Prorrogação aumenta risco de lesão e ameaça semifinalistas da Copa do Mundo
Oito partidas de mata-mata foram para a prorrogação neste Mundial

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As semifinais da Copa do Mundo colocarão frente a frente duas seleções que precisaram ir além do tempo regulamentar para seguir vivas. No último fim de semana, Inglaterra e Argentina só garantiram vaga depois de 120 minutos de jogo. Os ingleses derrotaram a Noruega na prorrogação, enquanto os argentinos superaram a Suíça. O mérito pela classificação veio acompanhado de uma conta física que, segundo a ciência, costuma ser cobrada poucos dias depois.
A prorrogação sempre foi tratada como um teste de resistência, um momento em que o aspecto emocional se mistura à capacidade de suportar o desgaste. Hoje, porém, pesquisadores enxergam esse período de outra forma. Para especialistas em fisiologia do esporte, os 30 minutos adicionais representam justamente o trecho da partida em que o rendimento mais despenca e o risco de lesões mais cresce, sobretudo em torneios disputados em sequência, com pouco tempo de recuperação entre um compromisso e outro.
O que a ciência descobriu sobre os 120 minutos
Uma revisão sistemática conduzida por especialistas de três universidades do Reino Unido reuniu os principais estudos disponíveis sobre partidas de futebol com prorrogação. Após uma busca em bases científicas internacionais, apenas 11 pesquisas atenderam aos critérios metodológicos para avaliar os efeitos específicos dos 120 minutos de jogo.
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Os resultados apontam um padrão consistente. Durante a prorrogação, os atletas percorrem entre 5% e 12% menos metros por minuto do que nos 90 minutos anteriores. A queda não aparece apenas na distância percorrida. Também diminuem as corridas em alta intensidade, os sprints, as acelerações e desacelerações, justamente as ações que costumam decidir partidas de mata-mata.
O desgaste também chega à parte técnica. Os pesquisadores observaram redução na velocidade dos chutes, no número de passes realizados, na quantidade de passes certos e nos dribles completados. Em uma análise específica de partidas profissionais disputadas na Europa, o segundo tempo da prorrogação apresentou uma queda expressiva nas ações ofensivas. Os jogadores realizaram menos passes, acertaram menos passes e driblaram menos, enquanto o tempo efetivo de bola em jogo também diminuiu, reflexo de um futebol mais travado e conservador.
Do ponto de vista fisiológico, a fadiga vai além da sensação de cansaço. Os estudos identificaram redução da força muscular máxima, sinais de fadiga do sistema nervoso central, aumento de marcadores inflamatórios, alterações hormonais e maior dificuldade de recuperação nos dias seguintes. Os níveis elevados de creatina quinase, associados ao dano muscular, permanecem altos após partidas com prorrogação, indicando que o organismo demora mais para retornar ao estado ideal.
Um desgaste que pode decidir as semifinais
O cenário ganha ainda mais relevância porque oito partidas do mata-mata desta Copa do Mundo já precisaram da prorrogação, número elevado para um torneio que entra agora em sua fase decisiva.
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A FIFPRO, sindicato internacional dos jogadores, alerta que disputar 120 minutos em alta intensidade pode provocar queda imediata de até 20% no rendimento físico e elevar significativamente o risco de lesões musculares e de exaustão extrema. A entidade relaciona esse efeito ao acúmulo de jogos, viagens internacionais, mudanças de clima e períodos cada vez menores de recuperação ao longo da temporada.

Para seleções como Argentina e Inglaterra, que chegam à semifinal depois de partidas longas e emocionalmente desgastantes, esse fator passa a integrar a preparação tanto quanto a estratégia tática. Recuperar jogadores deixa de ser apenas uma questão médica e se transforma em elemento competitivo.
Os próprios pesquisadores observam que, em muitos casos, a prorrogação produz um efeito curioso. Em vez de estimular ataques desesperados, ela costuma incentivar um comportamento mais cauteloso. Sabendo que o desgaste cresce rapidamente, treinadores frequentemente optam por baixar as linhas defensivas, controlar riscos e conduzir a decisão para os pênaltis.
Tradição cada vez mais questionada
A prorrogação nasceu como solução prática para evitar o remanejamento de partidas decisivas. No futebol moderno, entretanto, seu custo físico passou a despertar debates importantes.
Os estudos sugerem que a extensão da partida acrescenta um esforço justamente quando os atletas já apresentam fadiga acumulada por temporadas congestionadas, viagens constantes e recuperação incompleta. O aumento das temperaturas em muitas sedes internacionais ainda amplia esse cenário, tornando o estresse fisiológico mais intenso.
Curiosamente, a Copa do Mundo costuma registrar menos lesões com afastamento do que as competições de clubes. Os pesquisadores explicam esse aparente paradoxo por outro motivo: a disponibilidade dos jogadores. Em um Mundial, muitos atletas aceitam atuar mesmo convivendo com dores ou limitações físicas que, em seus clubes, provavelmente resultariam em controle de carga ou até afastamento temporário.
Por isso, a menor incidência estatística de lesões não significa necessariamente que o corpo esteja sendo menos exigido. Em muitos casos, apenas revela um aumento da tolerância ao risco em nome do torneio mais importante do futebol.
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À medida que a Copa do Mundo se aproxima da decisão, esse desgaste invisível pode pesar tanto quanto qualquer aspecto técnico. Depois de oito partidas decididas na prorrogação, as semifinais prometem colocar frente a frente não apenas as melhores seleções do torneio, mas também aquelas que conseguiram sobreviver ao preço cobrado pelos 120 minutos.
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