recebendo menos de um salário mínimo. Conseguimos acompanhar toda essa evolução. Ela renovou contrato até 2029, foi convocada diversas vezes para a Seleção Brasileira e hoje vive uma realidade completamente diferente. Tenho muito orgulho dessa trajetória porque consegui acompanhar essa mudança de vida. Sempre digo que ela precisava aproveitar a oportunidade, crescer profissionalmente e construir uma história dentro do clube.

continua após a publicidade

Lance! - A convocação para a Seleção muda a carreira da atleta?

Jean Dutra -  O mercado naturalmente passa a olhar diferente, mas minha maior preocupação nunca foi essa. Minha preocupação é preparar psicologicamente a atleta para lidar com tudo o que acontece depois. Chegar à Seleção já é difícil. Permanecer é muito mais difícil.

No caso da Adrielly, o foco continua sendo a evolução dela no Fluminense. As oportunidades internacionais vão aparecer naturalmente, mas é preciso entender se esse momento é realmente o melhor para ela, considerando adaptação, idioma, cultura e tudo o que envolve uma mudança desse tamanho.

continua após a publicidade

Lance! - O mercado internacional ainda olha muito para a Seleção?

Jean Dutra, da Premiere - Sim, mas acredito que isso ainda demonstra uma limitação do mercado. No futebol masculino, muitos clubes acompanham jogadores antes mesmo da convocação. No feminino isso ainda acontece menos. O ideal seria que os clubes observassem mais o Campeonato Brasileiro e acompanhassem a evolução das atletas ao longo do tempo, e não apenas quando elas chegam à Seleção.

Lance! - O que espera do legado da Copa do Mundo de 2027?

Jean Dutra - Acho que já estamos atrasados. As federações e os clubes já poderiam estar aproveitando esse momento para aproximar as atletas da Copa do Mundo e fortalecer o futebol feminino.

continua após a publicidade

Depois da Copa espero que exista mais respeito pelas atletas e melhores condições estruturais. Ainda discutimos questões muito básicas, como alojamentos, gramados, suplementação e estrutura de trabalho. O legado precisa passar por clubes e federações. Só assim a modalidade vai evoluir de forma consistente.

Anna Bia, do São Paulo, é agenciada pela Premiere. (Reprodução/redes sociais)
Anna Bia, do São Paulo, é agenciada pela Premiere. (Reprodução/redes sociais)
Sugerida para você!

Mais LANCE!